Avatar

@chico-viana-lwd0u

Chico Viana
14 posts 1 seguidores 0 seguindo
Ainda não segue ninguém.
Público
CASO SÉRIO

– Pai, urge que o senhor aumente a minha mesada.
– “Urge”?! O que é isso?
– A professora de redação ensinou que a gente deve dizer “urge”. Tem mais força do que “é preciso”, “é necessário”. Parece, tipo assim, o rugido de uma fera. URRRGEEE!
– Calma, tudo bem. Não precisa me morder. E pra que é que você quer mais dinheiro?
– Vou fazer o Enem, não vou? Preciso ler, me informar. Destarte...
– “Destarte”?
– Sim. Destarte, dessarte... A professora falou que é melhor do que “então”, “logo”, “diante disso”. Ela quer que a gente arrase na prova. E quer, outrossim, um pouco de fama para ela também, claro.
– “Outrossim”?
– O senhor não conhecia?
– Não. Conhecia “outro não”. Era o que eu ouvia de sua mãe toda vez que lhe pedia um beijo. Ela dizia: “Outro não, Valfredo. Por hoje basta.”.
– Ah, pai, o senhor é mesmo ignorante. Não é “outro sim”; é “outrossim”, entendeu?
– Não estou vendo diferença, mas entendi. O contrário, então, deve ser “o mesmo sim”. E não outro!
– Caramba, pai! Achei massa essa história do beijo. Então ela lhe dava um fora... Que sádica! E o senhor, entrementes, o que fazia?
– “Entrementes”? Deixe eu ver... Primeiro preciso saber o que é “entrementes”. É alguma coisa como “escorraçado”?
– Nada a ver. Significa “nesse espaço de tempo”.
– E por que você não falou isso?
– Porque a professora disse que “entrementes” impressiona mais.
– Nesse caso, pode entrementar à vontade. O importante é que você arrase na redação.
– Esse é meu desiderato.
– Como?
– Desiderato, objetivo, pô! Também o senhor não saca nada da língua portuguesa!
– Desculpe, ando meio desatualizado. Embora, aqui pra nós, esses termos que você está usando sejam um tanto serôdios.
– “Ser” o quê?
– Serôdios! Sua professora não mandou você usar essa palavra no lugar de “antigos”? Se ela ainda não fez isso, vai fazer. Com certeza.
– Epa! Nada de “com certeza”. É “indubitavelmente”. E sabe de uma coisa? É mister que eu não converse mais com o senhor.
– “Mister”?!
– Isso mesmo. E não fale mais da minha professora, viu?
Não quero ouvir. Se fizer isso, que seja à sorrelfa.
– “Sorrelfa”!? Essa também veio da professora?
– Negativo. É contribuição minha mesmo. Pesquei no dicionário para fazer uma surpresa a ela.
– “Sorrelfa”... Socorro, Alaíde! Vem cá ouvir teu filho. Alguma coisa muito séria está acontecendo com ele!
Abrir 0 curtidas 0 comentários
Público
A BELA E FERA

Filmes como “King Kong” despertam a criança adormecida em cada um de nós. Retornamos à infância naqueles instantes mágicos em que a tela exibe aventuras impossíveis.
Elas podem ser de bruxos, cavaleiros medievais, seres intergalácticos, monstros pré-históricos, enfim, é extremamente variado o acervo desses entes fabulosos, que nos causam fascínio e medo. Diante deles regredimos à nossa desprotegida inocência e encontramos nisso um tipo especial de prazer.
Esse prazer deriva da catarse, termo com que Aristóteles designa a liberação de tensões mentais. A catarse é uma purificação racional das emoções. Ela ocorre quando constatamos, por exemplo, que estamos imunes aos acontecimentos horríveis que se passam num palco, num livro ou numa tela de cinema. Vivenciamos como espectadores dramas e tragédias, e saímos da experiência incólumes. Aliviados.
O alívio que experimentamos em King Kong vem de um simbolismo mais ou menos óbvio: o gorilão é a porção instintiva de cada um de nós. Vampiros como Drácula ou monstros como Frankenstein, nascido em laboratório, são produtos de cérebros torturados. Refletem um dilema ético.
King Kong não é “construído”, não resulta de nenhuma perversão mental. É pura força da natureza. Seu urro prodigioso é um eco de nossos impulsos ancestrais. Ele não tem bondade nem maldade – tem desejo.
E tem também sensibilidade estética, a ponto de se comover com a loura de beleza angelical que lhe fora oferecida em sacrifício. Ela o seduz com poses e trejeitos engraçados, e o desperta para a beleza do crepúsculo. Tal como ocorre entre homem e mulher, envolve-o num jogo poético de sedução.
O único defeito do filme é o exagero de monstros pré-históricos, como se quisesse fazer concorrência a “Parque dos Dinossauros”. A despeito disso, ele comove e encanta ao contar a velha história do sacrifício por amor. Ou da bela que domina a fera.
Abrir 0 curtidas 0 comentários
Público
A BATERIA

Semana passada a bateria do meu carro pifou. Como eu estava no subsolo de uma agência bancária, tive que ligar para o seguro a fim de solicitar um mecânico. Uns 30 minutos depois o rapaz veio, examinou o artefato avariado e o condenou.
- Aqui só outra.
- E agora? Onde posso mandar buscar uma?
- O senhor liga para a loja Tal - e me passou o telefone. Quando eu lhe pedi uma sugestão de marca, ele me perguntou se eu pretendia vender o carro.
- Não. Por quê?
- Se for vender compre esta, que é mais barata (e me indicou o nome). Agora, se for ficar com o carro por mais um tempo, leve esta (citou outro nome). É um pouco cara, porém bem mais econômica e difícil de quebrar. Duvido que deixe o senhor no prego.
Escolhi a segunda, pois não pretendia tão cedo vender o automóvel. Bateria instalada, voltei para casa pensando na alternativa que o mecânico tinha me apresentado. A escolha fora fácil pois, como disse, o carro ainda iria ficar comigo por um bom tempo. Mas... e se eu fosse me desfazer dele? Qual das marcas teria escolhido?
Comecei a pensar nisso e senti um arrepio. A pergunta do rapaz tinha implicações profundas; envolvia um dilema moral. Pensei em Kant, que fundamenta sua ética na máxima: “Não faças a outrem o que não queres que te façam.” Se eu escolhesse a bateria mais barata e dispendiosa, que além disso podia quebrar, estaria fazendo a outrem (o eventual comprador do meu carro) o que não queria que me fizessem.
O curioso foi a maneira objetiva, prática, direta, com que o mecânico me fizera a pergunta. Não havia hesitação nem escrúpulo, como se a proposta fosse muito natural. Ele sempre devia apresentar essa opção aos clientes. Alguns até lhe dariam uma gorjeta pela dica, mesmo que isso reduzisse a vantagem obtida com a escolha do produto ruim. O importante era o pequeno lucro imediato, acrescido do indizível prazer de enganar o outro. Pois esse tipo de escolha não vale só pelo dinheiro; vale também (ou sobretudo) pela sensação de ter sido esperto.
Já chegando em casa, me dei conta de que a sugestão do rapaz diz muito de nós. No trabalho, no comércio, na política e mesmo nas relações interpessoais, nos comportamos como o sujeito que passa a bateria ruim sem considerar o que isso pode trazer para o outro.
Tudo fica ótimo até o momento em que somos nós esse outro. E quando nosso carro quebra no meio de uma viagem noturna e ficamos com a família ao relento, protestamos contra o egoísmo do ser humano e lamentamos pertencer a espécie tão mesquinha. Esquecemo-nos de que dela fazemos parte e não raro somos nós a protagonizar a trapaça.
Talvez seja por isso que este carrão chamado Brasil não anda - ou anda muito desigual. Falta em sua “bateria” a corrente do interesse pelo bem comum. Somos antikantianos por atavismo e convicção, fazendo sempre que possível aos outros o que nunca desejamos para nós.
Abrir 0 curtidas 0 comentários
Público
O COLECIONADOR DE PALAVRAS

O hábito começou muito cedo. Dizia papá e mamã com um prazer especial em jogar com as sílabas. Pa... pá, mã... mã – os sons iam e voltavam até que ele os guardava para depois, quando quisesse, brincar de novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas (bu... bu, pi... pi, ta... ta). Um dia teve febre e ouviu dodói; enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a união lhe parecia perfeita, como em croque (sentia o atrito de um fonema no outro), bafo (a palavra terminava num sopro) ou empecilho (pronunciar essa foi um obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram como estranhos. Erisipela, por exemplo. Ficaria bem para designar um metal precioso (“Usava um colar de erisipela legítima”), mas não para indicar uma doença. O mesmo se diga de faniquito, que mais parecia nome de passarinho (“Na manhã ensolarada, faniquitos em bando cortavam o azul do céu”). Teve pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não combinava em nada com as ulcerações que havia em suas pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas, assim como há pessoas lindas com uma alma escura, e outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso. O mais das vezes – foi aprendendo – o nome era uma falsa aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir as palavras conforme a semelhança que tinham com os objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, sanfona, crocodilo, miosótis, turmalina (se bem que essa mais parecesse nome de mulher) – e do outro presidente, cadeira, promotor, recurso (palavras que não excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do baú. Uma das primeiras que jogou fora foi jucundo, cuja hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste, mas significava alegre). Trocou jucundo por meditabundo, palavra mais honesta e de acordo com seu atual estado de espírito. Jogou fora também vagar, flanar, leviano, e por pouco não se livrava de paciente (prudência, que entrou no lugar, parece que o aconselhou a esperar mais um tempo).
A coleção agora tinha pouquíssimos termos, mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar, morria). Um dos novos termos foi achaque, que vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação poética). Outro foi próstata, que lhe pareceu o som de uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi tumor, que ele sem graça botou no lugar de humor.
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e nada encontraram em seu interior. “Ele era meio tantã”, comentou a mulher. “Passava horas diante desse baú vazio.”
Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
Abrir 0 curtidas 0 comentários