Genesis 3:22-23
22 Então o Senhor Deus disse o seguinte: — Agora o homem se tornou como um de nós, pois conhece o bem e o mal. Ele não deve comer a fruta da árvore da vida e viver para sempre.
23 Por isso o Senhor Deus expulsou o homem do jardim do Éden e fez com que ele cultivasse a terra da qual havia sido formado.
Adão e Eva estão recém saídos do paraíso. Ainda discutindo pelo que aconteceu. Olhando em volta, tentando em entender onde estão.
– eu não acredito que você fez eu comer o fruto.
– Eu não fiz nada, eu ofereci, voce não é obrigado a nada.
– Não era obrigado, né? Agora vou ser obrigado a trabalhar. Por que você não conseguiu se controlar e não comer da única árvore que não podia? Todas as outras podia, mas você queria aquela. Pra você não era o suficiente.
– Não mesmo, pra você aquela monotonia tava boa, encostado daquele jeito.
– Era o paraíso. La era o lugar de não fazer nada. É isso que é o paraíso.
– as vezes o paraíso de alguns é o inferno dos outros.
– Quer saber? Vai colocar uma roupa.
– Vai você, com esse negócio murcho aí.
Pela primeira vez eles se dão conta de que não usavam roupas e ficam com vergonha. Silêncio. Os dois se olham.
– acho que é melhor cada um seguir o seu caminho.
– Já não estava legal no paraíso, imagina agora.
– Pois é.
– Eu vou para aquele lado.
Eva aponta para trás.
– eu pra lá.
Adão aponta para frente.
E cada um vai para o seu lado, até um sumir da vista do outro.
15 anos depois eles se reencontram por um acaso, caçando o mesmo porco.
Tem duas lanças no porco caído. Uma dele e uma dela.
Quando se aproximam do bicho caído, se estranham. Ele está barbudo, calvo, ainda está magro — a dieta fora do paraíso é mais puxada. Ela está com cara mais madura, usando uma roupa que cobre o corpo todo, não só aquela folhinha. Amadureceu também. Os dois ficam sem graça em ver um ao outro.
– Eva.
– Adão.
– Quanto tempo, hein.
– Pois é.
– Acertou em cheio ele, hein.
– Acho que você acertou primeiro.
– Foi você.
– Quando vi, ele já tava mais devagar.
– Então acertamos os dois juntos.
– nem eu nem tu.
Eles riem.
– nossa, você está mais…
– Velho?
– Ia falar mais maduro, mas envelheceu bem.
– Você está ainda melhor.
– Também você não tem muita referência.
– Isso é verdade.
Ela dá um tapa no braço dele, rindo.
– e aí, o que anda aprontando? Nunca mais te vi.
– Pois é, o mundo é grande, né. Mas não tenho feito nada demais: caçando pra comer, dormindo, fazendo vários nadas. E você?
– O mesmo. Só tento não ficar muito parada, é como diz, né: mente vazia é oficina da cobra.
Eles riem numa mistura de sem graça com nervoso.
– às vezes me pego pensando como estaríamos se não tivéssemos sido expulsos do paraíso.
– Eu tento não pensar muito nisso.
– Será que estaríamos juntos?
– Provavelmente. A gota d’água foi o fruto.
– Você não superou, né?
– Não é isso, é só que, se não fosse isso…
– Talvez seria outra coisa.
– Enfim, já foi.
– É, já foi.
Silêncio.
– já eu penso se não deveríamos ter continuado juntos aqui.
– Também já pensei.
– Como estaríamos, será?
– Acho que teríamos filhos.
– Um animalzinho de estimação.
– Envelhecendo juntos.
– Estaríamos bem mais velhos do que estamos.
– Acabados, filhos devem dar um trabalho.
– E devem brigar.
– Se matar.
– Deus nos livre.
– Livrou.
Riem juntos de novo. Até ficar um silêncio.
– Então é isso.
– É isso.
– E o porco?
– pode ficar com o porco.
– Que isso, faço questão que você fique.
– Mas você acertou a lança que derrubou.
– Só porque você já tinha dado a primeira que desnorteou ele.
– Vamos fazer assim: comemos os dois.
– Será?
– Vai fazer o quê hoje?
Eva fecha os olhos fingindo que está consultando os compromissos.
– Deixa eu ver na minha agenda.
– hoje realmente não tenho nada marcado. Nem amanhã, nem depois de amanhã.
– Então jantamos juntos hoje.
– Combinado.
– Porco assado.
– Mas nada de maçã na boca.
– Nada de fruto.
