A sexta-feira era sagrada para Gustavo. Não aceitava ouvir nenhuma notícia ruim, pedido para fazer hora extra, reunião sobre a semana que vem, nada. Semana que vem resolvemos na semana que vem, dizia ele. Ele não admitia que ninguém estragasse o melhor dia da semana. Sexta-feira.
— se a sexta feira fosse uma mulher eu casava com ela. Talvez até se fosse um homem.
Dava quinta ele ja se preparava para sexta. Tanto que se na quinta, antes de ir embora, o chefe falasse:
— Precisamos conversar sério amanhã.
Ele respondia:
— Se for muito sério mesmo, fala agora ou deixa pra segunda. Sexta eu não falo nada sério.
O chefe aceitava; apesar desse exagero com a sexta, ele era um ótimo funcionário.
Um chefe antigo, uma vez, quis demitir ele numa sexta, assim que ele chegou para o expediente. Porém, ele não aceitou: voltou na segunda para oficializar a demissão.
Pegou uma ex-namorada traindo ele numa sexta-feira, quando foi fazer uma visita surpresa. Não falou nada, agiu naturalmente, como se não tivesse visto o que viu — a ponto de ela achar que ele não tinha visto. Porém, na segunda-feira, quebrou o pau com ela e terminaram.
Não ficava doente na sexta. Na verdade, ficava, mas disfarçava, fazia de tudo para esconder.
— Gustavo, você está com uma cara péssima, está tudo bem?
— Está ótimo.
Então corria para vomitar.
— Tem certeza que não quer ir ao médico, numa dessas voltar pra casa?
— Não, isso não é nada. Estou esvaziando meu estômago para aproveitar mais o after.
Chegou ao extremo de ter um tio-avô que morreu numa sexta. Ele foi o primeiro a saber, mas só avisou na segunda, para não estragar o dia dele nem dos familiares. Era o que ele alegava.
— Você tem quatro dias úteis para fazer qualquer coisa ruim. Vai deixar para sexta? Não admito.
Alguns rebatiam:
— Mas os acontecimentos não têm noção de calendário.
— Mas nós temos. A gente pode controlar.
E ainda continuava:
— Fora que notícia ruim de sexta não estraga só a sexta, estraga o fim de semana todo. A sexta não é um dia, é um conjunto de dias. Ela é uma turma. Carrega o peso de três.
E assim seguia: se desviando de qualquer coisa que pudesse estragar sua sexta e, consequentemente, seu fim de semana.
Mas, diferente do Gustavo, a morte não liga para que dia é. Trabalha sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia, sem descanso. Por isso foi buscar o Gustavo justamente numa sexta-feira, seis e pouco, no auge do Sextou.
