Ela arrumaria outro emprego, era o que pensava, de dentro do Uber, indo para casa. Sabia a profissional que era, o quanto era competente. Fora que, do jeito que estava, não dava mais para aguentar: quase um mês inteiro trabalhando sem folga, fazendo hora extra em cima de hora extra. O chefe era desorganizado e quem pagava era ela: com a saúde, com o emocional, sem contar o sono atrasado. Estava dormindo pouco, e o pouco que dormia era mal, por causa do estresse de pensar no prazo. Talvez por isso tenha explodido. Era como um bebê: se irritava quando estava com sono e com fome. Era sono — e muito. Tanto que foi suficiente para falar que, para ela, tinha dado. Não aguentava mais ter que fazer trabalho a mais pela incompetência dele. Tinha aguentado, e muito, mas chegara ao limite. O cansaço era tanto que ela estourou entre lágrimas — não de raiva, mas de sono.
Mas hoje seria diferente. Finalmente dormiria sem ter hora para acordar. Colocaria o celular no silêncio — melhor, desligaria o celular. Nada de trabalho. Nada de prazo. Nada. Apenas dormir.
Chegaria, tomaria um banho bem quente e iria direto pra cama. Nem comer queria, para não correr o risco de ficar com queimação ou ter que esperar a comida “baixar”. Banho e cama. Depende… como fosse, nem banho tomaria; iria direto pra cama. No outro dia ficaria em casa, então podia trocar as roupas de cama, lavar. É isso: sem banho, só cama.
O Uber parou na frente do prédio. Ela agradeceu, desceu. O portão era destravado usando o rosto. Sorriu para a máquina — fazia tempo que não sorria.
Passou pelo porteiro.
— Boa noite, dona Paula.
— Boa noite, seu Milton.
O elevador já estava no térreo, esperando ela. Da série: pequenas alegrias da vida. Apertou o 5. Subiu. Seu apartamento era de frente para o elevador. Agora faltavam poucos metros.
Ela entrou. Luz da sala acesa. Então viu as roupas espalhadas pela sala. Se estivesse com o sono em dia, iria juntar e reclamar, mas não hoje. Hoje foi direto para o quarto. A porta estava entreaberta, luz apagada. Dava para ver que só o abajur estava aceso e uma música transante tocava, naquele volume de consultório de estética.
Quando abriu a porta, deu de cara com o namorado em cima de alguém. Sob a luz do abajur e a que vinha do corredor, não dava para identificar quem era.
— Paula?
Ela olhou para os dois por alguns segundos, mas mesmo com luz não saberia dizer quem era a mulher que estava embaixo dele.
— Não é nada disso que você está pensando?
Ela foi até o cabideiro, tirou o blazer e a blusa que estava por baixo e pendurou de qualquer jeito. Ficou só de camiseta.
— Você não ia trabalhar até tarde?
Ela foi até o lado dela da cama, o esquerdo, puxou as cobertas. Sentou. Ele estava por cima da mulher que ela não tinha ideia de quem era, do lado direito — menos mal, ela pensou — enquanto tirava os sapatos, as meias, a calça.
— Amor, eu sinto muito, eu juro que…
Mas antes que ele terminasse, ela se enfiou embaixo das cobertas, desligou o abajur, fechou os olhos e sorriu.
Eles ficaram no escuro, em silêncio. Sem entender o que estava acontecendo. Então levantaram, pegaram as coisas que estavam no chão — as que conseguiram enxergar — e foram saindo. A desconhecida na frente, ele atrás. Quando ele já estava quase fora do quarto, Paula chamou por ele.
— Oi.
Ele parou, gelado de medo. Era isso. Só agora caiu a ficha: o barraco ia começar.
— Fecha a porta pra não entrar a luz do corredor.
