Existe uma fantasia muito bem vendida sobre escritores. Mesa limpa. Café fumegante. Playlist instrumental elegante. Inspiração caindo do teto igual notificação boa.
Mentira.
Ou pelo menos, não comigo.
Eu escrevo com o café já frio, o arquivo cheio de comentários em CAPS, frases sublinhadas porque “ISSO AQUI TÁ UMA MERDA”, e uma playlist que vai de pagode anos 2000 a trilha de série dramática em cinco minutos. Organização estética nunca escreveu livro. Caos, sim.
Meu processo criativo não começa com motivação. Começa com incômodo. Uma cena que não sai da cabeça. Um diálogo que surge no meio do banho. Uma personagem que fala alto demais pra ser ignorada. Quando percebo, já estou abrindo o manuscrito como quem abre uma ferida antiga: sabendo que vai doer, mas aliviada por mexer.
Escrever comédia romântica hot brasileira não é viver num eterno clima de leveza. É engenharia emocional. É saber exatamente onde aliviar e onde apertar. Onde o leitor ri. Onde prende a respiração. Onde o tesão entra não como enfeite, mas como consequência de tensão mal resolvida.
O manuscrito nasce sujo. Sempre.
Quem escreve “bonito” no primeiro rascunho geralmente está se censurando sem perceber. Eu deixo sair torto, exagerado, às vezes cafona mesmo. Depois eu volto com o olhar clínico. Corto. Enxugo. Ajusto o ritmo. Escrita boa não é inspiração divina — é lapidação sem dó.
Minhas playlists não são trilha sonora estética. São gatilhos. Tem música pra cena de flerte, pra briga feia, pra sexo mal resolvido, pra silêncio constrangedor. Às vezes a música não combina com a cena, e é justamente isso que funciona. Cérebro gosta de contraste.
E não, eu não escrevo todos os dias feliz. Escrevo mesmo quando não confio em mim. Principalmente nesses dias. Porque esperar confiança pra criar é como esperar o mar ficar calmo pra aprender a nadar.
Essa revista nasce pra mostrar isso:
o bastidor sem filtro.
a escrita como trabalho emocional.
o caos produtivo que ninguém posta no Instagram.
Se você escreve — ou quer escrever — entenda uma coisa agora:
não existe processo certo. Existe processo que funciona pra você. E ele quase nunca é bonito de ver.
Aqui, a gente mostra.
Café frio incluso.