Imagina a seguinte cena: bloquinho de Carnaval, pessoas se divertindo, algumas bêbadas, distraídas com a festa. Começa a tocar aquela música que todo mundo canta junto, Evidências. Enquanto você está entregue à letra, cantando de olhos fechados, nem percebe que um sujeito vestido de Docinho das Meninas Superpoderosas pega o seu celular. Ele está saindo, mas recebe voz de prisão de um homem vestido de Chaves e outro vestido de Kiko.
Parece cena do Brooklyn 99, mas não é. Esse tipo de coisa aconteceu no Carnaval de São Paulo. Policiais se fantasiaram para se infiltrar nos bloquinhos de rua, na Operação Carnaval — nome autoexplicativo, não usaram muita criatividade aqui. Geralmente se dedicam mais a colocar nomes nas operações. Até já me perguntei se tem alguém dentro da polícia que é especialista nisso ou se fazem brainstorm.
— Então a operação que estamos prestes a realizar é para investigar a lavagem de dinheiro com o jogo do bicho, o envolvimento do jogo no crime. Precisamos de ideias.
— Operação Zoológico.
— Muito óbvio.
— Operação Pet Shop.
— Acho que é restrito. Pet shop é mais cachorro e gato, jogo do bicho é mais variado.
— Madagascar.
— Oi?
— Operação Madagascar.
Todos se olham sem entender.
— Por causa da animação Madagascar, o leão, a zebra…
— Ah, sim. Mas acho que nem todo mundo vai pegar. Mas é um bom nome.
Silêncio. Todo mundo parece estar pensando. Um deles então fala:
— Operação Arca de Noé.
— É isso. Esse é perfeito. Todo mundo tem referência, Bíblia todo mundo conhece.
— O filme Madagascar também.
— Então é isso, Operação Arca de Noé. Já temos o nome.
— Só falta a gente prender as pessoas.
Enfim, pra quem não viu: agentes da Polícia Civil — Polícia Civil mesmo, fui conferir na matéria. Confesso que sempre confundo as polícias. É muita polícia — não pra pouco bandido, porque tem bastante bandido. Na verdade tem tanto bandido que uns estão até na polícia, o ser bandido transborda.
Mas são três tipos de polícia: a Civil, Militar e Federal — tem a Rodoviária, mas essa é autoexplicativa. As que confundem mesmo são essas três, se eu não me engano. Vale lembrar que eu quase sempre me engano. Toda vez que eu falo (escrevo) algo já pode supor que estou enganado.
Tem a Polícia Militar, é a que patrulha — de carro, a pé, bicicleta, patinete, patins, monociclo, pula-pula, perna de pau — para o caso de crimes em lugares altos, estão sempre atentos. Se você é policial e está lendo, não tem ironia; se não for, tem. A Polícia Militar está nas ruas e anda com um uniforme escrito “Polícia Militar”, para que ninguém tenha dúvida. É a que te revista quando você está com seus amigos fofocando e fumando maconha, a polícia que te faz ficar nervoso mesmo sabendo que não fez nada de errado.
A Polícia Civil é a que está à paisana, o policial que tem uma energia de tio divorciado legal. Ele usa tênis Vans e calça Levi’s. Te deixa à vontade e só revela que é da polícia depois que você já falou absurdos, pois achou que o sujeito parecia seu tio Ronaldo. É a polícia que investiga o crime depois que aconteceu.
E tem a Polícia Federal, que costuma prender quem usa terno no dia a dia e faz as prisões bem cedo. Antes do café da manhã você vai preso em jejum. Você até demora a saber por que está sendo preso — está de samba-canção, acabou de acordar e não tomou café.
“Você está sendo preso, tem o direito de permanecer calado, tudo que você disser poderá ser usado contra você no tribunal e não, você não pode tomar café antes de te levarmos. E não dá tempo de você colocar seu terno.”
Então, se você achar que vão cometer um crime contra você, chama a Polícia Militar. Se cometerem um crime, chama a Polícia Civil. Agora, se quem cometeu o crime usava terno, chama a Polícia Federal — amanhã cedinho eles vão estar presos.
Voltando aos policiais disfarçados nos bloquinhos: os policiais da Civil se fantasiaram. Havia uns com fantasia de Caça-Fantasmas, Turma do Scooby-Doo, Turma do Chaves, outros com uma fantasia inflável que simula um ET carregando um humano, entre outras. A Operação Carnaval foi um sucesso, muitos bandidos foram presos. Com certeza vão se arrepender de ter cometido crime, principalmente porque na cadeia ninguém vai respeitar um bandido que foi preso pela Velma da turma do Scooby.
Alguns policiais se perderam no bloquinho, foram trabalhar no primeiro dia de Carnaval e só voltaram na quinta pós-Quarta-feira de Cinzas.
— Posso saber onde você estava, policial?
— Eu caí numa emboscada, chefe.
— Como assim?
— Vi um grupo de mulheres, tinha pelo menos 10 delas. Estavam vestidas de cheerleaders, daquelas de filme de high school. Elas pareciam estar portando drogas, pois cercavam homens, deixavam eles loucos e então seguiam em frente. No primeiro dia observei de longe. No segundo me aproximei. No terceiro fui pegando amizade para me infiltrar. No quarto dia já estava amigo delas, até me vesti de jogador de futebol americano para entrar na brincadeira.
— E aí, no quinto dia?
— Era quando eu ia dar voz de prisão.
— E deu?
— Não. Depois do quarto dia eu não lembro de mais nada.
— Elas te drogaram?
— Provavelmente. Acordei ontem à noite, não sei como cheguei em casa. Pegaram meu distintivo, minha arma e meu celular.
— E agora?
— Agora é torcer para elas me seguirem no Instagram ou esperar ano que vem. Dizem que vão vestidas de jogadoras de vôlei.
Ps:. O que eu fiquei pensando foi: a corporação que cedeu as fantasias ou o policial que teve que providenciar? Se eles que tiveram que correr atrás, tiveram a liberdade pra escolher ou tinha um limite? São tantas perguntas.
— Agente Souza, você vai vestido de Batman.
— Mas, senhor, não faz sentido.
— Como assim não faz sentido?
— O Batman não sai de dia, ele só combate o crime à noite.
— Você sabe que é uma fantasia, né? Um disfarce.
— Sim, mas do personagem também é, ele usa para preservar a identidade secreta dele.
— Sim, mas no caso não existe.
— Pois é, mas é que não faz sentido.
— Tem do Aquaman.
— Na cidade?
— Agente Souza.
— Senhor, pode ser uma outra.
Ele mexe na caixa.
— Tem de Super-Homem.
— Muito coxinha, senhor. É um personagem chato. Não me pega.
— Olha, são as fantasias que temos.
— Posso providenciar minha própria fantasia.
— Pode.
— Ótimo.
