@MarU
há 4 dias
Público
#desafio 285
— Ex-vizinha —
Pequeno conto em forma de carta.
Maio, 20 de 1314.
Olá, vizinho!
Está em casa?
Lembra de mim?
Costumávamos deixar a porta apenas encostada para quando quiséssemos nos visitar, mas eu mudei.
Não tem muito tempo, mas foi tempo o bastante para não saber mais de você. Espero que esteja bem!
Talvez nossa amizade seja daquelas antiquadas, sem ligações ou mensagens curtas de “bom dia!”. Talvez sejamos de cartas longas, falando sobre a vida, dessas que levamos um mês ou mais escrevendo e que, quando postamos, o correio demora para fazer a entrega e, às vezes, até extravia, mas que, ao ler o nome do remetente, recebemos sorrindo e lemos, com o coração acelerado, cada detalhe.
Agora que não estou mais à sua porta, não sei se também está sentindo falta do tempo em que fomos vizinhos e não precisávamos de portas; éramos “de casa”.
Confesso que tenho sentido.
Eu mudei. Não estou assim tão mais longe, mas, por algum motivo, não consegui me desfazer do meu apartamentinho. Ao sair, não pude fechar a porta; deixei apenas encostada, para o caso de sentir minha falta, precisar respirar nos dias que te sufocam. Mesmo sendo um apartamento vazio das coisas, lembranças não faltam em cada cantinho. Sei, pois eu mesma ainda visito usando qualquer desculpa ou motivo. Entro pela porta escura em silêncio, fecho os olhos e respiro…
Por alguns instantes, viajo no tempo. Revivo cada momento bonito; os mais doloridos, coloridos pelo sorriso trazido por você; os frios, aquecidos pelos momentos em que nos deixamos aquecer. Você estava lá comigo, organizando a bagunça que não me deixava ver o que importa.
Este velho apartamento, caindo aos pedaços, me deixou muitas saudades ainda agora…
Nunca te dei as minhas chaves, mas tem uma cópia no capachinho.
Sei que deve estar ocupado, mas, se puder, dê uma passada de vez em quando para ver se está tudo certinho… Agradeço!
Ou…
se for muito difícil e quiser fechar a porta de vez com a chave do capachinho, vou entender. Não ficarei chateada contigo. Será o fechamento de um ciclo, a carta branca para eu vender.
Hoje passei em frente ao seu andar. Fitei o número no elevador, mas não apertei. Não quero te incomodar. Sua vida é muito corrida para receber quem quer que seja sem avisar.
Ia passar esta carta por baixo da sua porta, mas não deixei. Tive receio de encontrá-la fechada.
Deixei a carta na portaria do nosso condomínio. Nela tem o endereço da minha nova casa.
Sinta-se sempre bem-vindo, meu velho amigo. Onde eu estiver, nunca vou te esquecer.
Amo você!
Sua ex-vizinha.
MarU
Comentários (1)
@ellenelowen
· há 3 dias
Essa porta encostada ficou muito viva. Gostei de como o texto não pede resposta, mas deixa uma chave onde a saudade possa encontrar caminho.
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