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GÊNIO DA LÂMPADA

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GÊNIO DA LÂMPADA

Sabe o que faz tempo que eu não vejo, quer dizer, na verdade nunca vi, então faz tempo que eu não ouço falar: gênios da lâmpada. Não sei o que aconteceu com eles, se eles se aposentaram, se todas as lâmpadas mágicas já foram achadas, se acabaram os desejos ou alguma outra coisa. O que sei é que existiam muitos deles nos anos 90, era normal encontrar uma lâmpada magica com um genio dentro em alguma anedota, filmes ou até perguntas hipotéticas, geralmente ele estava preso há milhares de anos numa lâmpada e, por você ter libertado ele, te concedia desejos. As vezes eram três desejos, outras vezes era um, já ouvi história de cinco, dois… acho que tudo dependia do humor ou da pressa do gênio. Na verdade, o número de desejos estava ligado ao quanto a história precisava pra ter um bom final. Às vezes, com um ele já entregava o fim que precisava, às vezes precisava de três para dar um desfecho.

Três amigos que se conheceram por um acaso num congresso pegam amizade e resolvem fazer uma viagem juntos. O avião acaba caindo numa ilha deserta, todo mundo morre, só os três sobrevivem: um suíço, um americano e o norte-coreano. Então, enquanto procuram por comida, eles se deparam com uma lâmpada mágica. Esfregam, sai um gênio, cada um tem direito a um pedido.

O suíço:

– Quero voltar para a Suíça.

O americano:

– Quero voltar para os Estados Unidos.

O norte-coreano:

– Nem ferrando eu vou voltar pra Coreia do Norte, mas é ruim ficar aqui sozinho, quero que traga meus amigos de volta.

E era sempre assim, a história, todas as vezes, acabava com a pessoa que achava a lâmpada se dando mal, por algum mal-entendido do gênio, por um erro de interpretação ou palavra dita de maneira errada. Como aquela do cara que pediu para ter um pênis que arrastava no chão, então o gênio tirou as pernas dele. Ou do homem que queria que as mulheres ficassem loucas quando vissem ele, então colocou peitos invejáveis. Ou até da mulher que queria ser invisível e o gênio transformou ela numa panfleteira. Não importa o que acontecesse, sempre alguém acabava se ferrando. Quando eram três pedidos, o primeiro e o segundo saíam tudo certo, mas o terceiro sempre acabava quebrando os outros dois.

O diretor de produção, o diretor de marketing e o presidente de uma empresa estacionaram o carro e estão a caminho de uma reunião. Ao atravessarem um parque, encontram uma lâmpada antiga. Esfregam a lâmpada e, de repente, aparece um gênio. O gênio lhes diz:

– Só tenho 3 desejos, por isso, cada um só pode pedir um!

O diretor de produção diz logo:

– Eu primeiro, eu primeiro! Eu quero estar nas Bahamas, ao volante de um barco ultra-rápido e muito dinheiro na conta.

E puff… Partiu!

– Agora eu, agora eu! – grita o diretor de marketing. – Eu quero estar nas Caraíbas, rodeado das mais belas mulheres, com uma fonte inesgotável de cocktails exóticos e muito dinheiro na conta.

Puff… Partiu!

Em seguida, diz o gênio ao presidente da empresa:

– É a sua vez.

O presidente diz:

– Cancele os pedidos deles. Eu quero estes dois cretinos de volta ao trabalho depois do almoço!

Nas histórias de gênios mágicos, sempre quem achava a lâmpada era alguém que precisava de alguma coisa, nunca era alguém bonito, rico, que já tem tudo. Era alguém que estava num deserto, num momento de desespero. Então, no fundo, toda história de gênio é que, se você é um ferrado, um gênio mágico pode piorar sua situação.

Um homem entre uns 35 a 40 anos está andando na praia junto com uma mulher. Ela parece bem mais nova que ele, no máximo 21 anos. Então ele tropeça em algo, dá aquela corridinha para disfarçar, ela dá risada, ele fica sem graça, olha para trás para ver onde pode ter tropeçado. Tem algo brilhando vindo da areia. Ele volta achando que é uma latinha.

– Esses turistas não respeitam a praia.

Quando ele pega, vê que não é uma lata: é uma lâmpada.

– Ah não.

– O quê?

– Uma lâmpada mágica.

– Lâmpada mágica?

– Sim.

– Como assim, lâmpada mágica? Nunca ouvi falar.

– É que quando você chegou já não existia mais.

Ela parece estar confusa.

– É uma lâmpada mágica, elas eram muito famosas nos anos 90, geralmente tinham um gênio mágico dentro, que alguém aprisionou há milhares de anos atrás, então quem limpava, esfregava a lâmpada, tinha direito a três desejos. Nunca viu o Aladdin?

– Ala quem?

– Aladdin da Disney.

– Não compactuo com essa empresa capitalista que gera sonhos inalcançáveis…

– Esquece, esquece. Estou ficando velho mesmo.

– Então esfrega.

– Quê?

– Esfrega pra ver se ainda tem um gênio mágico aí dentro.

Ela fala tirando sarro.

– Não, não. Sempre dá ruim.

– Para com isso. Esfrega.

– Não, sempre dá ruim. Alguém acaba se ferrando.

– Vai.

Ela tenta pegar da mão dele, ele desvia.

– Não vou esfregar. Estou bem com o que tenho. Ela desperta a ganância dentro da pessoa. Nunca vi uma história ou anedota que alguém que achou terminou bem. Sempre termina pior do que estava. Vou jogar no mar pra ninguém passar por isso.

Quando ele ameaça jogar, ela toma da mão dele.

– Então dá aqui que eu esfrego.

Antes que ele possa impedir, ela esfrega a canga na lâmpada e o gênio sai de dentro. Como a praia está deserta, ninguém vê.

– Você me libertou de uma prisão de milhares de anos, por isso tem direito a um desejo.

– Não eram três?

Ela vira perguntando para ele.

– Tinha os de um também. Pelo jeito esse é o de um.

– Sou o de um. Qual vai ser?

– Posso pedir qualquer coisa?

– Sim, mas tem que ser logo.

– Por quê?

– Não importa. Se não pedir agora, não vai pedir mais.

– Tá, tá, calma. Pode pedir qualquer coisa?

– Qualquer coisa.

– Pede pra ele voltar para dentro da lâmpada.

– Quieto.

Silêncio. Ela está concentrada.

– Eu quero que você acabe com a fome do mundo.

– Nossa, que altruísta.

O gênio fecha os olhos por três segundos, então abre na sequência.

– Feito.

– Acabou com a fome do mundo?

– Sim.

– Nossa, não acredito que eu acabei com a fome do mundo pra sempre.

– Pra sempre?

Questiona o gênio.

– É.

– Não foi pra sempre.

– Como não?

– Não, acabei com a fome que estavam agora. Daqui algumas horas vão estar com fome de novo.

– Mas…

Antes que ela possa reclamar, ele evapora até sumir.

– Eu disse.

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