Esses dias, em SP, em um viaduto que cruza a 23 de Maio, perto de uma banquinha de jornais, presenciei uma cena inusitada. Um cachorro vira-lata caramelo vinha na minha direção, olhou para os dois lados antes de atravessar a rua — mesmo ela sendo mão única. Acho que eles não entendem essa coisa de mão única ou dupla. Enfim, não vinha carro, ele atravessou a rua. Quando chegou do outro lado, parou do nada. Então voltou, dessa vez sem nem olhar se estava vindo carro. Simplesmente vinha e resolveu voltar. Como se algo tivesse demovido ele de continuar para onde quer que estivesse indo. Fiquei pensando no que tinha acontecido. Então olhei para trás para ver se ele tinha visto algo, e tinha um carro da polícia e dois policiais parados. Entendi: devia ser um cachorro de morador de rua.
Não sei por onde ele anda. Estou começando a me preocupar. Eu tentei ir junto, mas aqueles homens não deixaram. Me enxotaram. Eu gritei, juro que gritei. Ele só falava: fica, fica que eu já volto. Enquanto isso, os homens gritavam: deita, deita. E me chutaram. Meu amigo tentou me defender, falando: ele não tem nada a ver, deixa ele. Um dos homens gritava deita, o outro veio pra me chutar mais. Eu ia morder ele, juro que eu ia morder, mas meu amigo gritava: vai deitar. Fica. Fica que eu volto.
Eu fiquei. Pra cuidar do carrinho, da barraca e das cobertas. Mas já faz uns três dias. Ou mais. Ou menos. Não sei exatamente quanto tempo. Cheguei a dar uma volta onde costumávamos ir: no boteco do Zé. Fiquei um tempo lá pra ver se ele aparecia. Passei também na igreja, no mercado onde batemos ponto e nos dois restaurantes: o que dá os restos do almoço e o que dá os restos da janta. Mas nada.
Me deram comida. Eu comi, mas pensando: será que onde ele está estão dando comida pra ele? Sinceramente, estou preocupado. Não sei o que vou fazer sem ele. Estamos juntos desde que eu sou bem pequeno — não que eu tenha crescido muito. Durante o dia eu ando pela cidade procurando ele, mas toda noite eu volto pra cuidar das coisas e esperar, caso ele volte. Mandou eu ficar, então sabe onde eu vou estar.
Acho que já faz mais de três dias. Tem uma semana. Quantos dias tem uma semana? Não sei exatamente quanto tempo, mas já tentaram roubar nossas coisas. Eu não deixei. Eles gritavam: cuidado que ele é louco. Eu sou mesmo. Ninguém vai pegar nada. É meu. É nosso. Quando ele voltar, tem que estar tudo aqui.
Quanto tempo é um mês? Será que já faz um mês? Sempre aparece alguém oferecendo comida e carinho. Já até falaram de me levar. Esses dias escutei eles conversando: onde será que tá o dono dele? Não deve ter, se tivesse não estava na rua assim. Primeiro que ele não é meu dono, é meu amigo. Segundo que a gente tá na rua porque gosta. E ele vai voltar.
Agradeci a comida e corri, antes que resolvessem me levar mesmo. Semana passada vi os homens que levaram o Maicon. Na verdade, homens parecidos. Segui eles. Numa dessas, me levavam até onde ele estava. Não levaram. Fiquei pela região onde pararam, mas não vi nada. Então resolvi voltar pra cuidar das coisas — vai que ele volta e eu não estou lá.
Uns amigos falam que ele não vai voltar. Já faz tempo. Se tivesse que voltar, já tinha voltado. Faz o quê? Um ano? Quanto é um ano mesmo? Também não importa. Um dia, um mês, um ano. Vou ficar. Ele falou pra ficar que ele voltava.
