Brasilia – sala de reunião do Flávio Bolsonaro próximo ao condomínio solar de Brasília
Reunidos numa sala estão Flávio Bolsonaro, o cabeça do plano, apesar de que ele não gosta de ser chamado assim, já que realmente é muito cabeçudo. E mais alguns homens – capangas – presentes.
— O plano é simples: vamos fazer uma vigília para distrair. Colocamos vários fiéis orando na frente da entrada do condomínio. Os policiais vão ficar dentro do carro, não vão se aproximar, é tipo quando você vê o doido do centro: fica só de longe. Ficarão comentando sobre o que está acontecendo, provavelmente tentando entender por que adultos com família se dispõem a passar por um papelão desses, como aqueles doidos que, aquela vez, fizeram uma roda de oração em volta de um pneu. Enquanto eles estão distraindo a polícia, lá dentro o JB vai cortar a tornozeleira com um ferro quente. Vimos um tutorial no YouTube, obviamente na janela oculta para não conseguirem rastrear. Depois de tirar a tornozeleira, a gente vai colocar ele no porta-malas do carro, levar até a embaixada da Argentina. Lá ele não pode ser preso. Simples. Eficiente. Sem pontas soltas.
Então um dos capangas pergunta:
— Quer que eu imprima o plano?
— Não, nada de imprimir dessa vez.
— Verdade, verdade…
O capanga 2 ergue a mão, como se estivesse na escola.
— Isso aqui não é a escola, não precisa erguer a mão.
— Desculpa.
— Abaixa a mão.
— Fazendo o advogado do diabo aqui…
Flávio então responde:
— Não gostamos de usar essa expressão aqui. Sabem que somos as porras dos evangélicos, não falamos do diabo, caralho.
Capanga 2:
— Desculpa. Só pra saber… se tentar violar a tornozeleira a polícia não aparece?
— Ótima pergunta, por isso teremos que ser rápidos. Quando tirar a tornozeleira a polícia vem, a gente segura eles na entrada do condomínio, em meio à aglomeração. Quando eles conseguirem entrar, já estaremos saindo a caminho da embaixada da Argentina. Só temos que conseguir entrar lá; eles não podem entrar, nem podem nos tirar. O Jair vai estar seguro lá.
Os presentes aplaudem.
— Tá, mas e se ele sair da embaixada?
— Pergunta idiota. Prendem ele, né.
— Então ele vai ficar preso na embaixada?
Flávio olha para os capangas como se não tivesse pensado nisso.
— Oi?
— Não vai ser tipo uma prisão domiciliar, só que em outro lugar?
— Claro que não. Domiciliar é domicílio. Casa. Vai ficar preso em outro lugar que não na casa dele.
— Mas ainda assim é uma prisão.
— Mas não é domiciliar.
— Quieto, os dois. Não é uma prisão. É um asilo político.
— De onde ele não pode sair, senão prendem ele. Ou seja: vai estar preso. Preso em casa, preso na embaixada.
— Sai da sala.
Brasilia – em frente ao condomínio Solar de Brasília
Já está à noite, vários fiéis – ao Bolsonaro, não a Deus – estão em frente ao condomínio. Todo carro que se aproxima, os fiéis – ao Bolsonaro – gritam:
— Ele veio se juntar a nós! Mais gente pra orar pro mito!
Então a pessoa dentro do carro buzina para que os malucos saiam da frente.
A cena se repete várias vezes.
Até que um motoboy para em frente ao condomínio. Desce da moto. Tira o capacete. Os fiéis – ao Bolsonaro – olham desconfiados, já que, em vez de ir na direção da portaria do condomínio, vai na direção deles. Para e pergunta:
— Aqui que é a vigília para o Bolsonaro?
— Mito!
Alguém grita. Então, como bons minions, todos começam a repetir juntos em coro:
— Mito! Mito! Mito!
Quando eles finalmente param:
— Desculpa, é que não pode falar o nome…
— Bolsonaro?
Recomeçam a falar “mito”, como cachorros latindo juntos.
Esperam baixar os ânimos.
— Isso.
— Certo, é aqui que é a vigília?
— Sim.
Ele vai até a moto, abre a caixa, tira dez pizzas.
— Mandaram dez pizzas para vocês.
Todos ficam em silêncio.
— O dono da pizzaria está acompanhando a gente pelas redes, é do time do capitão, e mandou?
Antes do motoboy responder, outro fiel – ao Bolsonaro – grita:
— Foi o próprio capitão que mandou?
— Gente, o capitão mandou pizza!
Recomeçam o coro:
— Mito! Mito! Mito!
— Não foi o Bol… o Jair que mandou.
— Então foi o Eduardo, pagou dos EUA, em dólar, não custa nada.
— Não.
— Foi Trump!
Então o coro começa a gritar “mito”, mas agora em inglês:
— Myth! Myth! Myth!
Gritam enquanto devoram a pizza como bichos.
— Não, não foi o Trump.
— Então quem foi?
O motoboy tira um papel do bolso.
— Alexandre de Moraes.
Brasilia – dentro da casa do Jair Bolsonaro no condomínio Solar de Brasília
Jair esta sentado na cadeira, com a perna que esta a tornozeleira eletrônica a mostra, esticada para Michelle. Ela esta com um ferro de solda na mao, molha a ponta do dedo e da uma rápida encostada, como num ferro de passar roupa.
— Ok, vai com calma, tá ok.
— Jair, eu não quero fazer isso.
— E eu não queria estar preso em casa.
— Eu menos ainda com você.
— Oi?
— Nada. E se eu acertar sua perna?
— Sou homem, porra. Inqueimável.
— Se você continuar com essa mania de colocar “in” na frente de qualquer palavra eu vou te queimar por querer.
— Desculpa.
— Fica com o pé firme.
Ele fica olhando. Ela começa. Ele começa a criticar, como qualquer homem com mais de 50 anos vendo uma mulher fazer algo que ele acha que uma mulher não sabe fazer direito.
— Segura mais firme. Mais pro lado. Enfia mais.
— Para de falar, você está me desconcentrando.
— Tira a tampinha pra desligar os fios. Só cortar o fio vermelho, já vi nos filmes.
— Quieto.
Ela dá um tapa na perna dele. Ele, no reflexo, dá um chute na mão dela e faz ela cair pra trás, já que estava de cócoras, agachada. Ela larga tudo no chão.
— Quer saber? Não vou mais fazer. Faz voce.
— Mas eu não consigo, porra.
— voce não é o in tudo. Vai dar um jeito.
Ele fica olhando para ela que para na porta.
— imprestavel.
Brasilia – a uma quadra do condomínio Solar de Brasília
Um carro está estacionado na reta do portão do condomínio; dentro, dois policiais federais observam os fiéis – do Bolsonaro.
— Acha que deveríamos ir lá?
— Fazer o quê?
— Dispersar.
— Não. Deixa os doidinhos lá.
Os dois olham para eles, como se estivessem num zoológico observando bichos.
— O que será que a família deles acha deles?
O policial que está no banco do carona pergunta:
— De quem?
— Deles.
Aponta com a cabeça para os fiéis – do Bolsonaro.
— Acho que têm um pouco de vergonha. Tinha um amigo meu cujo pai tava na turma que invadiu o Congresso no dia 8.
— Sério?
— Sim.
— Ele e a família apagaram redes sociais, largaram tudo e se mudaram sem o pai para Governador Valadares.
Brasilia – portaria do condomínio Solar de Brasília
O porteiro está dentro da guarita, que é toda escura por causa do insulfilm – o que impossibilita quem está do lado de fora de ver lá dentro. Edson está lá dentro tentando ver TV, mas toda hora é distraído pelo grito de “mito, mito, mito”.
Toca o celular, ele atende.
— Oi, tô aqui vendo os doidinhos… sim, sim… sempre vinham, mas essa semana ficaram… também não sei onde tá a família deles não… isso aí é falta de emprego ou surra… é, ou os dois… sabe que eu até era Bolsonaro, mas fizeram eu desistir de ser… que medo de ter virado eles… você me avisaria, né?… não, não corro mais o risco, eles fizeram eu pegar uma raiva dele… Nossa, era o trabalho mais tranquilo de todos, agora tô aqui torcendo pra que chova pedra… Esses gritos entram na mente da gente… sim, sim… é… às vezes eu estou quieto e, do nada, começo a ouvir “mito, mito, mito”… sério, eu achei que ia ser porteiro de condomínio, não de sanatório… vou desligar que tá chegando um motoboy… tá, tá… depois te ligo.
Ele fica parado esperando o motoboy se aproximar, mas ele vai na direção dos fiéis – do Bolsonaro.
— Mais um doidinho.
Fala o porteiro, sozinho. Na sequência ouve os gritos: “mito, mito, mito”.
Brasilia – casa do ministro Alexandre de Moraes
Alexandre de Moraes e a esposa estão deitados, a TV está ligada. Ele está dormindo, ela está lendo um livro. Toca o telefone do Alexandre de Moraes; o toque é o tema do Batman: tananananananananana Batman.
A mulher de Alexandre cutuca ele, que acorda no susto.
— Tô assistindo.
Ela olha para ele.
— Seu celular tá tocando.
Ele escuta o toque. Abre um sorriso. Pega o celular. Atende quando o toque chega na palavra “Batman”.
— Alô… oi… sabia… sabia… tá… tá… tô indo pra lá… sim, vou lá receber ele pessoalmente.
Ele levanta da cama como se não tivesse dormido menos de um minuto atrás. Ela fica curiosa.
— O que aconteceu?
Ele sorri.
— O Jair?
Ele vai para cima dela. Tira o livro da mão dela. Começa a beijar.
— Me chama de Batman.
— Você não estava com pressa?
— Dá tempo. Me chama.
Então ela começa a cantar o tema da música do Batman de um jeito sensual no ouvido dele:
— Tãnãnã… Batman.
