Esse ano eles resolveram não fazer nada no carnaval. Não que não quisessem, mas o carnaval chegou muito cedo e as contas mais cedo ainda. Então, por contenção de gastos e de danos, decidiram que não viajariam, mas prometeram para as crianças que nas férias do meio do ano iriam para a praia.
Como ficaram em casa, decidiram assistir ao carnaval pela TV. Na verdade o pai decidiu. Os filhos se interessavam zero por carnaval na TV, escola de samba, essas coisas.
— Não é porque não viajamos que não podemos participar do carnaval.
— Mas pai…
— Mas nada, faz parte da nossa cultura. É quase uma obrigação patriótica a gente assistir.
Convenceu eles. Em partes, já que só ele estava assistindo, enquanto eles estavam mais ouvindo mesmo e mexendo no celular.
Estava no intervalo da troca de escolas. A próxima escola a entrar na avenida era a famosa Mangueira. Então ouviram o comentarista falar:
“Agora a próxima é uma das favoritas: a Estação Primeira de Mangueira, que hoje vem com o samba-enredo O protagonista que não vemos, o desconhecido do dia a dia, homenageando Francisco Moreira da Silva. Mostrando que o mundo é formado, em sua maioria, por pessoas desconhecidas, com a vida comezinha. Um simples contador é importante para toda engrenagem. Vamos parar de falar que vai começar: Mangueira com Moreira, o figurante da vida dos outros.”
— Olha lá, papai, mesmo nome que o seu.
Quem falou foi o filho, que pela primeira vez tirou os olhos do celular.
— Verdade — disse a esposa.
— E mesma profissão.
— Deve ser algum Francisco Moreira da Silva famoso.
Começa o desfile. A comissão de frente está toda vestida com roupas que representam o que o Francisco já teve e uma máscara.
— Nossa, é o papai! — fala a filha, que foi a última a sair do celular.
— Claro que não.
— É sim.
O carro abre-alas é a mãe do Francisco em tamanho grande, segurando um bebê gigante chorando. E os integrantes do carro estão vestidos de dona Matilde, mãe de Francisco. O comentarista explica:
“A comissão de frente é a representação de tudo que ele queria ter sido, mas não foi por falta de coragem. E esse carro abre-alas representa a ligação da mãe com o filho, a responsável por trazer o pequeno Francisco ao mundo.”
— É sua mãe, Francisco.
— Papai, é a vovó.
— É a vovó sim.
Francisco está em pé. Em choque.
— Isso deve ser alguma brincadeira.
— Claro, alguém contratou uma escola de samba no Rio de Janeiro do grupo especial para te sacanear.
— Você não está vendo, Roberta?
— Estou. Só não estou entendendo por que não me avisou.
— Eu não sabia de nada.
— Escuta o samba-enredo, pai.
“Ele passa todos os dias despercebido
Ninguém costuma notar esse desconhecido
Um figurante, um ninguém
Mas lembra que eu e você, pra alguém,
Somos apenas mais um também”
— Nossa, pai, seus seguidores não param de crescer.
— Você tem redes sociais, Francisco?
— Não.
— Agora tem. E tá com mais de 100 mil seguidores já.
O desfile continua: com mestre-sala e porta-bandeira, rainha de bateria, bateria com integrantes vestidos como Francisco costuma se vestir, carros alegóricos representando a ordem da vida dele, as primeiras namoradas — o que deixa a esposa ainda mais com raiva, achando que ele tinha escondido a homenagem
— Quem são essas?
— Algumas ex que eu tive.
— Você não falou que nunca tinha namorado?
— Amor…
Mais carros, Ala da velha guarda, ala das baianas.
— Meio milhão de seguidores já, pai.
— Mas eu não tenho nada.
— Papai tá famoso.
Finalmente termina o desfile. O celular do Francisco não para de receber mensagens. Amigos próximos falando: “por isso falou que não ia fazer nada, né, escondendo a homenagem”.
A mãe e os filhos estão olhando para Francisco, como se esperassem uma explicação.
— Gente, eu não tenho ideia do que aconteceu.
— Pô, pai. Quase nem mostra a gente, tem vergonha de nós?
— Nossa, eu ia ganhar tanto seguidor se tivesse aparecido mais.
— E eu que sou a mulher e não ganhei um carro, sendo que as ex ganharam?
— Meu Deus, eu não sei o que foi isso.
O filho e a esposa saem da sala.
Ele senta no sofá, o comentarista entao fala:
“eu gostei bastante, acho que tem boas chances de ganhar, o figurante pode finalmente passar a ser o protagonista”.
Ele desliga a TV tentando entender o que aconteceu, cantarolando baixinho o samba-enredo.
“Todos somos Francisco
Um entre tantos, um grão, um cisco
Nessa imensa caixa de areia que é o mundo”
