@rejoverso
há 4 dias
Público
Misantropoesia
Ó, sistema solar funciona assim:
o astro-rei vai expandir no seu fim.
Ao seu redor, corpos celestes
reproduzem seu comportamento ruim.
Aprisiona em sua órbita
tudo que puder,
na gravidade da situação.
Tem planeta que tenta capturar satélite
e também os lança
pra lá de Plutão.
Planeta-anão, planeta-anão,
rebaixado.
Quantas luas Júpiter tem ostentado?
Saturno do lado,
anéis à mostra,
atraindo astros pra crosta.
Tudo girando em torno
da estrela de quinta grandeza,
que tem grandeza imposta,
apenas uma estrela
numa galáxia numerosa.
No vácuo não se propaga o som,
só a velocidade da luz
do brilho de uma massa gasosa.
Meio nebulosa,
pisca em movimento,
o passado parecendo presente
no momento.
Não dá pra mencionar espaço-tempo
sem influenciar nossos pensamentos.
O astronauta é um anti-sistema,
vai de foguete enfrentar o problema:
a marca de uma empresa no emblema
e o erro ortográfico do poema.
O anarquista: futuro lixo espacial,
um macacão com capacete,
dentro, um fóssil animal.
À deriva, boiando no universo,
com a bandeira hipócrita de:
“só faço o verso”.
Mãe Terra sofrendo com guerra,
a política sendo caos
na ordem do inverso.
Urna eletrônica não tem voto impresso,
que é gravidade zero,
vai pra lua.
Entre um eclipse e outro,
o apocalipse flutua.
O plano da Terra plana tem um topo,
adoradores de uma bola de fogo
que também deve estar jogando o jogo.
Tá no lucro
por não perceber que tá no logro.
Nada muda
com a teoria da realidade simulacro.
Há quem queira ver buraco nos negros
e negros no buraco.
No buraco da minhoca,
a cobra falou com o macaco.
Enquanto seres gigantescos
não prometem quaisquer cuidados,
fracos alienígenas
expiram o oxigênio escasso.
Formas de vida
não têm fórmula de vida.
Bora escolher um lado,
uma ideia convencida.
Na distância da palavra,
medida em milênios por segundo,
fabricamos mais trilionários
do que erradicamos a fome no mundo.
Culpamos o menino Ney,
a Copa, a lei.
Não sei como se fez
a lei de que escravizado é vagabundo
na escala um por seis.
Queria um robô chinês
ocupando o cargo de vocês,
parlamentares.
Poder pro povo
que pinta o corpo e usa cocares,
obedecendo títulos
sem questionar pesares.
Esquerda e direita
são direções pros mesmos lugares.
E se o tema é sistema,
crises particulares:
você faz parte do colonizador
que ia ao mar ver a morte
por poder se sentir forte.
O que inveja não ataca:
muita sorte.
Na nave dividida
entre terra e mar,
e a gente na fronteira,
cercando e desenhando bandeira.
Essa é vermelha,
essa tem caveira.
Países são empresas,
presidentes ocupam
a ponta da cadeira.
Exército só existe
porque arma não é brincadeira.
Aí proíbe o civil armado,
mas não o fabricante do luto.
Produzem carros
que chegam a duzentos quilômetros por hora.
Daí lucro com o luto
não tem teto.
Pro excesso,
nem pra escassez.
Misantropoesia:
vou me isolar bem longe de vocês.
Com a roupinha de astronauta,
uma coroa na cabeça,
porque eu sou meu próprio rei.
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