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glaucojsfreitas 20/1/2026
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glaucojsfreitas 19/1/2026
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glaucojsfreitas 18/1/2026
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PIZZA PARTE 1/4
Fazia 25 anos que Mary tinha sua pizzaria no mesmo local. Começou como um mero balcão, um cooler de praia com gelo para guardar os refrigerantes, com um forno a gás escondido por uma parede e uma janelinha, e hoje – após comprar a loja ao lado –, era um lugar de respeito, com mesas disputadas no local, forno a lenha, garçons, motoboys próprios e geladeiras carregadas de bebidas.
O negócio cresceu naquele tempo. E não só o negócio, mas o próprio Mary viu sua família crescer naquele lugar. Afinal, sua casa sempre foi no andar de cima – antes alugada, e mais tarde, adquirida –: seus filhos cresceram naquele lugar, aprendendo matemática fechando as contas dos clientes, ajudando o pai a montar as pizzas, abrir as massas e desenvolver novos sabores. Foram eles, inclusive, que lhe deram a dica do catupiry quando o ingrediente ainda não era básico de qualquer pizzaria, e mais tarde, da mesma maneira, com o cheddar.
Naqueles 25 anos, Mary sempre montava as pizzas com o mesmo carinho e devoção à comida como sempre fazia. Um dos pedidos daquela noite, porém, o deixou pensativo. Desconcertado, até.
“Mandar a pizza sem cortar”.
Mary, ficou parado, olhando o pedido, ou melhor, aquela pequena observação no pedido que veio através do aplicativo de entregas. “Mandar a pizza sem cortar”?? Será que tinha feito burrada num pedido anterior, cortado a pizza de forma grotesca e a pessoa queria evitar o incômodo? Se fosse isso, ao menos, era bom sinal a pessoa ter pedido de novo, afinal, tinha se incomodado com o modo com que a pizza tinha sido cortado, mas tinha gostado tanto, que mesmo assim, pediu de novo.
Não era. No pedido estava escrito “Primeiro pedido”. O aplicativo vermelho avisava esse tipo de coisa ao restaurante.
“Mandar a pizza sem cortar”. Bom, ao menos, então, era sinal que a culpa não era sua, não é? O cliente nunca tinha pedido pizza dali! Mas, então, por que pediria para a pizza ir inteira? Todo mundo sabe que pizza se come em fatias...
Ah, claro! Talvez quisesse a pizza “no palito”, como faziam vários dos clientes que iam até a Mary Pizzaria em bastante gente: a pizza cortada em quadradinhos para que todos pegassem no palito de dentes e... Mas se fosse o caso, o cliente pediria a pizza ainda mais cortada, não o contrário!
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PIZZA PARTE 2/4
Por falar nisso, a maioria dos clientes que vinham na Mary Pizzaria, achavam que Mary era a senhora atrás do balcão, que comandava o salão e a entrada dos pedidos, mas essa era a Tereza, esposa do Seu Mary, o pizzaiolo. E dos poucos clientes que sabiam que Mary era o bigodudo suando na frente do forno a lenha, quase ninguém sabia o nome real de Seu Mary: Arnaldo.
Sim, não havia qualquer semelhança lógica entre Arnaldo e Mary, mas apelidos são coisas vivas, mutáveis, muitas vezes seguindo uma natureza própria, que escapa a lógica.
O primeiro apelido de Mary, por exemplo, veio devido ao fato de ser bastante gordo na adolescência, ao que os outros meninos o apelidaram de Gelatina de Banha. Claro que ele não gostou, e é óbvio que esse foi o exato motivo de o apelido ter “pegado”. Mas como o idioma é uma coisa preguiçosa, logo Gelatina de Banha se tornou, apenas, Gelatina. Com o passar do tempo, então, Gelatina se tornou Tina. Mais tarde, um desgraçado o chamou de Tina Turner e arrancou risada de todo mundo e, num dia especialmente inspirado – e um pouco alcoolizado – o mesmo desgraçado o chamou de Proud Mary. Não demorou para Proud Mary se resumir a Mary e, como já estavam no fim da adolescência, nunca mais houve um motivo para o apelido de Arnaldo deixar de ser Mary.
Mary que, naquele momento, colocava a pizza forno adentro. Tinha levado o dobro do tempo para montar aquela, afinal, estava distraído com aquela bobagem da pizza não cortada. Era algo tão insignificante que o fazia se sentir um idiota, mas... “Meu Deus, por que caralhos alguém pediria uma pizza sem cortar??”. Será que a pessoa daria a pizza pro cachorro comer?? Não, não podia ser. Ou, ao menos, esperava que não, afinal, a pessoa pediu cebola extra na pizza de portuguesa e cebola fazia muito mal pros cachorros.
“Será que... Será que era isso-...?! A pessoa podia estar querendo matar um cachorro... Talvez o do vizinho...” Deu risada daquela ideia: era algo absurdo demais pra ser verdade. Mas se ele conseguia pensar naquilo, talvez mais alguém também conseguisse e-... Não, era mais provável que a pessoa fosse quisesse apenas, sei lá, dobrar a pizza comer como um sanduíche-... Mas eram 12 fatias, ou melhor, era uma pizza cujo tamanho correspondia a 12 fatias, mas que iria inteira porque a pessoa queria qUE MANDASSE SEM CORTAR! QUE ABSURDO!
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PIZZA PARTE 3/4
Tirou a pizza de dentro do forno e a colocou na caixa, admirando o próprio trabalho! O presunto da portuguesa levemente queimado, os quatro queijos levemente gratinados, o bacon levemente tostado contrastando com o amarelo do milho...
Não. Não mandaria uma pizza sem cortar! Que coisa idiota!
Apanhou o cortador e apontou a lâmina circular para a pizza... E paralisou.
A pessoa está pagando, tem o direito de pedir que a pizza vá da forma que quiser...
Vacilou. Recuou a lâmina circular.
Então... Então... Era isso! Ele mesmo levaria a pizza!
Pegou a pizza, pegou o refrigerante dois litros que o cliente havia pedido, atravessou o salão, ignorando os chamados de Tereza, foi até um dos motoboys e pediu para usar sua moto. “Eu te pago a corrida do mesmo jeito”, disse, e o rapaz apenas deu de ombros e lhe entregou o capacete.
Em dez minutos, estava no endereço de entrega: era uma casa bonita, não do tipo que dizia que quem a habitava era especialmente rico, mas bem cuidada, com grama cortada e paredes sem manchas. Desceu da moto e percebeu que havia silêncio na rua: nenhum cachorro de vizinho latindo. Aquilo foi um alívio. Foi até a campainha e tocou. Viu a cortina se mover brevemente e logo a porta da frente se abriu: uma menina, talvez de uns 14 ou 15 anos veio correndo, animada em ver a pizza nas mãos de Mary.
Ela o cumprimentou e Mary, ainda perdido nos devaneios que tentavam arranjar alguma explicação para a observação no pedido, apenas gemeu sua resposta. A menina abriu o portão e Mary hesitou: seu plano era perguntar, interrogar até, mas...
Viu a cortina se abrir de novo e alguém assistir a cena lá de dentro. Era óbvio que aquela cena pareceria estranha: um velho parado no portão, olhando igual idiota para uma menina. Apressou-se em entregar a pizza e voltou para a moto. Tudo aquilo para nada! Nada! Foi até ali e não teve coragem de fazer uma simples pergunta... Mas também, como podia fazer uma pergunta tão ridícula? O que ele tinha a ver com aquilo, se o cliente queria a pizza sem cortar ou não? Mas... Não conseguia não remoer aquela curiosidade.
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PIZZA PARTE 4/4
Ligou a moto e saiu dali. Nunca saberia o motivo daquilo. Não a menos que fizessem um novo pedido na loja, mas, depois daquela cena esquisita, duvidava que alguém em sã consciência correria o risco novamente...
Chegando na pizzaria, Tereza o barrou na porta, dizendo que o cliente havia ligado para reclamar do motoboy esquisito. Mary riu, derrotado, e contou a história à Tereza, que apenas lhe disse para largar mão de ser bobo e correr para a forno porque já tinham cinco pedidos atrasados.
Ao mesmo tempo, na casa, a família comia sua pizza em paz. Pizza cortada pela empolgada menina que quis apenas estrear o cortador de pizza das Tartarugas Ninja comprado mais cedo e que tinha se quebrado no primeiro uso.
A família pediria pizza mais alguns milhares de vezes, mas nunca mais pediria para a pizza não vir cortada, e nunca mais da Mary Pizza.
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