Ja reparou que todo mundo que cozinha por hobby tem um prato especial, se gaba de: esse é o meu prato. Quando eu faço, não tem pra ninguém. As vezes a pessoa nem cozinha, mas ela tem um prato que sabe fazer, como alguem que nao joga futebol, nao tem ideia como funciona, mas bate uma falta como ninguem. Ou nao entende nada de musica, nao sabe o que é sol o que é fa, qual corda é qual, mas sabe tocar uma musica perfeitamente no violão.
Eu gosto muito de cozinhar, mas eu percebi que nao tenho uma especialidade, um prato que seja a minha carta na manga, que eu me garanta. Na verdade, modéstia a parte, eu me garanto cozinhando, mas não tenho um carro-chefe, meus carros são todos funcionários. Talvez eu não tenha um prato específico pra bater no peito e falar “esse daqui eu domino”, por medo de falar isso e não entregar tudo. Então faço o básico e arrisco as outras coisas. Se der pra cozinhar, eu vou tentar. Faço por gosto, porque me relaxa e, principalmente, porque eu gosto de comer.
Não me lembro exatamente quando começou esse gosto pela cozinha, mas sei que, quando era adolescente, já adiantava a janta pra minha mãe quando sabia que ela ia chegar tarde do trabalho. E gostava dessa aprovação dela, além de ver que meus irmãos, ou quem comia a comida que havia sido feita por mim, gostava. Já tinha ali a necessidade de uma aprovação. Gostava tanto que, por um tempo, pensei que trabalharia como cozinheiro, viraria chef. Cheguei a fazer um curso de cozinheiro auxiliar no Senac Curitiba, trabalhei na área, mas então percebi que aquilo não era pra mim: trabalhar. Cozinhar eu gostava. Trabalhar, não.
Porém, desde que fui morar sozinho, tenho cozinhado menos do que gostaria, por alguns motivos: preguiça, correria do dia a dia, praticidade de comer fora — principalmente porque suja menos louça. Quando você mora sozinho, não existe “quem cozinha não lava a louça”. Quem cozinha lava a louça, guarda e, se aparecer alguma coisa suja, lava de novo. Na verdade, a vida adulta é pautada por: “ok, mas quanto de louça isso vai sujar?”. A gente baliza a nossa rotina na quantidade de louça que aquilo vai gerar.
Enfim, o principal motivo é que eu não consigo cozinhar pra um. Cresci numa casa com quatro pessoas: eu, minha mãe e meus dois irmãos. Logo, qualquer coisa que ia ser feita tinha que pensar que tinha mais gente em casa — coisa que minha mãe nunca deixava a gente esquecer. Era um lema dela: “você não mora sozinho, tem mais gente em casa”.
— Fazendo só pra você por quê? Mora sozinho? Não sabia que somos espíritos vagando na sua casa.
Éramos constantemente lembrados disso, na hora de fazer algo ou na hora de comer.
— Tá pegando mais um porque, bonitão? Não tem só você pra comer, você não mora sozinho, não.
Perdi as contas de quantas vezes escutei isso, direcionado pra mim e para os meus irmãos. A comida era contada: um bife para cada. Porém, às vezes, davam cinco. Minha mãe pegava um, cada um de nós pegava um e ficava um sobrando. Quando nos dávamos conta de que estava sobrando um, então virava o Velho Oeste entre eu e meus irmãos. A gente comia olhando um pro outro, numa troca de olhares digna de um filme de faroeste, em silêncio, só se ouvindo o som do talher com o cabo queimado batendo no prato fundo cor âmbar da Duralex, naquela tensão entre não poder comer correndo pra não tomar um esporro da mãe, nem comer devagar a ponto de ficar sem a mistura extra.
Por isso eu não sei cozinhar pra um. Sei cozinhar pra nenhuma pessoa ou pra quatro pessoas. O que deixa meu eu do futuro feliz, pois, se faço comida hoje, o eu de amanhã vai ter o que comer. Mas o eu de daqui três dias vai estar:
— Meu Deus, eu não aguento mais comer macarrão com frango.
Ontem mesmo fui fazer sopa, que não é o prato menos individual da história. Ninguém faz sopa pra um. Sopa é pra muita gente. É servida em situações de guerra, pra batalhões. Tanto que é feita em panelas grandes, fundas a ponto de que, dependendo da pessoa que está cozinhando, ela pode cair lá dentro e virar um dos ingredientes. Você até pode tentar fazer pouca sopa, mas sempre vai terminar com uma quantidade grande e você pensando: “ok, tem muito, vou ter que abrir uma ONG e distribuir sopa pros mendigos”.
Eu preciso urgentemente, aprender a cozinhar pra um ou arrumar uma familia. E descobrir qual a minha especialidade.
