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Tem pouco mais de seis anos que eu aposentei minha mãe, de 2018 para 2019, quando ela tinha 57 anos e eu tinha 30. Pude falar que ela poderia parar de trabalhar, pois agora eu tinha condição financeira pra deixar ela finalmente descansar depois de trabalhar por quase 45 anos em vários empregos. Lembro que, no começo, ela estava feliz, mas um tempo depois menos feliz, até não estar mais. Eu perguntei por quê; ela disse que é porque não gostava de depender de mim, o que, na minha cabeça, era um absurdo, já que eu dependi dela pelo menos até os meus 18 anos, mesmo tendo começado a trabalhar com 15. Então tranquilizei ela e falei que, por pelo menos 18 anos, ela estava de boa; depois disso a gente veria como ia ficar aquela situação. Rimos muito. Ela voltou a ficar chateada.

Um tempo depois, conversando com uma amiga psicóloga sobre isso, ela disse que é muito normal, que muitos idosos, depois de se aposentar, se sentem assim, pois perdem o sentido de propósito e passam a se sentir inúteis. Especialmente aqueles que dedicaram décadas a uma carreira intensa sentem um “vazio”. O que me deixou preocupado, pois as pessoas da minha geração sonham em se aposentar, contam os dias, como se estivessem presas.

Ele chega em casa. Ela está apagada. Estranho, pois geralmente a mulher já está lá. Quando acende a luz, ouve o grito:

— Surpresa!

— Que isso, gente. Não é meu aniversário.

— Não, mas hoje você comemora a marca de: faltam “só” 20 anos de trabalho para se aposentar. Você é o primeiro do nosso grupo que bate isso. Discurso, discurso.

E eu descubro isso: que quem está se aposentando está chateado. Ou seja, a felicidade que a gente está buscando na aposentadoria é uma ilusão.

Mas é o que um sistema capitalista faz com o psicológico: se você não produz, você não tem valor. Sendo que o velho produz. Ninguém produz uma fofoca melhor que um velho, um café, um drama.

O Brasil é um dos únicos países do mundo que tem como lei a fila preferencial. Já viajei para alguns lugares fora daqui e via idosos na mesma fila que as outras pessoas. Ofereci lugar para uma senhora bem idosa, daquelas que são velhas quando tudo era novo. Ela não só não aceitou como depois eu vim a descobrir que é falta de respeito. Mas, pensando bem, também faz sentido: se for ter assento preferencial ou fila pra idosos no Japão, vai ser bem maior, dado que lá o que mais tem é velho.

Mas, voltando para o Brasil, quantas vezes você não esteve numa fila e ficou com inveja do idoso que é rapidamente atendido. Hoje, num desses lugares que têm aquelas cadeiras que ficam grudadas por uma barra de ferro formando um grande banco de espera — um daqueles que, quando você entra no lugar, já sabe que a espera vai ser grande: Detran, repartição pública, banco, etc. — quando eu estava lá esperando para ser chamado e vendo os idosos passando por mim com um sorriso no rosto, cheguei numa solução. Para melhorar a nossa vida e a do idoso que está triste em casa: o iVéio — esse é um nome provisório.

Trata-se de um aplicativo onde você aluga o véio para ir com você no banco, lotérica ou qualquer um desses lugares que você sabe que vai demorar. Ou que tenha uma fila, como desses restaurantes que ficam famosinhos porque um influencer que você não tem ideia do que faz postou e agora todo mundo vai lá. Pode usar o iVéio. Assim você vai economizar seu tempo e ajudar um véio que está em casa chateado. Já quero colocar minha mãe como a garota-propaganda.

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Um senhor sentado numa cadeira de balanço, numa sala meio escura, já que está dia, mas as cortinas estão fechadas. Ele balança de um jeito meio triste. Então alguém vem e abre a cortina, fazendo clarear a sala. O senhor coloca a mão no rosto para esconder a claridade.

— O que é isso?

— Precisam de você na cidade agora?

— Ninguém precisa de mim desde que aposentei.

Então, bem de fundo, ouvimos uma voz: “Eu não aguento mais ficar nessa fila, parece que nunca vou ser atendido. Eu não aguento mais esperar.”

— O senhor ouve isso?

— Ouço. Você também?

— Sim.

— Que bom, achei que só eu estava ouvindo. Não queria falar para minha filha para ela não me internar.

Agora é outra voz: “Eu vou desistir de esperar. Vou tentar amanhã de novo, mas já é a segunda vez que eu desisto. Preciso ir buscar minha filha na escola.”

— Ouviu?

Ele faz que sim assustado. Uma terceira voz: “Minha bateria vai acabar. Não acredito. Vou ter que ficar olhando para as pessoas. Minha bunda está dormente por causa dessa cadeira. Acho que, se algum dia eu for chamado, não conseguirei levantar. Socorro.”

— Você precisa ajudar eles.

— Como?

— Ajudando eles a pular a fila.

Corta a cena.

Na repartição pública, o senhor chega. Várias pessoas na fila. Ele passa na frente de todo mundo e é chamado.

— O do senhor é o quê?

Então ele aponta para uma pessoa que está na fila:

— Meu filho vai dizer.

O homem então vai até a mulher e é atendido.

Entra uma animação do app - Chegou o iVelho, o aplicativo para você que odeia uma fila e pro idoso que odeia ficar sem fazer nada.

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