Capítulo 4 - O Segundo Nome
Na segunda-feira, Clara trocou a lâmpada errada por pilhas.
Foi até a mesma galeria no horário do almoço, entrou direto na loja de material elétrico e colocou a caixa sobre o balcão antes que o atendente perguntasse qualquer coisa. Não olhou para a vitrine de roupas, nem para o corredor, nem para as pessoas que passavam atrás dela refletidas nos vidros. Repetiu para si mesma que aquilo era uma tarefa simples. Trocar uma compra. Comprar pilhas. Voltar ao trabalho.
O atendente testou a lâmpada com desconfiança.
— A senhora quer a mesma, só que cento e vinte e sete?
— Não. Quero pilhas.
— Pilhas?
— Pilhas.
Ele pareceu decepcionado com a falta de continuidade elétrica da história, mas entregou um pacote com quatro unidades. Clara pagou em dinheiro. Na saída, não viu o homem da semana anterior. Ainda assim, o corpo dela se comportou como se ele pudesse surgir de algum vão entre as lojas. Ombros duros, respiração atenta, uma parte da cabeça perguntando se estava sendo vista.
Chegou ao escritório com vinte minutos de atraso.
Trabalhava no financeiro de uma empresa de eventos corporativos, numa sala comprida onde o ar-condicionado era sempre forte demais e alguém sempre reclamava da impressora. A mesa de Clara ficava perto da janela, com uma planta que Renato chamava de sobrevivente porque já passara por três férias, duas pragas e um mês sem água.
— Comprou as pilhas ou adotou uma família no caminho? — perguntou Janaína, da mesa ao lado.
— Fila.
— Na loja de pilha?
— As pessoas precisam de energia.
Janaína aceitou a piada e voltou à planilha. Clara colocou as pilhas na gaveta, junto de clipes, recibos e um batom antigo. Teve vontade de mandar uma foto para Renato. Não mandou. Não queria transformar todo gesto correto em relatório, nem dar a ele a tarefa de bater palma para uma adulta que conseguira comprar pilhas sem cair em desastre.
À tarde, a diretora entrou na sala batendo palmas duas vezes.
— Pessoal, aviso rápido. Quinta tem confraternização com os fornecedores do congresso. Nada enorme, só um encontro no bar do hotel para fechar o ciclo sem todo mundo se odiar.
Alguém comemorou. Alguém perguntou se era obrigatório. A diretora fingiu não ouvir.
— Quem participou da operação, por favor, apareça. Nem que seja para comer bolinha de queijo e dizer que foi lindo.
Clara sentiu a notícia chegar ao corpo antes da cabeça. Bar de hotel. Fornecedores. Gente de fora. Luz ruim, copo na mão, aquela liberdade emprestada dos lugares onde ninguém sabe direito quem pertence a quem. Pegou a caneta e escreveu quinta na margem de um relatório, embora não precisasse.
À noite, contou a Renato enquanto ele tentava abrir um pote de palmito.
— Quinta tem uma confraternização do trabalho.
Ele parou com a tampa na mão.
— Você quer ir?
— Quero.
— Precisa ir?
— Mais ou menos.
— Mais ou menos é o jeito adulto de dizer não.
Clara encostou na pia.
— Eu não quero deixar de existir fora de casa porque eu fiz merda.
Renato apertou a tampa. O pote não abriu.
— Eu sei.
— Mas eu também sei o que você vai pensar.
— Você sabe uma parte.
— Então fala a outra.
Ele colocou o pote sobre a bancada e pegou um pano para tentar de novo.
— Eu vou pensar em você lá, com gente bebendo, gente olhando, algum homem achando que tem chance. Vou pensar se você está me contando porque quer ser honesta ou porque quer que eu te autorize a ir. Vou me odiar por parecer fiscal. Vou te odiar um pouco por me colocar nisso. Depois vou lembrar que você me contou e vou me sentir injusto. Vai ser uma noite cheia.
Clara ficou quieta.
— Eu posso não ir.
— Você quer que eu escolha?
— Não.
— Então não me oferece a coleira e chama de cuidado.
Ela recebeu a frase sem protesto. Renato conseguiu abrir o pote. O estalo da tampa pareceu grande demais.
— Vai — ele disse.
— Renato.
— Vai porque é seu trabalho. Vai porque você quer ir. Mas não me vende isso como se fosse uma prova simples.
— Não é.
— E se acontecer alguma coisa...
Ele não terminou. Tirou dois palmitos do vidro com um garfo e colocou no prato.
— Se acontecer alguma coisa, eu conto.
— Antes ou depois?
Clara fechou os olhos por um instante.
— Antes, se eu conseguir perceber antes.
— Essa resposta é horrível.
— É a mais honesta que eu tenho.
Renato empurrou o prato para ela.
— Então leva essa.
Na quinta, Clara escolheu uma blusa preta de manga curta e trocou por uma camisa azul antes de sair. A blusa preta parecia querer explicar demais. A camisa azul era de trabalho, sem perfume, sem intenção. Passou batom no elevador do prédio da empresa e removeu com um papel antes de chegar ao térreo. Depois passou de novo, menos.
O bar do hotel ficava no mezanino, com poltronas baixas, mesas redondas e uma parede inteira de vidro voltada para a avenida. Havia música baixa, luz âmbar e garçons que apareciam sem ruído. O pessoal do escritório se espalhou rápido. Janaína pegou uma taça de espumante e anunciou que beberia por todos os boletos emitidos sem erro. A diretora conversava com dois homens de terno perto do balcão.
Clara pegou água com gás.
— Corajosa — Janaína disse.
— Estou começando leve.
— Frase de quem termina cantando.
Clara sorriu. O celular vibrou na bolsa.
Renato:
“Chegou?”
Ela respondeu:
“Cheguei. Estou com a Janaína. Água com gás.”
Viu os três pontinhos aparecerem, sumirem, aparecerem de novo.
“Tá. Bom evento.”
Não havia beijo no fim. Nem coração. Nem cobrança. Ela ficou olhando para a mensagem tempo demais.
— Clara, vem cá — chamou a diretora.
Perto do balcão, apresentaram Mauro. Era fornecedor de iluminação cênica, ou de alguma coisa próxima disso; Clara não reteve a função inteira. Tinha quarenta e tantos anos, barba curta com fios brancos e uma camisa clara dobrada nos antebraços. Cheirava a cigarro coberto por hortelã.
— Você que salvou a planilha de reembolso, né? — ele perguntou.
— Salvar é uma palavra generosa.
— Eu vi aquilo antes. Você salvou.
— Então vou aceitar.
Mauro tinha um jeito seco de elogiar, sem sorriso sobrando. Isso o deixava mais atento do que simpático. Clara conversou com ele sobre notas fiscais, hotéis que cobravam café da manhã a preço de joia e a misteriosa incapacidade de adultos preencherem dados bancários corretamente. Era uma conversa de trabalho. Ela se agarrou a isso.
Meia hora depois, estava rindo.
Não alto. Não de um jeito que chamasse atenção. Mas rindo com o corpo um pouco inclinado para a frente, a taça de água substituída por vinho branco, Mauro apoiado ao lado dela na varanda estreita do mezanino. Lá fora, a avenida escorria luz. Do outro lado do vidro, o bar continuava cheio e seguro. Ali, no meio termo, o ar parecia menos vigiado.
— Você é casada? — Mauro perguntou.
Clara sentiu a pergunta como uma mão no ombro.
— Sou.
— Feliz?
Ela devia ter achado a pergunta invasiva. Achou. Também gostou.
— Isso é pergunta de fornecedor?
— É pergunta de fumante querendo saber se pode acender ou se vai ser julgado.
Ele mostrou o maço no bolso da camisa. Clara relaxou um pouco, grata pela saída.
— Fuma longe de mim e eu finjo que não vi.
— Justo.
Mauro abriu a porta lateral da varanda. Havia uma área pequena, descoberta, onde ficavam dois vasos altos e um cinzeiro de parede. Clara ficou no limite da porta. Mauro acendeu o cigarro e virou o rosto para soltar a fumaça na direção contrária.
— Você não fuma mesmo?
— Não.
— Melhor.
— Melhor por quê?
— Porque alguém precisa chegar em casa sem cheiro de culpa.
A frase deveria tê-la expulsado. Em vez disso, Clara ficou. A culpa, nomeada daquele jeito por alguém que não sabia nada, pareceu ganhar corpo fora dela. Mauro tragou uma vez, apagou o cigarro antes da metade e jogou no cinzeiro.
— Desculpa. Brincadeira ruim.
— Foi.
— Eu faço algumas.
— Percebi.
Ele sorriu pouco. Clara olhou para dentro do bar. Janaína discutia alguma coisa com um garçom, provavelmente sobre a ausência de guardanapos. A diretora ria alto. Ninguém olhava para a varanda.
O celular vibrou na bolsa de novo.
Renato:
“Tudo bem aí?”
Clara leu. Mauro não tentou ver a tela. Isso, de algum modo, piorou.
Ela digitou:
“Sim.”
Parou. Apagou. Escreveu:
“Estou conversando com um fornecedor na varanda. Ele fuma. Vou voltar para dentro.”
Não enviou.
Mauro encostou as costas na parede, a uma distância que ainda permitia fuga.
— Marido?
— Sim.
— Responde.
— Você está mandando?
— Estou evitando virar personagem pior do que já sou.
Clara quase riu. Enviou apenas:
“Tudo bem.”
Guardou o celular.
— Era para eu voltar — ela disse.
— Era.
Nenhum dos dois se mexeu. A avenida lá embaixo soltou uma buzina longa. Clara sentiu a própria mão procurar a aliança. Mauro viu. Não disse nada. Esse silêncio foi o passo dele.
— Eu não quero fazer uma coisa que pareça acidente — Clara disse.
Mauro baixou os olhos para a boca dela, depois voltou a encará-la.
— Então não faz.
A frase repetia Davi sem repetir. Não era a mesma cena, e talvez por isso fosse pior. Clara sabia mais agora. Sabia o nome do corredor, do estacionamento, da pia, da lâmpada errada. Sabia que Renato estava em casa segurando o telefone como quem segura a beirada de uma mesa. Sabia o bastante para ir embora.
Deu um passo para dentro.
Mauro não segurou.
Clara parou com a mão na maçaneta da porta de vidro. O bar do outro lado pareceu barulhento demais, cheio de pessoas com direito a uma vida sem prestação de contas. Ela se virou.
O beijo foi mais curto que o de Davi e mais grave.
Mauro tinha gosto de hortelã e cigarro. A mão dele tocou sua cintura por cima da camisa azul, sem puxar. Clara encostou a palma no peito dele para afastar ou para medir a distância, não soube. Ele interrompeu antes dela, talvez por delicadeza, talvez por cálculo. Isso a deixou com raiva.
— Chega — ela disse.
— Sim.
— Eu vou entrar.
— Vai.
Ela entrou. O ar do bar pareceu quente. Janaína chamou seu nome de longe e ergueu uma coxinha num guardanapo como se brindasse. Clara respondeu com a mão. Foi ao banheiro, trancou-se numa cabine e ficou parada diante da tampa fechada do vaso, sem chorar.
Não havia conversa para apagar. Não havia mensagem de Mauro. Não havia prova, exceto o corpo dela e o cheiro.
O cheiro.
Clara levou a manga da camisa ao rosto. Cigarro. Pouco, mas claro. Tentou lavar a pele do pescoço na pia, mas a camisa guardava tudo. Passou água na manga, piorou. Uma mulher entrou no banheiro, retocou o batom diante do espelho e saiu sem olhar para ela.
Clara pegou o celular.
Renato tinha mandado outra mensagem:
“Vai demorar?”
Ela escreveu:
“Estou indo.”
Enviou. Chamou um aplicativo. Despediu-se da diretora com uma desculpa de dor de cabeça, da Janaína com um aceno, de Mauro com nada. No elevador, sentiu vontade de apertar todos os botões para atrasar a chegada ao térreo. Não apertou.
No carro, abriu a janela apesar do ar-condicionado. O motorista perguntou se estava tudo bem. Clara disse que sim, porque mentir para estranhos não parecia contar. No caminho, pensou em comprar outra blusa. Pensou em passar numa farmácia, procurar desodorante, perfume, qualquer coisa. Pensou em jogar a camisa fora antes de entrar em casa.
Não fez nada.
Renato abriu a porta antes que ela pegasse a chave. Estava de calça de moletom e camiseta, descalço. O apartamento atrás dele tinha a luz da sala acesa e a televisão sem som.
— Você chegou rápido.
— Vim de aplicativo.
Ele deu espaço para ela entrar. Clara passou por ele e viu o momento exato em que Renato sentiu o cheiro. Não foi dramático. O rosto dele só perdeu alguma coisa.
— Você fumou?
— Não.
— Tem cheiro de cigarro.
Clara segurou a bolsa com as duas mãos.
— Eu fiquei perto de alguém que fumou.
Renato fechou a porta devagar.
— Alguém.
— Mauro. Um fornecedor.
Ele assentiu uma vez, como quem confirma uma conta ruim.
— Você me respondeu que estava tudo bem.
— Eu achei que...
— Não termina essa frase.
Clara largou a bolsa no sofá. O celular ficou dentro dela. Aprendera alguma coisa, pelo menos isso: não pegou o aparelho para transformar a culpa em prova organizada.
— Eu beijei ele.
Renato ficou parado perto da porta.
— Quantas vezes?
A pergunta saiu baixa. Não parecia curiosidade. Parecia uma pessoa encostando a mão numa superfície quente para confirmar que queimava.
— Uma.
— Uma vez ou um beijo?
Clara sentiu o ar sumir.
— Um beijo. Curto.
— Curto.
— Renato...
— Não põe meu nome no fim disso.
Ela calou. Ele passou por ela e foi até a cozinha. Clara o seguiu a uma distância pequena. Renato abriu a janela sobre a pia, embora o cheiro estivesse na roupa dela, não no apartamento. Depois abriu a torneira, fechou, abriu de novo.
— Na semana passada você comprou uma lâmpada para sair de uma situação.
— Eu sei.
— Hoje você ficou.
— Fiquei.
— Depois de me mandar que estava tudo bem.
— Sim.
Renato riu sem nenhum riso.
— Então aquilo era o quê? Um treinamento? Você me conta quando consegue resistir, para eu acreditar quando você não consegue?
— Não.
— Parece.
Clara encostou na mesa. A cozinha repetia as cenas sem pedir licença: pia, mesa, confissão, o mesmo lugar para uma dor nova.
— Eu quis contar assim que cheguei.
— Parabéns.
Ela aceitou.
— Eu não estou pedindo parabéns.
— Está pedindo o quê?
— Não sei.
— Sabe sim. Você sempre sabe alguma parte.
Clara lembrou a frase do Capítulo anterior da vida deles, dita na mesma cozinha. Sabe alguma parte. Renato também lembrou, pelo jeito como fechou os olhos depois de dizer.
— Eu queria que tivesse parado em vontade — ela disse.
— Mas não parou.
— Não.
— E você gostou?
A pergunta voltou, inevitável, mais afiada porque já tinha sido feita uma vez.
Clara olhou para a janela aberta. Na área do prédio vizinho, alguém batia um tapete pequeno.
— Gostei.
Renato apoiou as mãos na pia. Dessa vez não chorou. A ausência de choro pareceu pior.
— Então não foi um acidente.
— Não.
— Também não foi Davi.
— Não.
— É você.
Clara sentiu a frase como se tivesse sido dita por dentro dela.
— É.
Renato virou. Tinha o rosto pálido, mas a voz estava firme.
— Tira essa camisa.
Ela deu um passo para trás.
— O quê?
— Não desse jeito. Não estou mandando você tirar aqui. Tira porque tem cheiro dele e eu não quero conversar com esse cheiro na sala.
Clara assentiu rápido demais. Foi ao quarto, fechou a porta pela metade e tirou a camisa azul. Colocou no cesto, depois retirou do cesto, porque misturaria com as roupas deles. Ficou parada com a camisa na mão, sem saber onde uma pessoa coloca a prova de uma repetição. No fim, deixou sobre o chão da área de serviço.
Vestiu uma camiseta branca. Quando voltou, Renato estava sentado à mesa. A janela continuava aberta.
— Eu achei que o pior tinha sido você beijar outro homem — ele disse.
Clara sentou em frente.
— E não foi?
— Não sei. Talvez o pior seja descobrir que eu posso ouvir isso de novo.
Ela baixou a cabeça.
— Eu não quero virar isso.
— Mas já virou uma segunda vez.
O número ficou na mesa. Segunda. Agora havia contagem.
— Foram quantos beijos? — ele perguntou.
Clara levantou os olhos.
— Renato.
— Preciso saber se a frase te parece absurda. Porque para mim parece. Parece absurda e parece que eu vou ter que aprender a perguntar.
Ela apertou as mãos.
— Um.
— Com Davi?
— Um também.
— Dois beijos, então.
— Sim.
Renato olhou para a janela aberta, depois para a blusa no corredor da área de serviço, visível de onde estavam.
— Dois beijos e eu já não sei quem eu sou nessa casa.
Clara não respondeu. Não havia uma resposta que não tentasse roubar a frase dele.
Ele se levantou, pegou o celular sobre a bancada e colocou no bolso.
— Vou dormir no sofá.
— Você disse que não queria fazer isso para me punir.
— Hoje não é para você.
Renato saiu da cozinha. Clara ficou sentada. Depois ouviu o armário da sala abrir, a manta sendo puxada, o sofá reclamando quando ele se deitou.
Na área de serviço, a camisa azul guardava o cheiro de cigarro como uma boca que ainda não tinha terminado de falar.