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Publicações de pessoas, em ordem cronológica
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@wilcipolli há 5 meses
Público
Museu do amanhã O idoso paginou seu jornal com dedos nervosos. Era um gesto necessário, calculado. Não que houvesse acabado as páginas anteriores; foi meramente para disfarçar sua espionagem. De longe, seus olhos fitavam, por cima dos óculos, um menino que esperneava no chão da praça, pois sua mãe lhe negara um balão do carrinho de pipoca. Era compreensível que, aos três anos de idade, sua mentalidade ainda não aceitasse bem negações. Seu olhar não carregava julgamentos, apenas curiosidade. Curiosidade de quem se senta no mesmo banco, naquela mesma praça, cotidianamente, e acaba entediado caso não haja o que ver além do próprio jornal. Vez ou outra, o coreto recebia visitas de artistas locais. Uma sombra do que já fora em outros tempos. Ah, que tempos. Quando a praça central era, de fato, o centro das atenções. Durante o dia, pais e mães levavam seus filhos para brincar. Quase todos na cidade frequentavam a igreja, que, em dias de missa, reunia toda a comunidade, e, após as orações, davam voltinhas na praça, a fumar, beber ou comer uma maçã doce. Mesmo nas noites sem missa, a praça enchia-se de rapazes e moças a se paquerarem, principalmente aos domingos, quando a banda da cidade tocava, sem faltar, pois era, unanimemente, o evento mais aguardado da semana. E, assim como coração de mãe, na praça parecia sempre caber mais um, por mais que já se vissem multidões. No entanto, em algum momento, o centro das atenções se dividiu: um pub famoso aqui, uma avenida badalada ali, um parque melhor noutra praça para os pequenos. E, por fim, o coreto tornou-se um símbolo — simbólico. O idoso era o coreto, e o coreto era o idoso. Via-se em cada tijolo de outro tempo, em cada pedaço de tinta já desgastada pela idade. Talvez esquecido… certamente esquecido, mas ainda respeitado e lembrado. E cada transeunte — adolescentes com seus celulares, crianças com suas birras, pais que agora preferiam os pubs à praça — evidenciava o contraste temporal que ali residia: um idoso e seu coreto, visitados por contemporâneos que já habitavam outra era. Então ele não observava as pessoas por curiosidade. Observava-as como quem percorre um museu. Não para ver o novo, mas para recordar o que já foi seu, agora em outra perspectiva.
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@eduliguori há 5 meses
Público
Um silêncio absurdo me atinge, aquele ensurdecedor adeus. Reconstruir parece impossível, mas não será, porque sempre existe uma nova chance. Tudo é novo nestes tempos, me enganei achando que seria fácil, é muito difícil. Andei por aí e nada vi, as ruas ainda estão escuras, desertas. Mas pelo menos sinto o coração vazio e não partido, o que seria bem pior. A poesia está mais rara, me alimento de música, minha atual companheira. Mas as palavras não me deixam, continuo exposto, necessitando gritar. Quem lê acaba identificando momentos comuns, porque no fim somos todos iguais. E sendo tão parecidos, reside aí minha esperança. Com uma probabilidade relativamente alta, existe alguém procurando algo que eu possa oferecer. E esse alguém tem em estoque o pão que necessito. Por entre as linhas que rabisco enquanto ouço Caetano, Djavan e Chico cantarem o amor, me isento de uma louca insanidade como a que vivi a pouco. Preferiria se tivesse a oportunidade de escolher uma nova amizade, que tal qual um botão de flor, fosse desabrochando com o sol. Mas, quem sou eu para escolher? Quem será que vai chegar? Já está por perto e só não enxergo? Ou ainda é uma viajante distante a se perder em meu caminho? Risível é a vontade de entender os nossos desígnios, nunca saberemos ao certo. Mas no silêncio que me atinge, ouço algo bater baixinho... Um sinal de que claramente ainda há tempo e se há tempo, tenho fé. Edu Liguori
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@wilcipolli há 5 meses
Público
Fruta-do-dragão Já aviso de antemão: isto não é um texto informativo. Já sou crescido, posso até lhe ensinar algo aqui ou acolá, e ainda assim sigo sendo surpreendido por banalidades — o que, convenhamos, é uma forma elegante de dizer que o mundo continua me enganando. Ultimamente tenho ficado ansioso com uma questão simples: qual será a nova fruta da vez? Porque isso existe. Não me diga que não. Vinte anos atrás, no interior de São Paulo, ninguém saberia explicar o que diabo era um açaí — e, se soubesse, certamente não teria provado. Bastaram três ou quatro míseros anos e — bum! — açaiteria brotando pelos bueiros. De repente, todo mundo sempre gostou, sempre tomou, sempre soube. Passei a infância inteira sem sequer desconfiar da existência de um creme roxo, doce e gelado que hoje vendem como se fosse patrimônio da humanidade. Não me entra na cabeça. Como é que uma coisa dessas simplesmente… aparece? Tudo bem, há quem não goste. Dizem que tem gosto de terra. Respeito, mas discordo. O que não consigo respeitar são aqueles que defendem aquela frutinha amarela, azeda e francamente desnecessária chamada physalis — tão insossa quanto o próprio nome. Passei anos gloriosos da minha vida sem saber que aquilo existia, e sinceramente não vejo o que ganhei ao descobrir. Mas eis o ponto: se tem quem goste — e aparentemente tem — por que só foram me apresentar isso depois dos meus quinze anos? Onde estavam essas frutas antes? Quem decide o momento exato em que elas entram em circulação? Existe um calendário secreto da agricultura? Um comitê, talvez, que se reúne de tempos em tempos e resolve: “agora é essa aqui”? Gosto de pensar que sim. Que há um roteiro sendo seguido. Que a cada década lançam uma novidade, como episódio de série, só para manter a gente entretido. Se for esse o caso, preciso admitir: o episódio mais recente me agradou. A tal da fruta-do-dragão — que, convenhamos, já começa ganhando pelo nome — é dessas que não pedem licença. Chega chamando atenção, cor viva, aparência quase exagerada, quase artificial. E não é que entrega? Doce na medida, suculenta, textura que desmancha. Um escândalo discreto. Dessas que você experimenta e imediatamente pensa: onde você estava esse tempo todo? E lá vou eu de novo, com a mesma sensação incômoda: vivi dois terços da vida sem isso aqui. Dois terços. Tempo suficiente para formar caráter, opinião, até arrependimento — mas não para conhecer uma fruta que claramente merecia ter participado de tudo isso. Recentemente descobri que o caju, por exemplo, apesar de ser nosso, virou celebridade lá fora. Vietnã, Índia — potências na produção da castanha. Faz sentido: o fruto é delicado, não aguenta desaforo, estraga fácil. O mundo acabou ficando com a versão seca, domesticada, exportável. O caju de verdade, aquele que mela a mão e mancha a roupa, ficou restrito a quem pode alcançá-lo antes que apodreça. Talvez seja sempre assim. Em algum lugar — no Japão, por exemplo — alguém ainda não faz ideia do que seja um caju. Talvez, daqui a alguns anos, surja por lá uma estufa quente o suficiente, seca o bastante, eficiente como tudo que eles fazem. E então, de repente, alguém vai provar pela primeira vez. E vai se perguntar: onde isso esteve esse tempo todo?
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@purapoesia há 5 meses
Público
Oba, Lá Vem Ele O clichê não existe por acaso. Ele existe pois há uma necessidade de sua existência. O clichê se repete porque todos nós temos uma ânsia em vê-lo outra vez, nós rogamos para que aconteça. Então ele surge novamente como um alívio, uma doce previsibilidade ante as incertezas do momento seguinte. Ter tudo sobre controle é uma tara universal, um ópio, uma permissão para nos desmanchar. Quem não gostaria de viver sem ter pelo menos uma mínima coisa nas rédeas? Sonha-se com um cargo no serviço público pois a remuneração e estabilidade são garantidos. Devaneia-se com a casa própria para não estar vulnerável à discricionariedade do aluguel imposto pelo senhorio. Bebês e crianças que têm à sua disposição uma rotina consistente dormem melhor, aprendem melhor e regulam mais eficientemente as suas emoções. A rotina e os clichês não são os vilões, são amparo. O sistema e a sociedade condenam os clichês e a sua subespécie, a rotina. Para o sistema, é estar estagnado, é sinal de fracasso. Repetir uma fórmula um sem-fim de vezes parece quase um crime nesse mundo onde vivemos. No entanto, pouco se fala dos benefícios de adotar uma zona de conforto. Um filme, um livro ou uma série clichê é o porto seguro de muita gente. Reside em nós toda vida uma música que gostamos de repetir. Em um momento de vulnerabilidade é deveras importante recorrer à zona de conforto, é quase como se fosse colo e seio de mãe. Deixo aqui minha saudação e o apreço aos clichês. Dê flores no Dia dos Namorados. Comemore o aniversário do mesmo jeito de sempre. Assista outra vez aquele filme que você sabe de cor. Leia novamente aquele livro que você já decorou de cabo a rabo. Puxe a cadeira para outra pessoa sentar. Abra a porta para uma pessoa passar. Clichê é repleto de gentilezas. A gente repete tudo o que é bom. Fazemos isso talvez na caça impossível de sentir o gosto intenso da primeira vez. Não será a mesma coisa e abro protesto sempre sobre isso. No entanto, se desse sempre para repetir a primeira vez, ela nem de longe teria a valia e a importância que hoje a damos. Sendo assim, vamos nos contentar com o copo d’água, ainda que não seja aquele oceano. Vamos nos contentar com a flor seca dentro do livro, mesmo não sendo colorida e viva como na floração da árvore. Vamos nos contentar com pouco, mas sempre sonhando com muito. É isto, é o clichê um açúcar, que pomos no amargor diário. Um fração de uma experiência que nos mudou de tal forma que insistimos em repeti-la. Uma fatia do bolo. Mas não é pouca coisa, nunca será. O clichê importa.
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@autorpedrobarretho há 5 meses
Público
Bom dia, Me arrisquei em pequeno poema: "O GAÚCHO Quem eu sou? Alguns dizem que sou herói Outros falam que sou vilão Sou os braços que no pampa trabalha e constrói Sou na estância o peão Pois aonde me vou? Quem eu sou? Sou filho do vento minuano Sou negro, europeu e charrua Sou filho de todos e coisa nenhuma Sou pelo duro, sou pampeano Sou mestiço de fala quíchua Sou liberdade, sou paz, sou celeuma Pois gaúcho, é que eu sou!"
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@wilcipolli há 5 meses
Público
COPACABANA! Um homem, durante uma viagem, entrou no banheiro de uma rodoviária. Enquanto usava o mictório, outro homem — que era cego — ocupou o espaço ao lado. Num instante de indiscrição, o primeiro percebeu um detalhe físico do desconhecido e, surpreso, comentou: — Rapaz… você faz sucesso, hein? O cego, curioso, perguntou “como assim?”. O outro, com ares de quem entendia do assunto, disse que, com aquilo, ele não teria dificuldade alguma com mulheres. Chegou até a sugerir: — Faz o seguinte: pega um ônibus, vai pra praia de Copacabana, fica tranquilo por lá de sunga… e deixa a vida acontecer. O cego, levando o conselho a sério, seguiu viagem. Mas, sem muita noção da diferença entre os lugares, acabou indo parar em outra praia. Não demorou muito, uma mulher se interessou por ele e o convidou para subir até seu apartamento. O clima foi se aproximando, mas, de repente, ela entrou em pânico: — Meu Deus, meu marido chegou! Rapidamente, pediu que o cego apenas concordasse com qualquer explicação que ela desse. Quando o marido entrou, estranhou a presença do desconhecido. A mulher se apressou: — Ele estava na rua pedindo ajuda… fiquei com dó e trouxe pra comer alguma coisa. Ela foi até a cozinha, deixando os dois sozinhos na sala. Nesse momento, o marido se aproximou, puxou o cego de lado e disse, em tom baixo: — Ceguinho filho da mãe… eu falei COPACABANA. Não Leblon.
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@wilcipolli há 5 meses
Público
Madrugada Ao longe, enquanto repouso em minha cama, ouço carros e caminhões na pista. O som do arrasto na lataria aerodinamicamente imperfeita ecoa por toda a periferia. Minha mente se lança a cada cabeça pensante que pilota seu veículo — vindo de um lugar, indo a outro — seguindo uma infinidade de destinos distintos. Insônia. Aquela sensação de estar ouvindo algo que já não deveria. Meus olhos clamam pela junção das pálpebras, enquanto estas se recusam ao contato, sustentando uma espécie de amor platônico: desejam, quase cedem, mas resistem ao próprio abraço. Como se amassem mais a ânsia do encontro do que o tédio da posse. Por que não um café? Por que não um cigarro? Nada melhor do que uma pequena autodestruição para tornar prazerosa a ruína iminente. Não fumo mais. O café exigiria preparo. E, ao passo que meus olhos mal querem olhar, quem dirá minhas pernas andarem ou minhas mãos se moverem. Prefiro este estado. Um confortável limbo filosófico. Fico à janela, observando ao longe o vento açoitar os bambuzais, que esvoaçam como cabelos num contraste entre a penumbra e o céu iluminado por uma lua minguante exageradamente brilhante. Ah. Agora percebo: este cenário está nos meus sonhos. Talvez eu já esteja dormindo — ou quase.