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VOCÊ ESTA MORTO?

Hoje em dia existe aplicativo para tudo — aliás, se você achar que não tem, pode criar um, pois existe um aplicativo para criar aplicativos. Então você pode criar um app. O céu é o limite, quase que literalmente, já que existe um app para ver quem joga o celular mais alto e consegue pegar de volta, chamado Send Me to Heaven.

Tem app para você que gosta de estourar espinhas, Pimple Popper.

Tem um que é só para ver quem fica mais tempo com o dedo na tela do celular, Hold On.

E tem até um para você que convive com pessoas que não apertam pause para você ir ao banheiro: chama RunPee, onde ele diz qual o melhor momento para ir mijar sem perder cenas importantes.

Se você tiver uma ideia, por mais inútil que seja, e pensar “tinha que ter um app para isso”, pesquisa: provavelmente já existe. Se não existir, cria.

Na China, por exemplo, um dos aplicativos mais baixados é um cuja função é simplesmente perguntar todos os dias se a pessoa está morta. Literalmente.

Ele envia a pergunta: “Você está morto?”, que, aliás, é o nome do aplicativo: Si Le Ma, em chinês — Are You Dead?

O app envia uma notificação perguntando, então quem baixou tem que tocar duas vezes na tela para responder que não está morto, caso não esteja, obviamente. Eles sabem as limitações do usuário. Tanto que a pessoa tem que fazer uma espécie de check-in da vida a cada 48 horas:

“Oi, tudo bem? Sou eu, hein. Só pra avisar que não estou morto… ainda.”

Repare que a pergunta feita não é “Você está vivo?”, “Você está bem?”, “Como estão as coisas por aí?” — é “Você está morto?”.

Todas as outras perguntas abrem espaço para respostas filosóficas e podem ajudar o solitário a se afundar. Quem desenvolveu isso deve ter feito um brainstorm de nomes para chegar nisso.

Só um parêntese: não gosto de usar palavras em inglês tipo feedback, know-how, job, etc., no meio do texto, mas, nesse caso, brainstorm é melhor do que “chuva de ideias”. Só imaginar numa reunião:

— Pessoal, vamos lá, vamos pensar em nomes.

Silêncio. Ninguém fala nada.

— Vamos lá, gente, não precisa ter vergonha, não tem certo ou errado.

Ainda assim ninguém arrisca.

— Gente, é só uma chuva de ideias.

Mas voltando, “Você está vivo?” funciona na questão de saber se a pessoa está respirando, mas pode levar ela a pensar:

“Será que eu estou realmente vivo? O que eu estou fazendo da minha vida? Isso é mesmo viver? Eu não faço nada de útil. Que vida é essa que eu preciso de um aplicativo para perguntar se eu estou vivo?”

E assim ela ter uma crise e acabar se matando. O que talvez até tenha acontecido.

E uma certeza que eu tenho, mesmo não sabendo quem desenvolveu o app: cravo que foi criado por alguém que mora sozinho.

Porque só quem mora sozinho já pensou:

“Nossa, se eu morrer, ninguém vai saber que eu morri. Vai demorar quanto tempo pra perceberem?”

E geralmente pensamos isso quando estamos numa posição idiota: depois de quase cair tentando alcançar o papel higiênico sem levantar a calça.

Ou quando escorregamos pelados indo pegar a toalha que esquecemos de levar para o banho e não tem ninguém pra trazer.

Ou quando levantamos correndo lembrando que tínhamos colocado algo no fogão, tropeçamos na beira do tapete e quase caímos pensando:

“Meu Deus, os ovos que eu coloquei pra cozinhar três horas atrás.”

Esses dias vi uma postagem que ensinava os níveis de cocção dos ovos:

7 minutos depois da fervura — gema mole.

10 minutos — gema cozida, mas macia.

12 minutos — gema dura.

O meu método é: colocar os ovos pra cozinhar, ir fazer alguma coisa e depois lembrar:

“Meu Deus, os ovos.”

Eu já queimei os ovos. Os ovos de galinha, não os meus.

Se bem que, morando sozinho, também poderia acontecer, já que já me peguei cozinhando pelado — que seria outro jeito idiota de morrer: cozinhando pelado e tendo um ataque cardíaco na cozinha.

Então, com certeza, o homem ou a mulher que criou esse app morava sozinho e deve ter pensado:

“E se eu morrer aqui sozinho?”

O detalhe é que, se a pessoa não avisa que não está morta, o aplicativo envia uma mensagem para amigos ou familiares cadastrados, dizendo:

“Venha verificar minha condição física”, ou algo parecido, indicando que algo pode ter acontecido.

Só tem um problema: se eu baixei um app para perguntar se eu estou morto, é porque provavelmente eu não tenho ninguém que se importe comigo a ponto de ir só porque o app avisou.

O aviso que é enviado para o conhecido é algo como:

“Tudo bem? Estou precisando falar com você urgente, mas tem que ser pessoalmente.”

Porque a pessoa pode não ser muito amiga, mas fofoca ninguém deixa passar.

Ela esta jogada no sofa, celular a tira colo, quando de repente começa a tocar, ela se assusta, aquela hora da noite, quando ve quem esta chamando é um amigo da epoca da escola, que nunca mais viu, pensa em não atender, mas a curiosidade é maior. Atende.

— alou. Oi, tudo bem?

— Tudo bem. Quanto tempo, hein.

— Pois é. Desculpa estar ligando essa hora.

— Nada. Aconteceu alguma coisa? Tá precisando de algo?

— Não, nada. Por enquanto tá de boa. É só pra avisar que eu baixei um aplicativo aqui e estou colocando seu contato como número de emergência.

— Oi? Aplicativo?

— Sim, nada demais. Coisa boba.

— Qual aplicativo?

— É um pra saber se eu estou vivo.

Ela dá risada. Ele não.

— Sério?

— Sim. Chama Are You Dead?. Me manda mensagem pra saber se eu estou vivo.

— No caso, morto, né.

— Dá na mesma.

Agora quem dá risada é ele. Ela não.

— Você está bem?

— Estou sim. Respondi isso hoje pro aplicativo, inclusive. Mas obrigado por perguntar.

— Posso saber por que você baixou isso?

— É que eu moro sozinho, não tenho nenhum parente perto, não falo muito com ninguém. Então pode acontecer alguma coisa e ninguém ficar sabendo, né.

— Você está com a saúde em dia?

— Sim, tudo certinho.

— Ah tá… só pra saber.

Silêncio.

— Então tá. Só pra te avisar, tá? Pra não achar que é golpe caso receba a mensagem.

— Mas é assim… você não tem mais ninguém que possa cadastrar aí?

— É que você é a pessoa mais próxima que eu conheço.

— Entendi.

— Acha ruim ser você?

— Não, não, não é isso. É que eu deixo o celular no silencioso.

— Entendi. Mas é assim, é mais porque eles pedem aqui. Não precisa se preocupar. Estou bem de saúde e, outra, se chegar a mensagem é porque eu já morri.

Ele ri. Ela não.

— Então tá bom. Beijo. Boa noite.

Ele desliga.

Ela fica em choque. Bloqueia o celular e deixa de lado, tentando absorver a informação.

Então a tela do celular acende. Ela vê uma mensagem:

“Seu amigo não está bem. Ele pode estar morto agora.”

Ela levanta num pulo.

Então chega outra mensagem:

“Brincadeira. Só pra te testar.”

Ela relaxa e pensa:

“Por isso que está sozinho.”

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