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MATAMOS POETAS

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MATAMOS POETAS

Da série se tem placa tem historia. Matamos poetas – 24/7, ou seja, quando for preciso.

Ela esta sentada de frente pra ele. Escritório simples, mas muitos livros, a maioria deles de poesia. Ela olha em volta enquanto ele analisa a foto.

— Então esse é o poeta?

Ela sai do transe.

— oi, desculpa, me distrai, tem muito livro de poesia, né?

— Preciso saber com quem estou lidando.

— verdade. Mas voce tinha perguntado o que mesmo?

— esse é o poeta?

— Esse. Esse mesmo. Canalha.

— todos são.

— Preciso falar por que quero que ele morra?

— Só o fato de ele ser poeta já é motivo mais do que suficiente para morrer.

Silêncio. Ela encara ele, encara os livros, ele de novo.

— Posso fazer uma pergunta?

— Outra?

— Outra?

— Isso que você fez já era uma pergunta.

Ela ri. Ele fica sério.

— Por que você mata poetas?

— Porque ninguém se importa com cronistas.


Você chegou como quem não quer nada

e levou tudo que eu tinha

eu achei que você estava apaixonada

quando, na verdade, você nunca foi minha.

Ele declama esse verso enquanto está com a arma apontada para um homem acuado no canto da parede.

— É sério isso? Eu devia matar você de graça, só por causa desse poema.

— É só um hobby.

— Não tenta me enganar.

— Eu juro. Não ganho dinheiro com poesia.

— Claro que não ganha. Nenhum poeta ganha ou fica famoso em vida, só depois que já morreu.

— Por favor, não me mata. Eu paro de escrever poesia.

— Todos falam isso.

— Eu paro, juro que paro, se você não me matar.

— Mas eu não vou te matar.

O homem respira aliviado.

— Vou te ajudar a ficar famoso e ganhar dinheiro.

Atira e sai andando.


A mulher está escrevendo um poema no computador. Ele está em cima de uma mesa que dá para um janelão, que está fechado, pois está chovendo. A luz do quarto deixa a janela com reflexo, como se fosse um espelho. Ela escuta um clique, olha para a janela e vê o homem apontando uma arma. Sem virar, falando pelo reflexo, ela fala:

— Então você deve ser o famoso matador de poetas.

— Famoso é uma palavra muito forte. Nada que venha acompanhado de poeta, antes ou depois, é famoso.

Ela dá risada.

— Faz sentido. Mas é você quem mata poetas.

— Estou tentando fundar uma sociedade.

— A sociedade dos poetas mortos.

Ele ri. Vinha pensando essa piada infame fazia bastante tempo. Ainda não tinha tido a oportunidade de usar.

— Posso pelo menos terminar o poema que estou escrevendo?

— Eu mato poetas justamente para eles pararem de escrever.

— Por favor, eu estava com um bloqueio criativo. Fazia muito tempo que não escrevia.

Ele vê que tem uma poltrona em frente à estante de livros, uma daquelas poltronas de couro que aparecem em revistas de decoração, que ficam na diagonal no escritório, com um apoio para os pés. Ele senta no apoio, com a arma apontada para a poeta.

— ok, mas é ultima frase, sem gracinhas de querer fazer mais uma versão.

— segundas versões não contem alma.

Ele balança a arma como que diz, “ok, vai logo”.

Ela escreve a última frase, falando em voz alta:

— E a gente adormeceu

torcendo para que amanhã o ontem continuasse sendo hoje.

Colocou um ponto final e vira para ele. Balançou a cabeça fazendo que sim, como se dissesse: agora pode atirar. Ele atira. Levanta para ir embora, vai até a cadeira dela, fica tentado a ler o que vinha antes daquela frase final, mas fecha o notebook e sai.


“Esses dias eu estava lembrando do primeiro poeta que eu matei. Na verdade, era uma poetisa. Não se encaixa como feminicídio, pois não matei ela por ser mulher, matei por ser poeta. Poeticídio. Olha eu inventando palavras para expressar coisas, como se fosse um desses inúteis. Enfim, lembro que ela me usou como muso inspirador e, quando eu não rendia mais para ela, me deixou. Mas não foi pela rejeição que matei ela — ou a matei — porque é a amarei ou não amarei-a, não importa. Dei um fim nela por causa dos poemas. Peguei ranço de poema, isso sim foi por culpa dela. Primeiro, ela me fez querer conhecer mais. Li Pessoa, Bandeira, Vinicius, Leminski. Esse bigodudo ia dar trabalho se estivesse vivo, era metido a lutador. Li todos os queridinhos brasileiros. Depois fui para os desconhecidos. Queria entender para entender ela. Mas aí ela me deixou, e toda aquela poesia estava em mim. Não podia impedir o que já existia por aí de existir, mas sim impedir que novos surgissem. Tinha que cortar o mal pela raiz.

Matar o poeta/antes que a caneta/pudesse criar mais falsas ilusões/matar o poeta para evitar decepções.

Droga. Eu disse que a poesia ficou em mim. Não vai ter jeito.”

Engatilhou a arma e deu um tiro em si mesmo. Morreu de forma poética.

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