Esse ano de 2026 começou de maneira diferente. Resolvi parar de mentir pra mim mesmo, lutar contra a minha natureza. Tem alguns anos que eu já vinha notando que eu não era o mesmo, que algo tinha mudado, mas eu não queria aceitar, pois sei que o tratamento seria outro. Mas a verdade é que já vinham me tratando diferente. Eu me segurei o máximo que pude. Não sou o primeiro da minha família a ser assim e provavelmente não serei o último. Essa maldição não acaba em mim, mas talvez, se eu não tiver filho, talvez eu quebre essa corrente. Estou falando da calvície.
Sim, eu sou calvo. Mesmo que esse não seja o melhor momento para se assumir calvo, dados os exemplos ruins que tem na internet, calvo do Campari - sujeito que manchou o nome dos calvos e do Campari - o “ódio” contra os calvos, a quantidade de memes, eu não podia mais fingir que eu não sou. Eu sou. Não queria isso, eu não pedi isso, eu nasci assim. Esse presente foi me dado no nascimento. Quando me tiraram da barriga da minha mãe, começou uma contagem regressiva para começar a queda.
Confesso que por um tempo eu até achei que tinha me livrado dessa “maldição”, pois eu vi meu irmão mais velho, que tinha um cabelo lindo, estiloso, que arrebatava corações, perdendo seu poder, tal qual Sansão — a franja que ele repartia, partiu aos vinte e dois anos. Vi meu irmão mais novo, que inclusive tirava sarro do meu irmão mais velho, ficar calvo também aos vinte e poucos, enquanto eu ficava quieto — mais por medo do que por respeito.
Não abria a boca para falar, pois sabia que o próximo poderia ser eu. Mas então passei ileso pela casa dos vinte. Onde todos ao meu redor caiam. Fiquei tão feliz e confiante que deixei o cabelo crescer, como uma espécie de comemoração, um ato de resistência, de vingança pelos que perderam os cabelos antes de mim. Tive cabelo comprido, no estilo coque samurai, durante cinco anos. Foram os melhores cinco anos que meus cabelos já tiveram. Sentia a felicidade deles no brilho.
Mas então, quando eu estava distraído, eles começaram a se evadir da minha cabeça. Em 2022, as primeiras pessoas começaram a falar. Amigos próximos — sempre são eles a dar as piores notícias —, mas eu não quis acreditar. Continuei puxando eles pra cima e amarrando, mas no fundo eu sabia que estava acontecendo. Mesmo em negação, joguei fora todas as fronhas brancas para não ver os cabelos nelas. No banho, quando caíam, justificava falando: “Mas é porque eu tenho muito”. Porém eu ja vinha notando que tava acontecendo, com o passar dos anos o coque que era feito no inicio da andou quase para testa, eu estava parecendo um unicórnio.
Então, no final de 2023, achei que era a hora de mudar o penteado. Cortar o cabelo. Na minha cabeça — olha a ironia —, tinha que cortar não porque estava ficando careca, mas porque achava que eles estavam caindo porque estavam pesados e cansados. Eu tinha que dar um descanso para eles, que me deram tantos anos de felicidade. Cortei. E o pior aconteceu: a calvície avançou.
O cabelo grande, que antes ajudava com a sua praticidade — era só puxar pra cima e amarrar —, passou agora a ser um problema. Agora eu tinha que aprender a ilusão de ótica capilar, aprender a remanejar, a realocar. Cabelos da lateral e da parte de trás teriam que atuar mais à frente. Eu avancei o time, mas não foi o suficiente para evitar a derrota que se desenhava.
Foram dois anos de uma guerra puxada, um cabo de guerra, cobrindo vazios na base dos empréstimos. E as pessoas continuavam a comentar, uns pelas costas, outros pela frente - nas entradas. Então, no fim do ano de 2025, eu coloquei na cabeça — pra que tantas metáforas com cabeça num texto sobre estar ficando careca? — que era a hora de parar de me enganar e me assumir.
Porém, a minha luta contra a genética não acabou. Ela pode ter ganhado esse primeiro tempo, mas eu não desisti. Foi uma retirada para reagrupar e se organizar. Já estamos com uma nova tática: trazer os fios que têm menos luz sobre eles, os da nuca, para a linha de frente. Subir eles de cargo. Fazer o transplante capilar. Efetivar de vez aqueles que pouco eram notados. Transformar um cabelo de nuca numa franja.
Aguardemos os próximos capítulos dessa briga contra a calvície. A genética pode ter me derrubado — ou melhor, derrubado meus cabelos —, mas a ciência vai dar um jeito de me levantar. Enfrentarei isso de cabeça erguida. Até porque, se eu abaixar a cabeça, cai mais cabelo.
Depois de 12 horas de cirurgia de transplante capilar, o paciente acorda. Na verdade, não só ele. O corpo todo, inclusive os cabelos. Os cabelos que antes eram da nuca agora estão no topo da cabeça, indo até o fim da testa. Aos poucos, enquanto vão se dando conta, se assustam.
— Meu Deus, onde estamos?
— Estou com as minhas raízes doendo.
— Que vista é essa?
Um que parece já estar acordado há algum tempo então fala:
— Estamos no topo da cabeça.
— O quê?
— Do que você está falando?
— Eu vi tudo acontecer. A anestesia não pegou em mim, por isso não adormecia. Só senti ser retirado pela base da nuca e ser colocado aqui em cima.
— Todos nós?
— Tem um ou outro que está aqui que já nasceu aqui.
— E agora?
— Agora todo mundo vai olhar pra gente.
— Mas eu não sei ser franja. Eu não nasci pra ser franja!
Ele grita, desesperado.
— Cala a boca, se controla. Ele precisa da gente. Você é cabelo, e cabelo é cabelo em qualquer parte do corpo. Tá vendo aquele cara ali? Ele veio da barba.
O cabelo da barba parece estar muito assustado.
Um cabelo que parece ser mais antigo que os outros então fala:
— Restam poucos que cresceram aqui. Quando eu cheguei, aqui tudo era mato. Vi muitos se irem. Eu vi eles caindo. Só escutava os gritos e esperava a minha vez. Vi milhares e milhares deles caindo. Tentavam se segurar, mas não adiantava. Torço para que vocês fiquem e deem o melhor de si, pois não sei se ele aguentará perder tudo de novo.
