Capítulo 8 - A Mensagem de André
Clara desbloqueou André na terça-feira.
Não respondeu. Esse foi o argumento que usou consigo mesma durante quase uma hora, sentada no banheiro do trabalho com a tampa do vaso fechada e a bolsa no colo. Não respondeu, não escreveu, não procurou foto, não abriu conversa antiga. Apenas entrou na lista de bloqueados, tocou no nome e removeu o cadeado invisível.
O celular ficou quieto.
Isso deveria ter bastado para mostrar que nada havia ali. Um gesto sem consequência, uma curiosidade envergonhada, uma forma de olhar para a porta sem colocar a mão na maçaneta. Clara voltou para a mesa com o rosto lavado e a sensação nítida de que tinha escondido uma coisa antes mesmo de haver coisa.
À noite, Renato fez arroz com ovo porque os dois tinham esquecido de descongelar carne. Clara lavou folhas de alface na pia. O celular dela estava sobre a mesa, virado para cima, como mandava a nova normalidade. Renato estava mais silencioso desde domingo, mas não distante de forma limpa. Às vezes encostava nela ao passar pela cozinha. Às vezes desviava.
— A Paula mandou mensagem — ele disse.
Clara desligou a torneira.
— Sobre o almoço?
— Perguntou se eu estava bravo.
— E você?
— Disse que estava cansado.
— Ela acreditou?
— Paula acredita no que dá mais trabalho para os outros.
Clara sorriu pouco. Renato quebrou dois ovos na frigideira.
— Ela falou de mim?
— Não.
— Melhor.
— Não sei.
Ele colocou sal nos ovos. Clara quase avisou que já havia sal no arroz, mas se calou. Na mesa, comeram com a televisão ligada sem volume. Um jornal mostrava enchente em alguma cidade. Pessoas carregavam colchões molhados pelas ruas. Clara pensou na palavra perda com uma desproporção que a envergonhou.
O celular não vibrou.
Renato percebeu o olhar dela para o aparelho.
— Está esperando alguma coisa?
Clara poderia ter contado. Era ali. Antes. A regra inteira cabia naquela pergunta. Eu desbloqueei André hoje. Não respondi. Não sei por que fiz. Talvez eu saiba. Diz isso. Diz agora.
— Não — ela disse.
Renato assentiu. Não acreditou totalmente. Também não perguntou de novo. Essa foi a primeira parte que doeu.
Na quarta, André mandou mensagem às dez e dezessete.
“Achei que tinha sido bloqueado.”
Clara estava numa reunião sobre custos de hospedagem. A tela do celular acendeu sobre a mesa, e ela virou rápido demais. Janaína, ao lado, continuou olhando para a projeção. O gerente falava de tarifas, café incluso, limite por diária. Clara sentiu o corpo inteiro migrar para a palma da mão.
Não respondeu.
Às dez e trinta e nove, André escreveu de novo.
“Desculpa se fui inconveniente no domingo. Só lembrei de você.”
A frase tinha uma humildade calculada ou talvez Clara fosse injusta demais com qualquer coisa que quisesse recebê-la. Lembrou de você. Era quase nada. O problema era esse. As quedas dela começavam sempre com frases pequenas o bastante para que uma parte honesta ainda pudesse defendê-las.
Renato mandou mensagem ao meio-dia.
“Almoço?”
Eles às vezes mandavam apenas isso, como senha antiga. Significava: você comeu? está bem? existe uma vida comum apesar de tudo?
Clara respondeu:
“Vou comer com a Janaína.”
Não era mentira. Almoçou mesmo com Janaína. Sentaram num restaurante por quilo, e Clara colocou no prato arroz integral, frango seco e salada que não queria. Janaína falou do namorado, de uma dor no joelho, de Paula sem saber que Paula existia. Clara ouviu, respondeu, riu. O celular ficou dentro da bolsa, queimando sem calor.
No banheiro do restaurante, depois do almoço, respondeu André.
“Não foi inconveniente. Só estava num almoço de família.”
Ele visualizou rápido.
“Família costuma ser pior que inconveniência.”
Clara sorriu. Depois se odiou pelo sorriso. Bloqueou a tela, guardou o aparelho e saiu antes que viesse outra mensagem. Não contou a Renato. Guardou também a parte em que sabia que devia contar.
À noite, Renato perguntou se estava tudo bem.
— Estou cansada — ela disse.
Ele olhou para ela com uma tristeza quase impaciente.
— Essa frase virou esconderijo.
Clara largou a bolsa no aparador.
— Eu estou mesmo cansada.
— Eu acredito. Só não sei do que.
Ela tirou os sapatos. Um ficou tombado de lado.
— De mim.
Renato não respondeu. Talvez por reconhecer a verdade. Talvez por não querer consolá-la com uma frase que o deixasse menor.
Na quinta, André perguntou se ela ainda trabalhava perto do centro. Clara respondeu depois de vinte minutos. Na sexta, ele mandou uma foto da fachada antiga da academia, agora pintada de laranja. Ela respondeu que a cor era um crime. Ele disse que certas coisas pioravam quando tentavam parecer novas.
Clara leu a frase três vezes.
No sábado, Renato acordou com vontade de arrumar a casa. Isso acontecia quando estava ansioso. Tirou livros da estante, limpou a prateleira com pano úmido, encontrou manuais de eletrodomésticos que já nem existiam. Clara ajudou por um tempo. Depois disse que precisava ir à farmácia comprar absorvente e sabonete.
— Eu posso ir — Renato disse.
— Eu sei comprar sabonete.
— Eu sei que sabe.
A frase ficou no ar.
— Eu volto rápido.
— Tá.
Ela pegou a bolsa. O celular estava dentro. Renato olhou para a bolsa, depois para ela.
— Clara.
Ela parou na porta.
— O quê?
— Nada.
— Fala.
— Não sei se tenho direito de perguntar.
— Pergunta.
— Tem alguma coisa que você precisa me dizer antes de sair?
O sangue dela pareceu mudar de direção.
Era a segunda chance. Talvez a última que ainda cabia no nome de chance.
— Não.
Renato assentiu devagar. Dessa vez acreditou menos ainda. Mas abriu espaço para ela passar.
A farmácia ficava a quatro quadras. Clara comprou absorvente, sabonete, um pacote de algodão que não precisava e deixou tudo na bolsa. Depois caminhou mais duas quadras até a praça pequena atrás da igreja. André estava sentado num banco, de camiseta escura, óculos de sol na cabeça, um copo de caldo de cana na mão.
Não se levantou quando a viu. Isso deu à cena uma aparência mais casual do que merecia.
— Oi — ele disse.
— Oi.
— Você veio mesmo.
Clara ficou em pé diante dele.
— Não fala como se eu tivesse prometido.
— Você disse talvez.
— Talvez não é promessa.
— Por isso eu disse veio, não cumpriu.
Ela quase sorriu. Não sorriu. Sentou na ponta do banco, deixando espaço suficiente para uma pessoa invisível entre os dois. A praça tinha três árvores grandes, brinquedos infantis enferrujados e um homem vendendo milho perto do portão da igreja. Era um lugar claro demais para o que ela estava fazendo.
— Você está diferente — André disse.
— Todo mundo está.
— Não, você está mais séria.
— Talvez eu só esteja mais velha.
— Não é isso.
Ele não perguntou do marido. Clara agradeceu e se irritou. Queria que ele perguntasse para poder se ofender. Queria que ele não perguntasse para poder ficar.
— Por que você mandou mensagem? — ela perguntou.
André girou o copo entre as mãos.
— Vi uma mulher parecida com você perto da academia. Não era você. Aí lembrei.
— Só isso?
— Não.
Ele disse com simplicidade demais. Clara olhou para as crianças no escorregador. Uma menina tentava subir pela parte lisa enquanto o pai fingia não ver.
— Eu sou casada.
— Eu sei.
— Todo mundo sabe.
— Nem todo mundo liga para o que sabe.
Clara virou para ele.
— Isso devia me expulsar daqui.
— Devia.
André não era Davi, não era Mauro, não era o homem da fila. Tinha menos delicadeza, talvez menos paciência. Havia nele uma disponibilidade direta que facilitava o nojo e a vontade. Clara pensou em Renato perguntando na porta: tem alguma coisa que você precisa me dizer antes de sair? Pensou no não. A palavra ainda estava fresca.
— Eu preciso ir — ela disse.
— Precisa?
— Preciso.
— Então vai.
Ele não tentou impedir. Clara levantou. Deu três passos. O celular vibrou dentro da bolsa.
Renato:
“Tudo bem?”
Ela parou. A praça inteira pareceu notar, embora ninguém olhasse. André continuava no banco. Clara poderia responder: não. Poderia ligar. Poderia dizer a verdade tarde, mas ainda antes. Eu estou com André. Eu menti na porta. Vim encontrar ele. Não aconteceu nada ainda.
Ainda.
Digitou:
“Tudo. Já volto.”
Enviou.
André se levantou atrás dela.
— Clara.
Ela fechou os olhos.
— Não.
— Eu não disse nada.
— Eu ouvi mesmo assim.
Ele chegou perto. Não encostou. Isso já parecia uma linguagem conhecida demais. Clara sentiu raiva de reconhecer a gramática: a pausa, o espaço, a possibilidade oferecida como se ainda fosse dela.
— Vai embora — ela disse.
— Você quer que eu vá?
— Quero querer.
André soltou um riso baixo, sem deboche.
— Isso é resposta triste.
— É a única.
O beijo aconteceu ao lado de uma árvore, perto demais da rua para ser escondido e longe demais das pessoas para ser interrompido. André tocou o rosto dela com uma mão, e Clara segurou o pulso dele para afastar. Em vez disso, ficou. O beijo foi mais firme que os outros. Menos pergunta, mais fome. Quando ele a puxou pela cintura, Clara deixou por alguns segundos que o corpo respondesse antes da culpa.
Depois empurrou.
— Para.
André soltou imediatamente.
— Tá.
— Não faz isso virar delicadeza.
— Eu parei.
— Eu sei. É por isso que está pior.
Ela passou as costas da mão na boca e viu um pouco de batom na pele. A imagem lhe deu uma náusea curta.
— Eu vou embora.
— Clara.
— Não manda mensagem.
— Você vai bloquear de novo?
— Vou.
— Até desbloquear?
A frase acertou porque era possível. Clara não respondeu. Saiu da praça andando rápido, com a bolsa batendo no quadril. Na primeira esquina, entrou numa loja de cosméticos, comprou lenços umedecidos, tirou o batom no espelho pequeno perto do caixa. A vendedora perguntou se queria experimentar outro tom. Clara disse que não.
No caminho para casa, pensou em não contar.
Foi a primeira vez em que pensou nisso como plano inteiro, não como reflexo. Entrar, guardar as compras, dizer que a farmácia estava cheia. Tomar banho. Jogar fora o recibo da loja. Bloquear André. Deixar que aquela tarde virasse uma coisa sem consequência externa. Ela sabia fazer. Sabia exatamente onde a mentira encaixaria.
Subiu as escadas em vez de pegar elevador.
Renato estava na sala, em pé, perto da estante desmontada. Havia livros empilhados no chão, um pano úmido sobre a mesa, a expressão de alguém que tentou ocupar as mãos e falhou.
— Você demorou — ele disse.
Clara fechou a porta.
— Eu sei.
Ele olhou para a bolsa.
— Comprou?
Ela tirou o sabonete, o absorvente, o algodão, os lenços umedecidos. Renato viu os lenços. Clara viu que ele viu.
— Eu encontrei o André.
O silêncio que veio depois não era novo. Mesmo assim, Clara não reconheceu o tamanho dele.
— Encontrou como?
— Eu marquei.
Renato ficou imóvel.
— Você marcou.
— Marquei.
— Quando?
— Hoje. Quer dizer, a conversa começou na quarta.
Ele passou a mão pela boca. O gesto era conhecido, mas a pessoa parecia outra.
— Desde quarta.
— Sim.
— Você estava falando com ele desde quarta.
— Sim.
— E hoje, na porta, eu perguntei se tinha alguma coisa que você precisava me dizer antes de sair.
Clara sentiu a frase se fechar em volta dela.
— Perguntou.
— E você disse não.
— Disse.
Renato olhou para os livros no chão, depois para a parede, como se procurasse uma saída que não fosse a porta.
— Teve beijo?
— Teve.
— Só beijo?
Ela odiou a pergunta. Odiou ter feito a pergunta necessária.
— Beijo. Ele me puxou. Eu deixei um pouco. Eu parei. Não teve sexo.
Renato riu uma vez. Um som seco.
— Que bom que agora a gente tem boletim técnico.
— Eu estou tentando ser precisa.
— Você está tentando não dizer amasso porque acha que beijo parece menor.
Clara calou. Ele tinha razão suficiente.
— Teve amasso?
— Teve.
Renato fechou os olhos. Quando abriu, estavam molhados, mas ele não chorou.
— Eu não consigo.
— Renato.
— Não.
Ele pegou a mochila que estava ao lado do sofá. Clara percebeu que ela já estava ali, aberta, com uma camiseta dentro. Talvez ele tivesse preparado antes. Talvez tivesse começado a preparar quando ela demorou. Talvez desde domingo.
— Você vai para onde?
— Hotel.
— Eu posso sair.
— Não quero que você organize minha saída.
Ela deu um passo.
— Por favor.
— Não pede agora.
— Eu errei muito.
— Errou? Clara, quarta, quinta, sexta, sábado. Eu te perguntei na porta.
Ela sentiu as pernas fracas.
— Eu não sei o que acontece comigo.
— Eu sei menos ainda e estou cansado de estudar.
Renato colocou o carregador na mochila. Foi até o quarto, voltou com uma calça dobrada. Clara ficou no meio da sala sem saber se podia existir ali.
— Você ama ele? — ele perguntou da porta do quarto.
— Não.
— Ótimo. Nem isso para justificar.
— Eu amo você.
Ele parou. A frase não o alcançou como antes.
— Eu acredito.
— Então...
— Esse é o problema. Eu acredito e não adianta.
Clara começou a chorar.
— Eu vou procurar ajuda. Eu prometo. Eu faço qualquer coisa.
— Você prometeu antes com outros nomes.
— Eu sei.
— Não sabe. Se soubesse, não teria saído hoje depois da minha pergunta.
Ele fechou a mochila. O zíper fez um som pequeno, definitivo demais.
— Eu não estou dizendo que acabou — Renato falou.
Clara segurou essa frase como quem segura uma beirada.
— Mas eu preciso passar uma noite sem olhar para você e tentar adivinhar o que sobrou de mim.
— Posso te ligar?
— Não.
— Mensagem?
— Só se for emergência real. Incêndio, hospital, morte. Não culpa.
Ela assentiu, chorando sem som.
Renato pegou a chave do carro. Na porta, virou-se.
— Bloqueia André se quiser. Não bloqueia se quiser. Hoje isso não me prova nada.
Saiu.
Dessa vez bateu a porta sem força, mas a casa recebeu como se fosse estrondo.
Clara ficou no mesmo lugar até o corredor do prédio engolir o barulho dos passos dele. Depois foi até a janela da sala e viu Renato atravessar a calçada, mochila no ombro, cabelo ainda úmido do banho que tomara para esperar melhor ou para não esperar. Ele entrou no carro e ficou alguns segundos parado antes de ligar.
Quando saiu, não olhou para cima.
O celular de Clara vibrou no sofá.
André:
“Você chegou?”
Ela olhou para a mensagem até a tela apagar.
Não respondeu. Bloqueou. Apagou. Fez tudo certo tarde demais.
Na cozinha, a travessa do almoço de domingo ainda estava dentro da pia, com uma mancha de molho seco no canto. Clara abriu a torneira. A água bateu no vidro, respingou na blusa, correu pelos braços. Ela pegou a esponja, colocou detergente demais e começou a esfregar até a mão doer.
Às onze e quarenta, Renato mandou uma mensagem.
“Cheguei. Não vou responder hoje.”
Clara sentou no chão da cozinha, com as costas no armário. Escreveu três respostas diferentes e apagou as três. Todas pediam alguma coisa, mesmo quando fingiam só agradecer.
Por fim, colocou o celular no chão, longe da mão.
Naquela noite, pela primeira vez, Clara não teve medo de Renato ir embora.
Teve medo de ele estar certo.