Cada ano que passa, o Ano-Novo parece menos novo. Quando eu era criança, o Ano-Novo tinha uma aura de realmente novo. Quando dava meia-noite, era como se tivesse tirando um ano novo do plástico; tinha até um cheiro diferente, que lembrava um pouco cheiro de carro novo. Porém, agora parece que só deram uma lavada, voltaram a quilometragem e entregaram de qualquer jeito. Não é um ano novo, é um ano usado, único dono, sem garantia.
O Ano-Novo tem um ar de morador novo, uma visita que veio para ficar. Janeiro ainda está tímido, falando baixo, pedindo licença pra tudo. Fevereiro ainda é tímido, mas já está festando. Março começa a mostrar as garrinhas. Maio já está abrindo a geladeira sem pedir, usando o gelo e não enchendo a forminha.
A virada do ano é como se o seu eu do ano que passou trocasse de turno com seu eu do presente/futuro, que vai assumir o posto. Seu eu de 2025 cumpriu o expediente todo: poucas folgas, muito trabalho e pepino pra resolver. Ali pro final do ano, só estava enchendo linguiça, esperando acabar o turno dele pra entregar. Quando dá dia 31, ele só está esperando a meia-noite pra bater o cartão. Tem gente que comemora um pouco antes — relógio tá adiantado. Sentimos inveja do pessoal que mora do outro lado do globo, Austrália, Japão etc., pois o turno deles termina mais cedo. Então, quando o dia primeiro chega, seu eu do passado nem conversa muito: só vai embora e deixa que o outro descubra tudo que ficou pra fazer durante o ano do turno dele.
Dia 31 de dezembro — 23:58
Quando o funcionário que tocou o ano que está acabando está saindo, encontra o que vai cuidar do ano novo.
— Oi, você é o…?
— Eu do ano passado.
— Prazer, Eu do ano novo.
Estende a mão. O eu do ano passado cumprimenta por educação. Está cansado, sem paciência, só quer se retirar.
— E aí, alguma dica pra passar?
— Sobre?
— Sobre como tocar o ano. Estou cheio de planos: estudar, dormir melhor, fazer exercício, viajar… quero viajar muito.
O funcionário do ano passado dá uma risada.
— O que foi?
— Nada, não.
— Como nada? Você riu de deboche, eu conheço essa risada.
— Nada.
— Fala.
— Eu estou me vendo em você. Era exatamente assim quando comecei em janeiro passado.
— Claro que está se vendo, somos a mesma pessoa.
— Não somos. Definitivamente não somos. Eu sou você daqui um ano.
— Quer dizer que daqui um ano eu vou estar assim?
Ele fica em silêncio.
Fogos. Dia 1º de janeiro — 00:00
Ele sai andando.
— Volta aqui, fala comigo. Volta!
Ou
31 de dezembro — 23:59
O seu eu que vai tocar o novo ano chega pegando a bagunça.
Quando o eu do ano passado está saindo, é chamado pelo eu do ano novo.
— Ei, o que é isso?
— As coisas pra você resolver esse ano.
— Mas tem muita coisa.
— Olha, se te conforta, tava pior quando eu cheguei.
— Tem coisa de 2022 aqui.
— Sim, vai se acumulando.
— Mas eu tava cheio de planos.
— Que bonitinho.
— O que eu faço?
— Pode ficar preocupado com tudo que tá acumulado, mas vai dar mês três, já vai estar cansado e não vai aguentar nem até agosto.
— Ou?
— Ou ignorar e fingir que não tem nada mal resolvido e tentar focar nos novos planos.
— O que você fez?
— É sério que você está vendo o jeito que eu estou te passando o bastão e, ainda assim, tá pedindo conselho?
Fogos. 1º de janeiro — 00:00
