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METADE DA VIDA

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METADE DA VIDA

Estou cada vez mais perto dos 40 anos. Apesar de não me ver com essa idade, geralmente cai a ficha - cai a ficha é mais uma comprovação que estou realmente mais perto dos 40 - quando eu tenho que preencher alguma coisa na internet que precisa da minha data de nascimento, tenho que girar cada vez mais o contador até chegar em 1988. Sabe quando tem que colocar o ano que voce nasceu mas não da pra digitar, tem que ficar girando uma roleta até chegar o seu ano. Antes, com uma rodada eu chegava; jogava o dedo pra cima e lá estava o ano em que eu nasci. Depois já subiu para duas, agora está em três e meias rodadas. Me sinto em uma maquina caça níquel, quando para na minha idade tenho a impressão que vai começar a piscar luzes, tocar um alerta - timtimtimtim - parabens, voce ganhou queimação e calvice.

Em 3 anos vou chegar na metade da vida — de acordo com a expectativa de vida de agora, que é mais ou menos 80 anos. Porém, essa régua tem subido ao longo das décadas. Quem nasceu em 1950 achou que viveria até os 60, que era a expectativa de vida de quando nasceram; aos 30 estavam na metade de suas vidas. Mas aumentou, então ganharam um bônus de 20 anos.

Talvez aconteça isso com a minha geração. Às vezes acho que estou na metade, mas na verdade estou no primeiro terço. Às vezes, quando eu tiver 80, a perspectiva seja de viver até os 120. Mas, contando com os dados de agora, estou me encaminhando para a metade. 37 anos, mais 3 e eu vou ser adulto.

Confesso que não me imaginava a caminho dos 40 assim, quando eu era criança. Eu achei que ia ter esposa — talvez já estaria na segunda —, filhos do primeiro casamento, talvez uma casa, um carro financiado. Chegaria em casa depois de um dia de trabalho, beijando minha esposa, falando “oi, esposa”, indo dar oi pro meu filho: “oi, filho, fez suas coisas de filho?”. Falando como adultos: “o dia foi cheio de demandas”, “os protocolos gerados já foram encaminhados”, “precisamos resolver esse problema que se apresenta”, entre outras frases que, na minha cabeça, são ditas por adultos.

Mas não. Eu não tenho uma esposa, um divórcio, uma casa, um carro, nem demandas, nem protocolos, nem nada do que na minha cabeça compunha o ser adulto. A geração mais nova de adultos usa como referência a anterior, e a que eu olho parecia outro tipo de adulto. A próxima — geração Z — já está olhando pra gente; então, para eles, ser adulto é outra coisa.

Se você pegar um adulto de 40 anos hoje e mandar ele para o início dos anos 80 ou 90, pra conviver com as pessoas de 40 anos daquela época, vamos ficar deslocados. Uma coisa que os adultos daquela época faziam muito era: quando estavam conversando e uma criança chegava perto, eles paravam de conversar. Então chamavam a atenção da criança: “tá ouvindo conversa de adultos, coisa feia”. Ou, se a gente criança tentasse entrar numa conversa, já tomávamos um pito: “ei, que isso, de onde já se viu criança se intrometendo em conversa de adulto? Vai brincar com as crianças”.

Eu nunca fiz isso. Nunca estive numa conversa tão adulta que uma criança não conseguisse participar. Os adultos dos anos 90 não: não deixaram a gente ouvir a conversa, nem falar sobre o que estavam falando. Hoje somos adultos que não sabem o que têm que falar.

Enfim, 37 anos. Tenho mais 3 anos para descobrir como ser e parecer mais adulto. Além de descobrir o que os adultos tanto falavam que crianças não podiam ouvir. Já sou adulto, apesar de não parecer. Sou. Podem me contar.

Cinco adultos estão conversando. Uma criança de 8 anos, filho de um dos adultos da roda, chega perto, para, não fala nada. Fica em silêncio olhando para os adultos. Então eles param de conversar.

— Papai tá conversando conversa de adulto.

— Qual é a conversa, pai?

— Conversa de adulto, que não é de criança.

— Sim, mas qual o assunto?

Os adultos se olham.

— Coisa de gente grande.

— É, não é de criança.

— Vai conversar com as crianças.

— Vou, mas eu quero saber sobre o que é.

— Mas o papai já não falou que, quando estivéssemos conversando com os tios, era coisa deles?

— Mas pai…

— Mas pai, não! Coisa mais feia, se metendo assim. Vai lá brincar que daqui a pouco a gente já tá indo embora.

A criança então vai, a contragosto. Os adultos esperam ela se afastar e então respiram aliviados.

— Ufa, foi por pouco.

— Nem me fale.

— Certo, do que estávamos falando mesmo?

— Do Capitão América, que ele perderia numa briga com o Batman.

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