LITERÚNICO
Avatar

Visitante

@ guest

Nível
1
Essência
🔥 Fogo
Ritual
0 Dias

Patrimônio

0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

MAIS QUE 127 HORAS

Compartilhar
MAIS QUE 127 HORAS

Se ele tentasse tirar a tornozeleira, o alarme avisaria os policiais, que viriam em — quanto tempo mesmo tinham demorado da última vez? — 12 minutos. Eles não saíam de perto, ficavam rondando como urubus que sabem que, a qualquer momento, vai acontecer uma morte e em pouco tempo terão do que se alimentar. Mas não, ele não seria a carniça dos policiais. Podia tentar soldar, mas se danificasse a caixinha teria que se explicar — tava curioso, misturei remédio e estava alucinando, queria ver o que aconteceria no plástico se colocasse ferro quente. Mas nada disso colaria. Tinha um problema: com aquilo no tornozelo não teria como escapar.

Já estava tudo certo: porta-malas até a fazenda do fazendeiro que tinha dado uma bela contribuição para sua campanha, de lá avião até o Paraguai, onde pousaria numa das propriedades particulares do dono da rede de lojas brasileira que tem como símbolo uma estátua americana. Então, de lá, decidiria: Estados Unidos ou Argentina. Mas, pra isso, teria que se livrar daquilo, da tornozeleira.

Até que lembrou do filme que tinha assistido recentemente. Ultimamente estava assistindo muito filme por conta de estar preso em casa. O filho número 03 tinha até instalado uma caixinha pirata que pegava todos os canais de esportes e filmes. Chegou a questionar se, caso a polícia visse, não ia dar problema, e o filho, em tom de brincadeira, disse:

— Vão fazer o quê? Te prender?

E riu, enquanto terminava de instalar.

O filme em questão ele assistiu por um acaso na Globo Lixo. Como era mesmo o nome do filme?, pensou ele. Aquele do rapaz que fica preso numa caverna de um jeito idiota e tem que cortar o próprio braço pra sobreviver. Era o filme 127 horas.

Ele se via na mesma situação: preso, por bem mais de 127 horas, precisava se desprender de uma parte do corpo como uma lagartixa para sobreviver. A diferença, alguém falou, é que o rabo da lagartixa nasce de novo. Ele, então, disse que não precisava dos dois pés — primeiro que não ia bater uma falta, segundo que, se fosse bater, era canhoto, além do mais estava precisando perder um peso. E riu daquele jeito meio de idiota, meio de vilão. De vilão idiota.

Estava decidido: ia fazer como no filme, cortar o próprio pé, tirar a tornozeleira sem danificar e sem disparar o alarme, deixaria na perna da cadeira a tornozeleira e fugiria. Todo mundo discordou, pediu que não fizesse aquilo, mas como ele nunca ouviu ninguém — talvez por isso tenha ido parar nessa situação — não era agora que começaria. Foi até o Google e pesquisou, na aba anônima (só depois de preso que descobriu a aba anônima, queria ter descoberto antes). Pesquisou “como cortar o próprio pé fora”. O Google não ensinava, nem o YouTube, nem o TikTok. Maldita censura. Um homem tem que ter o direito de saber como amputa o próprio pé, não era o estado que devia dizer se poderia ou não pesquisar. Mas pensou que não precisava de tutorial, não devia ser difícil: se o homem do filme conseguiu numa caverna com uma faquinha, ele conseguiria. Já tinha sido do exercito. Sempre que alguem falava que ele não conseguiria alguma coisa falava isso - eu ja fui do exercito. As vezes não tinha nem sentido a comparação.

— Voce não vai conseguir estacionar esse carro, a vaga é muito apertada.

— Claro que vou, eu ja fui do exercito.

Pediu para que o filho arranjasse anestesia e uma maquita. A contragosto, o filho conseguiu. Mas não ficou pra ver o pai fazer aquilo. Deixou tudo e saiu. Não só ele, todo mundo da casa, ninguem queria ser testemunha daquilo. Ele ficou sozinho gritando.

— não preciso de voces, ja fui do exercito.

Ele foi até o banheiro, tomou a anestesia e dormiu na sequência. Acordou algumas horas depois sentado no banheiro. A anestesia funcionava, mas apagava ele. Pediu para alguém ajudar; ninguém na família conseguiria. Eram uns frouxos. Faria sozinho, sem anestesia — o rapaz do filme conseguiu.

Então voltou para o banheiro, mas a tomada era muito pequena. Maldita tomada de três pinos, pensou — culpa da Dilma. Teria que ser com um serrote. Tinha serrote em casa? Então resolveu procurar o serrote. Tinha. Não se sabe por quê, mas tinha.

Voltou para o banheiro. Só de encostar os dentes do serrote na perna, já sente a dor. Desistiu, foi para a sala reassistir ao filme para ver como o homem do filme fez aquilo. Dormiu assistindo.

Ps:. O texto pode acabar assim. Mas tambem tem mais tres opções de final alternativo.

1

Consegue cortar o próprio pé. Como os filhos têm câmera na casa, veem que o pai sumiu faz tempo, mandam a Michele ir com ajuda. O médico consegue chegar a tempo para estancar e fazer o curativo. Ele consegue fugir; hoje faz mais de 2 anos que não volta para o Brasil. Está nos Estados Unidos, onde posta fotos na praia da Flórida, sem o pé. Patriotas brasileiros levam pés customizados verde e amarelo. Levam pés para ele assinar. Ele lança um amuleto — uma espécie de pé de coelho, mas “pé do Jair”. Vende muito e é sua principal fonte de renda.

2

Na hora de serrar o pé, fecha os olhos e acerta a tornozeleira, o que faz ativar o alarme. Os policiais vão até ele e veem que ele danificou; levam-no em custódia.

3

Se entope de remédio para não sentir dor, mistura com bebida alcoólica para ter coragem, resolve fazer com a maquita mesmo para ir mais rápido. Mas, como está bêbado e chapado de remédio, acaba cortando o pé errado — o que não está com a tornozeleira.

Profissional Serviços Tags Contato
Comentários ver
Ainda não tem comentários.
Entre para comentar.