Capítulo 9 - A Confissão Inteira Foram quantos beijos? · Capítulo 9 de 10
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Capítulo 9 - A Confissão Inteira

Clara não dormiu na cama.

Também não dormiu no sofá. Passou a noite em pedaços, primeiro sentada no chão da cozinha, depois encostada na parede do corredor, depois deitada por cima da colcha, sem trocar de roupa. A casa tinha ficado grande demais sem Renato, embora o apartamento continuasse pequeno, com o varal dobrado atrás da porta e a mesa da cozinha encostada na parede. Cada objeto parecia ter perdido a função e ganhado memória.

Às seis e quarenta e dois, o celular vibrou.

Renato:

“Vou passar em casa às nove para pegar roupa.”

Clara leu deitada de lado, com o aparelho sobre o lençol. O primeiro impulso foi escrever uma resposta longa, cuidadosa, arrependida, cheia de promessas. O segundo foi não responder para respeitar o pedido de silêncio. O terceiro foi levantar.

Digitou:

“Tá.”

Apagou.

Digitou:

“Vou sair antes.”

Apagou.

Por fim, escreveu:

“Vou procurar ajuda agora. Deixo a casa livre às nove.”

Enviou antes de transformar a frase em pedido.

Renato visualizou. Não respondeu.

Clara tomou banho sem lavar a boca com força. Reparou nisso como quem repara uma mudança pequena num doente. Vestiu calça jeans, camisa branca, prendeu o cabelo. Pegou a bolsa e colocou dentro dela apenas carteira, chave, celular e o comprovante amassado da farmácia, sem saber por quê. Na cozinha, a travessa lavada estava no escorredor. Ainda havia uma marca de molho no canto. Ela passou a esponja de novo. A mão precisava fazer alguma coisa antes de sair.

Na rua, procurou no celular por psicólogas perto dali. A palavra terapia ficou grande demais na tela. Passou por anúncios, perfis, fotos de mulheres sorrindo em salas claras, frases sobre acolhimento e escuta. Quase desistiu na terceira página. Tudo parecia feito para pessoas que sabiam explicar o próprio sofrimento em uma frase de formulário.

Ligou para a primeira clínica com plantão de fim de semana.

— Temos encaixe às dez e meia com a Lígia — disse a recepcionista. — Primeira consulta?

Clara olhou para a fachada fechada de uma loja de colchões.

— Primeira.

— Pode chegar quinze minutos antes.

— Tá.

— Qual o motivo do atendimento?

Clara fechou os olhos. Um ônibus passou soltando fumaça.

— Eu estou estragando meu casamento — disse.

Do outro lado, a recepcionista ficou profissionalmente quieta.

— Certo. Vou registrar como demanda conjugal e individual.

Demanda. Clara quase riu. Havia uma versão do mundo em que sua desordem virava palavra administrativa.

Chegou cedo demais. A sala de espera ficava no segundo andar de um prédio comercial pequeno, entre uma ótica e uma empresa de seguros. Tinha três cadeiras cinzas, uma planta falsa e uma mesa com revistas antigas sobre saúde. Clara sentou na cadeira do canto. Depois mudou para a do meio. Depois voltou para o canto. A recepcionista pediu documento, telefone, endereço. Clara preencheu tudo com letra menor do que a sua.

Às dez e vinte e oito, uma mulher abriu a porta.

— Clara?

Lígia era mais velha do que parecia na foto do site. Cabelo curto, óculos de armação fina, uma blusa verde sem estampa. Não sorria demais. Clara gostou disso.

A sala tinha duas poltronas, uma estante baixa e uma janela voltada para a parede do prédio ao lado. Lígia apontou para uma poltrona. Clara sentou na beirada.

— A recepção anotou que você procurou atendimento por uma questão conjugal e individual — Lígia disse. — Por onde você quer começar?

Clara olhou para as próprias mãos.

— Eu traí meu marido.

Lígia não mudou o rosto.

— Como?

A pergunta era simples, e justamente por isso tirava a possibilidade de esconder no resumo.

— Beijos. Três vezes. Quer dizer, com três homens diferentes. Não teve sexo. Teve... — Clara respirou. — Teve beijo, amasso na última vez, mentira, mensagem escondida. Teve muita coisa antes do beijo.

— O que você chama de antes?

Clara apertou os dedos.

— A parte em que eu sei que estou indo. A parte em que eu ainda poderia voltar.

Lígia assentiu, anotando pouco.

— E você quer voltar?

Clara quase respondeu sim. A resposta ficou presa.

— Quero querer voltar antes.

— Antes de quê?

— Antes de gostar.

Lígia deixou a frase ficar na sala. Não correu para salvá-la. Clara sentiu vergonha, mas uma vergonha diferente, menos performática. Ali não havia Renato para machucar nem absolver. Não havia homem do lado de fora. Havia uma mulher com uma caneta e uma pergunta que pedia cena.

— Me conta a última vez — Lígia disse.

Clara contou. Não desde o beijo, como faria para diminuir o caminho. Contou desde André no banheiro da casa de Dona Sônia, desde a lista de bloqueados, desde a terça-feira no banheiro do trabalho, desde a quarta, o restaurante por quilo, a farmácia, a pergunta de Renato na porta. Quando disse eu respondi que não, a voz falhou.

— Esse foi o pior pedaço? — Lígia perguntou.

— Não sei.

— Parece que seu corpo acha que sim.

Clara passou a mão no rosto.

— Porque ele perguntou certo. Ele fez a pergunta exata. E eu usei a pergunta para mentir melhor.

— Melhor como?

— Melhor para sair de casa.

Lígia anotou.

— Você falou que não houve sexo. Isso é importante para você?

Clara demorou.

— É.

— Por quê?

— Porque parece uma fronteira. Um lugar onde eu ainda posso dizer que não destruí tudo.

— E para o seu marido?

Clara pensou em Renato sentado à mesa, perguntando se fora beijo ou amasso, perguntando quantos.

— Acho que para ele a fronteira se mexeu.

— E para você?

Clara olhou para a janela. A parede do prédio vizinho tinha uma rachadura fina perto de um cano.

— Também.

Lígia não disse que era bom ela perceber. Não entregou medalha por migalha de lucidez.

— O que você espera que aconteça agora?

— Eu queria que ele voltasse.

— E se ele voltar?

— Eu queria não fazer de novo.

— Isso é diferente de querer entender por que faz.

Clara fechou os olhos.

— Eu sei.

— Sabe agora?

— Talvez.

— Então começa por menos promessa e mais observação. Promessa você já usou. Pelo que me contou, promessa virou parte da engrenagem.

A frase não tinha crueldade. Tinha precisão. Clara sentiu vontade de defender suas promessas, dizer que eram sinceras, que ela queria de verdade, que amava Renato. Ficou quieta.

— Eu amo meu marido — disse, mesmo assim.

— Acredito.

Clara levantou os olhos.

— Acredita?

— Sim. E isso não responde a outra pergunta.

— Qual?

— O que você faz com o desejo de ser outra pessoa por alguns minutos.

Clara começou a chorar sem cobrir o rosto. Lígia empurrou a caixa de lenços para perto, sem interromper.

Quando saiu, tinha uma próxima consulta marcada e uma tarefa escrita num papel: descrever, sem julgamento e sem desculpa, os momentos de antes. Não os beijos. Os caminhos.

No corredor, Clara encostou na parede e mandou mensagem para Renato.

“Fui à consulta. Tenho outra terça. Não quero te pedir nada agora. Só estou avisando.”

Ele respondeu quase dez minutos depois.

“Estou no apartamento.”

Clara olhou para a mensagem até entender que aquilo não era convite nem expulsão. Era informação.

“Quer que eu demore?”

A resposta veio curta.

“Não sei.”

Clara ficou no corredor do prédio comercial mais alguns minutos. Depois desceu, comprou um café que não queria e caminhou sem direção por quatro quarteirões. Às onze e cinquenta, pegou ônibus para casa.

Renato estava na sala quando ela entrou. Havia uma mochila no chão, duas camisetas dobradas sobre o sofá e uma sacola com roupa suja. Ele não tinha ido embora de novo ainda. Isso foi tudo que Clara conseguiu pensar.

— Oi — ela disse.

— Oi.

Ele parecia menos destruído do que na noite anterior e mais longe. A distância calma assustou mais.

— Eu posso sair se você quiser terminar de pegar as coisas.

— Eu já peguei.

— Tá.

Renato olhou para a bolsa dela.

— Foi mesmo?

Clara entendeu.

— Fui. Posso te mostrar o comprovante.

O rosto dele mudou para dor.

— Não quero virar pessoa que pede comprovante de terapia.

— Eu sei.

— Mas uma parte minha quer.

Ela abriu a bolsa, tirou o papel da clínica e colocou sobre a mesa de centro sem empurrar para ele.

— Está aqui. Você olha se quiser. Não precisa.

Renato olhou para o papel. Tinha a mesma cautela com que olhava para o celular dela.

— Ela disse o quê?

— Para eu observar os momentos de antes. Não prometer tanto.

— Gostei dela.

Clara quase sorriu.

— Você nem conhece.

— Já está na frente de nós dois.

O comentário poderia ter virado piada em outro tempo. Ficou apenas respirável.

Renato sentou no sofá. Clara continuou em pé.

— Eu dormi num hotel horrível — ele disse.

— Sinto muito.

— Tinha uma luz azul no ar-condicionado que piscava a noite inteira. E um casal brigou no corredor às duas.

— Você dormiu?

— Quase nada.

— Comeu?

— Um sanduíche de máquina que parecia embalado desde a inauguração.

Clara quis cuidar. Fazer comida, pedir desculpa, tocar o rosto dele. Ficou parada.

— Eu não vou perguntar se você volta hoje — ela disse.

— Ótimo, porque eu não sei responder.

Ele se inclinou para a frente, cotovelos nos joelhos.

— Eu pensei em muita coisa ontem.

— Imagino.

— Não imagina tudo.

— Não.

Ele olhou para as próprias mãos.

— Eu pensei em te deixar. Pensei em mandar mensagem para minha mãe. Pensei em ligar para Paula e contar tudo só para ver alguém ficar do meu lado sem complicação.

Clara sentiu o medo voltar, mas não interrompeu.

— Pensei em André. No que eu faria se encontrasse ele. Pensei em Davi, em Mauro, no homem da fila que nem nome tem. Pensei que eu estou virando uma pessoa povoada por homens que eu não conheço.

— Renato...

— Espera.

Ela calou.

— E pensei naquela ligação do banco. No que eu senti. Eu queria poder dizer que foi só horror, mas não foi. Teve alguma coisa ali que me puxou. Uma coisa de imaginar, de saber antes, de ter você me escolhendo como pessoa para quem ligava naquele momento. Mesmo doendo. Isso me dá vergonha.

Clara sentou na poltrona, devagar.

— Eu não sabia o que fazer com isso — ele continuou. — Então transformei em regra. E a regra virou um jeito de eu ficar dentro da cena. Talvez eu também tenha gostado de estar dentro, mesmo odiando.

— Isso não faz você culpado pelo que eu fiz.

— Eu sei.

— Sabe?

— Estou tentando saber. Também posso usar essa frase.

Clara abaixou os olhos.

Renato pegou o papel da clínica, olhou o cabeçalho, colocou de volta.

— Eu não quero mais a regra daquele jeito.

Clara sentiu um susto pequeno.

— Nem eu.

— Não quero ligação no meio da fila para eu decidir se você conversa. Não quero mensagem de varanda para eu virar juiz. Não quero ser fiscal, cúmplice, plateia, nada disso.

— Tá.

— Também não quero ser enganado.

— Eu sei.

— Então eu não sei ainda qual é a regra nova. Mas sei que a velha acabou.

Clara assentiu.

— Eu posso te dizer uma coisa que a Lígia falou?

— Pode.

— Ela não falou regra. Falou caminho. Para eu descrever o caminho antes de chegar no lugar. Talvez, por enquanto, eu precise sair do caminho antes de te envolver.

Renato pensou.

— Tipo no banco.

— No banco eu te envolvi para sair.

— E funcionou.

— Funcionou e feriu.

— Tudo está ferindo.

— Sim.

Ele olhou para a janela.

— O que seria sair do caminho?

— Não ir. Não responder. Não desbloquear. Não ficar sozinha com a frase pequena. Não esperar virar vontade bonita para decidir.

— E se não conseguir?

Clara respirou.

— Aí eu te conto, mas não como quem pede para você decidir por mim. Como consequência. E talvez você vá embora.

Renato fechou os olhos. Quando abriu, havia cansaço e alguma coisa parecida com respeito.

— Essa parte precisa continuar verdadeira.

— Eu sei.

— Eu posso ir embora.

— Pode.

— Não como ameaça.

— Como fato.

— Isso.

Ficaram quietos. A cidade fazia barulho pela janela, uma buzina distante, passos no corredor, alguém arrastando móvel no apartamento de cima.

— Eu não quero dormir aqui hoje — Renato disse.

Clara sentiu a frase, mas não desabou.

— Tá.

— Mas também não quero hotel.

— Você quer ir para onde?

— Vou ficar com o Marcos.

Marcos era amigo antigo de Renato, do tempo da faculdade. Clara o conhecia o suficiente para saber que ele faria poucas perguntas se Renato pedisse.

— Ele sabe?

— Não. Vou dizer que a gente brigou.

— É verdade.

— Parcialmente, nossa especialidade.

Clara aceitou a ironia.

— Você volta quando?

— Amanhã. Para conversar. Não sei se para ficar.

— Tá.

Ele levantou. Pegou a mochila. Antes de sair, parou perto da mesa onde o papel da clínica continuava.

— Terça é que horas?

— Dezoito.

— Você quer que eu vá junto?

Clara não esperava a pergunta.

— Não sei.

— Não estou oferecendo para vigiar.

— Eu sei.

— Não sabe, mas estou falando.

Ela sorriu pouco, triste.

— Talvez em outra. A primeira eu acho que preciso ir sozinha.

— Tá.

Renato abriu a porta. Desta vez, não parecia fuga. Também não parecia volta.

— Clara.

— O quê?

— Não me mande pedido de perdão hoje.

— Não vou.

— Manda só se acontecer alguma coisa prática.

— Tá.

— E come.

Ela assentiu.

— Você também.

Ele saiu.

Clara ficou de pé por alguns minutos, depois pegou o papel que Lígia lhe dera. Sentou na mesa da cozinha com uma caneta e escreveu no alto da folha:

Antes.

A palavra ficou pequena no papel.

Escreveu Davi. Depois Mauro. Depois homem da fila. Depois André. Embaixo de cada nome, não escreveu beijo. Escreveu os lugares onde tinha começado a escolher: banheiro do restaurante, varanda, ligação no banco, lista de bloqueados, porta de casa.

Quando terminou, a página parecia menos uma confissão e mais um mapa ruim de uma cidade que ela finalmente admitia conhecer.

À noite, Renato mandou:

“Cheguei no Marcos.”

Clara respondeu:

“Obrigada por avisar. Eu comi.”

Ele visualizou.

Não respondeu.

Dessa vez, Clara não escreveu mais nada.

Na terça, foi à segunda consulta. Na quarta, Renato voltou para casa com uma mochila menor e uma regra nova que não cabia numa frase. Não voltaram ao normal. Dormiram na mesma cama, com espaço entre os corpos. Falaram pouco, mas falaram verdade mais cedo. Clara mostrou o papel dos caminhos sem pedir aplauso. Renato leu em silêncio e disse apenas:

— A porta de casa foi a pior.

— Para mim também.

Ele dobrou o papel e devolveu.

— Então começa por ela.

Naquela noite, antes de apagar a luz, Clara colocou o celular na cômoda, longe da cama. Depois pensou melhor, pegou de volta e colocou na cabeceira, virado para cima.

— Não sei qual dos dois é menos teatral — ela disse.

Renato olhou para o aparelho.

— Hoje deixa onde você deixaria se eu não estivesse olhando.

Clara ficou com o celular na mão. A resposta verdadeira levou alguns segundos.

Colocou na cabeceira.

Renato assentiu.

Renato apagou a luz sem comentar.

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