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TUDO EU?

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TUDO EU?

Já parou para pensar que o seu EU do fim do ano não é o mesmo que iniciou o ano? São pessoas diferentes. Pega uma foto de janeiro e uma de agora: nem visualmente são parecidos. O da foto de janeiro é um sonhador, estava iludido, cego pela esperança e pela roupa branca, surdo para as verdades por causa dos fogos. Fazendo promessas exageradas por causa da bebida e das propagandas que falam que o novo ano traz novas oportunidades. Nunca confie no seu eu de janeiro: ele diz coisas absurdas, do tipo — vou acordar cedo todos os dias pra meditar, ir pra academia, tudo isso antes do café, que será igualmente saudável. Como confiar nessa pessoa? Nesse recorte empolgado e mentiroso que vagamente lembra você. Seu eu de fevereiro e março também não vale ouvir, eles ainda estão inebriados pelas promessas do eu do mês um, saindo do carnaval, justificando que agora o ano começa mesmo. Seu eu de junho e julho, mesmo sabendo como são os EUs anteriores, ainda estão um pouco iludidos porque ainda têm seis meses pela frente, e esse tempo é mais do que suficiente. O seu eu de novembro — no máximo na primeira semana de dezembro — é quem mais está a par da real situação, seria a sua melhor versão para fazer um balanço do ano, mas está muito cansado. Seu EU da segunda semana de dezembro em diante, esquece: ali você só encontra o eu melancólico, nostálgico por causa das festas; esse também não é você. Quer dizer, é, mas está mais pra você ator canastra de dramalhão mexicano. Você tem que ouvir o seu eu de agosto, de preferência o do final do mês, sem dinheiro, com o sono atrasado; esse é mais próximo do seu eu de verdade.

Penúltimo domingo do ano, ele esta jogado no sofa, comendo um hambúrguer dos mais “podrão“ pedido no delivery, quase onze da noite. Aparece alguém parecido com ele. Até porque é ele, de janeiro.

— O que é isso?

— Hamburguer, ué.

Vai dar um tapa no lanche, mas o eu do presente é mais rapido, quando é pra defender seus interesses.

— Isso eu sei, mas é o dia do lixo.

— Dia do lixo?

— Um dia que dá pra comer o que quiser.

— Eu não chamo assim. Chamo de dia só. Domingo.

— E a dieta?

— Que dieta?

— A que falou que ia fazer: alimentação mais balanceada, com salada, proteína.

Ele mostra o X-salada.

— Salada e proteína.

— Está indo na academia sempre pelo menos, pra estar comendo isso domingo?

— Defina “sempre”.

— Com frequência.

— Defina “frequência”.

— e a Natação?

— Onde dá pé, sem ondas e levemente aquecida, eu desenrolo.

— Inglês.

— What?

— Não acredito, não fez nada do que eu prometi.

— Você que prometeu.

— Nós.

— Eu não sou você.

— claro que é.

— não sou não.

— é sim, e Eu sou você.

— Sim, lá em janeiro. Não somos mais o mesmo.

— Mas eu estava tão animado.

— Viu? Mais uma prova de que não somos o mesmo.

— O que aconteceu? Eu vi o nosso eu de março, ele estava na pegada, seguindo direitinho a lista de promessas.

— E depois?

— Que depois?

— Não viu o eu de maio?

— Não, como achei que já estava bem encaminhado.

— Pois não estava. Viu como voce não sou eu, se fosse saberia que não da pra confiar nas minhas promessas.

— Por que você fez isso? Era só se manter na linha.

— Pra você é fácil falar, tá lá em janeiro, cheio de esperança, 12 meses pela frente… Vai falar com o eu de agosto pra ver se ele não te bate. Eu mesmo não faço nada porque estou cansado.

Da uma mordida no hambúrguer. O eu de janeiro senta, desanimado, pega uma batata. Pede o hambúrguer.

Os dois estao sentados no sofa, então escutam

— vai aproveitando, porque ano que vem não vai ter isso.

— Quem é você?

— é o eu do janeiro que vem.

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