Capítulo 2 - O Primeiro Beijo Contado
No sábado seguinte, Clara saiu de casa com a câmera pendurada no pescoço e uma culpa pequena dentro da bolsa.
Renato estava na cozinha, de camiseta velha, tentando desentupir o bico da garrafa de azeite com um palito. A mesa tinha duas xícaras, um prato com pão francês cortado torto e a manteiga aberta. Ele gostava de acordar antes dela aos sábados, embora sempre chamasse isso de acaso.
— Seu curso é que horas?
— Duas.
— Ainda são onze.
— Eu sei.
— Você vai chegar três horas antes para disputar cadeira?
Clara abriu a geladeira e fingiu procurar alguma coisa. Não queria sair cedo demais. Queria. As duas vontades estavam ali, uma empurrando a outra.
— Vou passar na papelaria. O professor pediu um caderno sem pauta.
— Caderno sem pauta é só um monte de folha convencida.
— Você fala isso porque tem medo da arte.
Renato conseguiu liberar o azeite. Uma gota caiu no pão dele, depois outra grande demais. Ele olhou para o estrago com seriedade.
— A arte está no meu café da manhã.
Clara riu. Riu de verdade, e isso a irritou depois, porque facilitava tudo. Renato era fácil de amar nessas horas. O cabelo amassado, o palito na mão, o cuidado de não perguntar por que ela tinha acordado tantas vezes durante a noite. O celular dela ficara na cômoda até de manhã. Quando o alarme tocou, Renato foi quem levantou para pegar.
— Tava longe — ele disse, entregando.
Ela respondeu alguma coisa sobre esquecimento. Ele aceitou. Ou fingiu aceitar.
Agora, na cozinha, ele partiu o pão e colocou metade no prato dela.
— Quer que eu te leve?
— Não precisa.
— Eu estou oferecendo carona, não rim.
— Vou de ônibus. Quero fotografar umas coisas no caminho.
— Coisas tipo postes tristes?
— Exatamente. Postes tristes são subestimados.
Renato sorriu, mas olhou para ela por tempo demais. Clara sentiu a pergunta que ele não fez. A pergunta tinha a forma do celular longe da cama, da bolsa no banheiro, da tela virada no restaurante. Ela passou manteiga no pão com força, rasgando o miolo.
— O que foi?
— Nada.
— Esse seu nada veio com legenda.
Ele largou o palito na pia.
— É só que você ficou estranha esses dias.
Clara manteve os olhos no pão.
— Estou ansiosa com o curso.
— Ansiosa boa ou ansiosa ruim?
— As duas.
Renato aceitou a resposta com um aceno pequeno. Era o tipo de aceitação que não encerrava nada, só guardava a conversa para depois.
Ela saiu ao meio-dia e quarenta, cedo demais para a papelaria, tarde demais para chamar aquilo de fuga. No ônibus, ficou de pé perto da porta do meio, com a câmera batendo de leve contra o quadril a cada freada. A cidade passava molhada, embora não chovesse. As árvores da avenida ainda pingavam a água da madrugada. Clara tentou fotografar um muro verde com uma rachadura em forma de mapa, mas a janela suja tornou tudo opaco.
Na papelaria, comprou o caderno sem pauta. Comprou também uma caneta preta, uma borracha que não precisava e clips coloridos que jamais usaria. Depois ficou parada diante da prateleira de envelopes. O celular vibrou dentro da bolsa.
Davi.
Ela já sabia antes de olhar. Talvez porque ninguém mais estivesse silenciado daquele jeito. Talvez porque a expectativa ocupasse o mesmo lugar da culpa.
“Vou chegar mais cedo. Café antes da aula?”
Clara ficou parada entre os envelopes pardos e as caixas de etiqueta. Uma atendente passou atrás dela carregando rolos de papel presente. O ar cheirava a plástico novo, cola e chão limpo com produto doce.
Ela podia dizer que não. Podia responder que Renato a esperava depois, que chegaria em cima da hora, que tinha esquecido alguma coisa em casa. Podia simplesmente não responder.
Digitou: “Estou na papelaria.”
Davi respondeu rápido.
“A da esquina? Estou perto.”
Clara olhou para a rua pela vitrine. Do outro lado, um carro espirrou água da sarjeta numa poça rasa. Ela viu o próprio reflexo sobre as mochilas penduradas: cabelo preso, boca sem batom, câmera no pescoço, uma mulher comum comprando coisas comuns e esperando que alguém atravessasse a rua por causa dela.
“Cinco minutos”, escreveu.
Pagou os clips junto com o caderno, embora já tivesse se arrependido deles. Quando saiu, Davi estava encostado no poste em frente ao café pequeno ao lado da papelaria. Usava camisa azul, mangas dobradas, a câmera antiga pendurada no peito. Não era bonito de um jeito evidente. Tinha um rosto atento, e isso era pior.
— Você comprou o caderno sem pauta? — ele perguntou.
— Comprei. Estou tentando parecer obediente.
— Não combina muito.
— Você me conhece há duas aulas.
— Tempo suficiente para perceber sua relação agressiva com instruções.
Clara sorriu antes de decidir se queria sorrir. Entraram no café. As mesas eram apertadas, com tampo de fórmica branca e pés cromados. Uma máquina fazia barulho no balcão, soltando vapor entre xícaras empilhadas. Clara pediu café coado. Davi pediu expresso. Ele falou da foto do portão, mostrou no visor da câmera, explicou que tinha revelado uma versão em preto e branco por curiosidade.
— Você deixou melhor do que era — Clara disse.
— Você que mandou chegar perto.
— Eu não mandei. Sugeri.
— Sugestão com autoridade.
Ela mexeu o café sem açúcar. A colher bateu na borda da xícara três vezes. Clara pensou em Renato na cozinha, no pão rasgado, no olhar dele perguntando sem perguntar. Pensou em mandar uma mensagem dizendo que já estava na aula. Em vez disso, deixou o celular dentro da bolsa.
Davi não tocou nela. Isso parecia educado e, ao mesmo tempo, uma espécie de espera. Eles falaram do curso, de fotos ruins, de como certas pessoas usavam palavras grandes para esconder imagens vazias. Clara riu baixo. Quando percebeu, estava contando a ele sobre uma câmera descartável que teve aos quinze anos e sobre a vez em que fotografou todos os azulejos da casa da avó porque achava que cada trinca parecia um desenho.
— Você sempre gostou de reparar em coisa quebrada? — ele perguntou.
Clara olhou para a xícara.
— Acho que sim.
— Faz sentido.
— Isso foi elogio ou diagnóstico?
— Foi uma frase tentando virar elogio e falhando no caminho.
Ela riu de novo. O relógio sobre o balcão marcava uma e cinquenta. A aula começaria em dez minutos. Eles saíram juntos. A porta do café bateu atrás deles com um sino curto. Na calçada, Davi apontou para o estacionamento lateral do prédio do curso.
— Vou deixar a câmera no carro. Ela está com um problema na trava.
— A câmera antiga?
— Ela mesma. Temperamental.
Clara podia ter dito que encontrava com ele lá em cima. Era a frase certa. A frase pronta. A frase que teria deixado a tarde no tamanho que ela ainda podia explicar. Em vez disso, acompanhou Davi pela entrada estreita do estacionamento.
O lugar tinha cheiro de cimento úmido e gasolina velha. A luz entrava fraca pelas aberturas altas da parede. Havia poucos carros, todos parados com a docilidade suspeita das coisas sem testemunha. Davi abriu a porta do hatch cinza e colocou a câmera no banco do passageiro. Clara ficou a dois passos dele, segurando o caderno contra o peito.
— Pronto — ele disse.
Mas não fechou a porta.
Os dois ficaram quietos. De cima vinha o ruído distante da rua, uma buzina, alguém arrastando um móvel pelo chão. Clara sentiu o coração bater no pescoço. Não havia surpresa. O que havia era a confirmação de uma cena que ela já tinha ensaiado sem admitir, desde a mensagem na papelaria, talvez desde o banheiro do restaurante, talvez desde o primeiro momento em que gostou de ser olhada por ele.
— A gente devia subir — ela disse.
— Devia.
Davi fechou a porta do carro devagar. O clique pareceu alto demais. Clara segurou o caderno com mais força.
— Eu sou casada.
— Eu sei.
A resposta dele não trouxe alívio. Se ele dissesse que tinha esquecido, que não parecia, que desculpa, ela poderia sair ofendida. Mas ele sabia. E ela também. A verdade ficou entre os dois, disponível, insuficiente.
— Então não faz isso — Clara disse.
— Eu não estou fazendo.
Era quase honesto. Ele não tinha dado o passo. Quem deu foi ela, pequeno, ridículo, impossível de negar depois. Davi levantou a mão devagar e parou perto do rosto dela, sem tocar. Clara poderia ter recuado. Não recuou.
O beijo começou sem pressa e sem violência. Foi isso que a assustou. Não havia desculpa de susto, de empurrão, de confusão. Havia a boca de Davi, o cheiro de café, a mão dele enfim tocando a lateral do pescoço dela. Clara fechou os olhos por um instante curto demais para virar entrega e longo demais para continuar sendo erro.
Clara se afastou primeiro. A palavra certa ainda não tinha voltado; voltou só o susto de perceber que queria demorar mais.
— Não — ela disse.
Davi baixou a mão.
— Desculpa.
— Não pede desculpa como se tivesse sido só você.
Ele respirou fundo, olhou para a porta do estacionamento, depois para ela.
— Clara.
— Não fala meu nome.
Ela passou a mão na boca. O gesto pareceu infantil, inútil. Pegou o caderno que tinha escorregado para debaixo do braço e saiu antes que a próxima frase criasse outro lugar para ficar. Subiu as escadas do prédio sem esperar elevador. No corredor da sala, cumprimentou duas pessoas com a cabeça. Sentou no fundo. O professor falou sobre sombra dura e sombra suave. Clara anotou três palavras sem sentido no caderno novo.
Davi entrou cinco minutos depois e sentou do outro lado da sala.
Durante duas horas, Clara não olhou para ele. Ou olhou apenas o bastante para saber onde ele estava. Na dinâmica final, o professor pediu que todos fotografassem um objeto banal de modo íntimo. Clara escolheu uma tomada perto do rodapé. A foto saiu torta. O professor elogiou a tensão da imagem. Ela quase riu.
Renato mandou mensagem às quatro e meia.
“Quer que eu te busque?”
Clara leu a frase dentro da sala, com o celular baixo, escondido pela bolsa. A resposta demorou.
“Quero.”
Ele chegou quinze minutos depois do fim da aula. Clara esperava debaixo da marquise com o caderno contra o peito. Davi saiu atrás de um grupo, passou por ela sem parar. Não se despediram. Renato encostou o carro junto ao meio-fio e destravou a porta.
— Como foi?
Clara entrou. O carro tinha cheiro de café velho no copo térmico e do sabonete que Renato usava depois de mexer com produto de limpeza.
— Foi bom.
— Seu rosto está estranho.
— Estou com dor de cabeça.
Renato tirou o carro da vaga. No painel, o limpador de para-brisa ainda estava na velocidade errada e fez um movimento seco sobre o vidro sem chuva. Ele desligou.
— Comeu alguma coisa?
— Comi.
— Mentira.
Ela olhou para ele.
— Como você sabe?
— Você fica agressiva quando come. Está quieta demais.
A ternura da frase quase a quebrou. Clara virou o rosto para a janela. A cidade passava com uma nitidez desagradável: padaria, farmácia, ponto de ônibus, um homem segurando flores embrulhadas em jornal. Tudo continuava funcionando depois de uma coisa que, dentro dela, parecia ter deslocado os móveis de lugar.
Em casa, Renato esquentou arroz, feijão e os restos do risoto. Clara tomou banho antes de jantar. Esfregou a boca com sabonete uma vez, depois outra, e parou quando percebeu a imagem que estava fabricando de si mesma. Não havia marca. Não havia prova. Só havia memória.
Sentaram à mesa pequena da cozinha. Renato colocou pimenta no prato, ofereceu a ela. Clara recusou. Comeu duas garfadas e largou o garfo.
— Eu preciso te contar uma coisa.
Renato não se mexeu. A mão dele ficou parada sobre o copo.
— Sobre o curso?
Ela assentiu. A garganta fechou de um jeito feio, físico. Clara pensou em mentir melhor. Pensou em contar uma versão menor: Davi tentou, ela saiu, ficou assustada. Seria quase verdade. Quase.
— Eu beijei o Davi.
O silêncio depois foi tão simples que pareceu errado. Renato não gritou. Não afastou a cadeira. Não perguntou quem era Davi, porque sabia. O nome já tinha estado na mesa deles, no restaurante, na tela do celular, no espaço entre a cômoda e a cama.
Ele pegou o copo, bebeu um gole, colocou de volta no mesmo lugar.
— Hoje?
— Hoje.
— Antes da aula?
— Antes.
— Você saiu mais cedo por isso?
— Não. Quer dizer... eu não saí pensando que ia acontecer.
Renato fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, pareciam mais secos.
— Mas saiu sabendo que queria ver se acontecia.
Clara tentou responder e não conseguiu. A frase dele era dura porque era justa.
— Foi só um beijo — ela disse, e odiou a palavra só no instante em que saiu.
Renato olhou para ela como se a frase tivesse encostado nele de um jeito pior que a confissão.
— Não faz isso.
— Desculpa.
— Não diminui para eu ter que parecer exagerado.
Ela levou a mão ao rosto.
— Eu não sei por que eu fiz.
— Sabe alguma parte.
— Eu gostei de ser olhada.
Renato desviou os olhos para a pia. Havia uma faca sobre a tábua, migalhas de pão, uma colher dentro de uma panela pequena. A casa inteira parecia continuar oferecendo tarefas.
— E de beijar?
Clara sentiu a pergunta abrir alguma coisa. Podia mentir ali, para poupar os dois. Mas tinha acabado de descobrir que as mentiras pequenas chegavam antes dela.
— Sim.
Renato passou as mãos no rosto. Não chorou de imediato. Primeiro ficou cansado. Muito cansado, como se tivesse envelhecido dentro da cadeira.
— Você respondeu ele naquele dia, no restaurante?
Clara abaixou a cabeça.
— Respondi.
— E mentiu.
— Menti.
— O celular na cômoda...
— Eu tinha silenciado a conversa.
Ele soltou uma risada sem humor. A risada durou nada.
— Eu fiquei me sentindo idiota por reparar.
— Você não é idiota.
— Não me consola agora.
Clara ficou quieta. Renato levantou, levou o próprio prato até a pia e parou ali, de costas para ela. A água da torneira pingava em intervalos irregulares. Ele apoiou as duas mãos na bancada.
— Teve mais?
— Não.
— Não me responde rápido.
Ela respirou.
— Não teve mais. Ele me beijou. Eu beijei também. Eu parei.
— Por quê?
— Porque eu quis continuar.
Renato abaixou a cabeça. Dessa vez o choro veio, mas sem barulho grande. Só os ombros mudaram um pouco. Clara levantou instintivamente.
— Não vem.
Ela parou no meio da cozinha.
— Renato.
— Eu não sei o que fazer com você perto agora.
Clara cruzou os braços para impedir o impulso de tocar nele. O amor que sentia por Renato estava inteiro e inútil, uma coisa acesa no lugar errado. Ele enxugou o rosto com a manga da camiseta e virou para ela.
— Você quer ficar comigo?
— Quero.
— Hoje essa resposta não vale muita coisa.
Ela aceitou a pancada porque merecia e porque, mesmo merecida, doía. Renato olhou para a mesa, para o prato dela quase cheio.
— Eu não vou decidir nada agora.
— Eu não estou pedindo para você decidir.
— Está sim. Quando você conta, coloca alguma coisa na minha mão. Perdão, raiva, castigo, sei lá. Eu não quero carregar isso hoje.
Clara assentiu. Não havia frase útil.
— Você vai dormir no quarto? — ela perguntou.
— Não sei.
— Eu posso dormir no sofá.
— Não transforma isso em gesto bonito.
Ela engoliu seco.
Renato apagou o fogo que não estava aceso, só para fazer alguma coisa com as mãos. Depois pegou as chaves sobre a mesa.
— Vou andar.
— Agora?
— Se eu ficar, eu vou falar coisa que não sei se é verdade.
Clara deu um passo, parou de novo.
— Você quer que eu ligue para alguém?
— Quero que você não cuide de mim para se sentir menos culpada.
Ele saiu sem bater a porta. O clique da fechadura foi baixo. Clara ficou na cozinha, diante do arroz esfriando, com a boca limpa demais e a verdade finalmente dita. O celular dela vibrou na sala. Ela não foi olhar.
Renato voltou quarenta minutos depois. Clara estava no mesmo lugar, sentada à mesa, as mãos em volta de um copo de água que não bebera. Ele entrou sem fazer pergunta. Tinha os olhos vermelhos e o cabelo úmido de suor.
— Apaga a conversa — ele disse.
— Eu apago.
— Não. Apaga porque você quer. Não porque eu mandei.
Clara pegou o celular. As mãos tremiam. Abriu a conversa arquivada. Davi tinha mandado uma única mensagem.
“Você ficou bem?”
Ela mostrou a tela para Renato. Ele olhou, depois virou o rosto.
— Eu não quero ver.
Clara apagou a conversa. Não respondeu. Não bloqueou. Pensou em bloquear, mas percebeu que fazer isso diante de Renato seria outra forma de pedir absolvição imediata. Colocou o celular sobre a mesa, longe da mão.
— Eu sinto muito — ela disse.
Renato sentou na cadeira em frente. Por um momento, os dois ficaram como no restaurante, separados por uma mesa, uma conta invisível entre eles.
— Eu também — ele disse.
— Você também o quê?
— Sinto muito por ainda te amar agora.
Clara começou a chorar. Renato não atravessou a mesa. Ela não pediu. A madrugada entrou devagar pela janela da cozinha, fria e sem utilidade. Quando foram para o quarto, não se tocaram. Renato deitou de costas. Clara ficou de lado, virada para a parede.
Muito depois, quando ela achou que ele dormia, Renato falou no escuro:
— Eu não quero decidir nada hoje.
— Eu sei.
— Amanhã talvez eu também não queira.
Clara fechou os olhos.
— Eu espero.
Ele não respondeu. Desta vez, o celular dela ficou descarregado sobre a mesa da cozinha.