Capítulo 3 - O Perdão Na Pia
Clara acordou antes de Renato e não soube o que fazer com a vantagem.
O quarto ainda estava escuro nas beiradas. A cortina fina deixava passar uma luz cinza, de manhã que não tinha decidido se abriria sol ou chuva. Renato dormia de costas, um braço fora do lençol, a mão aberta perto da borda da cama. Não parecia calmo. Mesmo dormindo, tinha a boca apertada, como se continuasse segurando uma resposta.
Clara ficou imóvel. Qualquer movimento podia virar pedido. Qualquer cuidado podia parecer encenação. Ela pensou em levantar, preparar café, lavar a louça da noite anterior. Pensou em ficar deitada até ele acordar e deixar que a primeira palavra fosse dele. Pensou em tocar a mão dele.
Não tocou.
Saiu da cama devagar, pegou uma calça no escuro e vestiu a primeira blusa que encontrou na cadeira. No corredor, o ar estava frio. A cozinha guardava a cena da noite anterior com uma crueldade doméstica: dois pratos quase intactos sobre a mesa, arroz seco na borda da panela, um copo com marca de dedo, o celular dela apagado perto do saleiro.
Clara olhou para o aparelho antes de olhar para qualquer outra coisa.
Não havia luz, som, cobrança. Só o retângulo morto. Ela ligou o carregador na tomada ao lado da fruteira e esperou a tela acender. A maçã desenhada na capinha refletiu a luz fraca da janela. Quatro por cento. Nenhuma mensagem apareceu, porque não havia internet ainda, porque ela tinha apagado a conversa, porque o mundo às vezes demorava alguns segundos para voltar a acusar.
Ela deixou o celular virado para cima.
Começou pela louça. Abriu a torneira baixa, tentando não acordar Renato. A água bateu na panela com barulho maior do que o previsto. Clara fechou um pouco mais. Esfregou o prato dele primeiro. Não sabia por quê. Talvez porque o prato dele tivesse ficado com mais comida, talvez porque tudo nela agora procurasse uma ordem moral em tarefas pequenas.
Quando a esponja passou pela faca, ela se cortou.
Foi pouco, uma linha vermelha no indicador. Clara olhou para o sangue. Apertou o dedo com o pano de prato e riu uma vez, sem som.
— Se machucou?
Renato estava na entrada da cozinha. Cabelo amassado, camiseta da noite anterior, rosto inchado de sono ruim. Clara não o tinha ouvido chegar.
— Foi nada.
— Perguntei se se machucou.
Ela mostrou o dedo. Ele atravessou a cozinha sem pressa e abriu a gaveta onde ficavam os curativos. Pegou um, tirou o papel com uma concentração excessiva e estendeu para ela. Não encostou na mão dela.
— Obrigada.
— Uhum.
Clara enrolou o curativo torto. Renato olhou, fez uma careta quase automática.
— Está horrível.
— Eu sei.
Ele pegou outro curativo. Dessa vez segurou o dedo dela com cuidado. O contato foi tão simples que Clara precisou respirar pela boca. Renato percebeu e soltou antes de terminar.
— Faz você.
Ela terminou. A água continuava correndo em fio. Renato fechou a torneira.
— Não precisa lavar tudo agora.
— Eu precisava fazer alguma coisa.
— Fazer alguma coisa não muda ontem.
— Eu sei.
Ele apoiou as costas na pia, braços cruzados. Clara esperou que viesse a pergunta grande. Em vez disso, Renato olhou para a mesa.
— Você quer café?
— Quero.
— Eu também.
Fizeram juntos sem combinar. Clara colocou o filtro, Renato encheu a chaleira. Ela mediu o pó com a colher rasa que sempre usavam. Ele pegou duas xícaras, depois hesitou diante da terceira, a caneca lascada onde Clara gostava de tomar café quando estava com pressa. Escolheu as duas xícaras brancas. Clara viu a escolha e não comentou.
O café desceu devagar. O cheiro ocupou a cozinha antes das palavras. Renato bebeu em pé. Clara sentou na cadeira da noite anterior, porque fugir dela seria dar importância demais ao móvel.
— Você dormiu? — ela perguntou.
— Um pouco.
— Eu também.
— Eu sei. Você levantou duas vezes.
Clara baixou os olhos.
— Não queria te acordar.
— Acordou.
— Desculpa.
Ele apoiou a xícara na pia.
— Eu não aguento essa palavra hoje.
Clara assentiu. Pegou a própria xícara com as duas mãos. O café estava quente demais, mas era bom ter algo que justificasse ficar parada.
Renato passou a mão no rosto. Escolhia entre várias frases ruins.
— Eu fiquei pensando se você teria contado se eu não tivesse percebido nada naquela noite.
— Eu contei.
— Não foi isso que perguntei.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu não sei.
Renato assentiu. A resposta doeu menos por ser honesta e mais por ser possível.
— Você apagou a conversa porque queria apagar ou porque eu estava olhando?
— Porque eu queria apagar. Mas eu também queria que você visse que eu apaguei.
— Para eu te perdoar mais rápido?
— Talvez.
Ele riu pelo nariz, uma coisa sem alegria.
— Obrigado pela honestidade horrível.
Clara segurou a xícara com mais força.
— Eu não quero te perder.
— Isso eu acredito.
— Mas não basta?
— Não sei.
A frase ficou entre eles, suspensa, mais difícil de atravessar do que um não. Renato pegou os pratos da mesa e levou para a pia. Clara levantou para ajudar. Ele não impediu. Lavaram lado a lado, sem dividir tarefas como antes. Antes, Renato ensaboava e Clara enxaguava, ou o contrário, com implicâncias sobre economia de água e quem deixava arroz grudado no garfo. Agora cada um pegava uma peça, lavava, enxaguava, colocava no escorredor. Duas pessoas trabalhando no mesmo lugar sem formar exatamente uma dupla.
Quando a pia ficou vazia, Renato passou um pano na bancada. Clara guardou o arroz numa vasilha pequena, embora soubesse que ninguém comeria. A casa começou a parecer habitável de novo. Isso também era injusto.
— Eu ainda te amo — Renato disse.
Clara parou com a tampa na mão.
— Eu sei.
— Não responde como se isso resolvesse.
— Não resolve.
— E eu não sei se amar você agora é coragem ou falta de amor próprio.
Ela sentiu a frase entrar devagar. Não tinha defesa.
— Eu não quero que você vire uma pessoa que precisa se diminuir para ficar comigo.
— Eu também não.
— Mas você me colocou nesse lugar.
— Coloquei.
Renato encostou o pano na borda da pia e ficou olhando para a janela. No prédio da frente, alguém pendurava roupas numa área de serviço estreita. Uma toalha azul, duas camisetas pretas, um lençol com flores pequenas. A normalidade dos outros era uma afronta.
— Eu queria te odiar um pouco — ele disse.
— Consegue?
— Não do jeito que ajudaria.
Clara se aproximou meio passo. Renato não se afastou. Também não abriu espaço.
— Eu posso ir para a casa da minha mãe por uns dias.
— Para todo mundo perguntar?
— Eu invento alguma coisa.
— Não começa outra mentira para administrar a primeira.
Ela calou.
Renato respirou fundo.
— Fica.
Clara não chorou. A vontade veio, mas ela segurou, porque chorar ali teria o tamanho errado.
— Fico.
— Isso não é perdão ainda.
— Eu sei.
— Eu não vou dormir no sofá para você se sentir punida, nem vou fingir que está tudo bem para você se sentir salva. Eu só... — ele parou, irritado com a própria falta de palavra. — Eu só não quero que você vá embora hoje.
— Eu não vou.
Ele assentiu. Pegou a chaleira vazia e colocou água de novo, embora ainda houvesse café. Clara entendeu que ele precisava do gesto, não da bebida.
Passaram o domingo dentro de casa.
Renato trocou a lâmpada do corredor, que piscava havia semanas. Clara segurou a escada. Ele subiu descalço, contrariando todas as recomendações que ele mesmo costumava fazer. Ela pensou em dizer cuidado. Não disse. Ele trocou a lâmpada, desceu, testou o interruptor três vezes.
— Ficou bom — ela disse.
— Era uma lâmpada, Clara.
— Eu sei.
Ele pareceu se arrepender do tom, mas não pediu desculpa. Ela ficou grata por isso. Se ele começasse a protegê-la da própria raiva, a casa ficaria insuportável.
À tarde, Clara fez uma sopa que nenhum dos dois queria. Cortou cenoura, batata, cebola. Renato sentou à mesa e separou contas antigas de uma gaveta, jogando fora comprovantes que guardavam por mania. Em certo momento, encontrou o recibo do restaurante da semana anterior. Ficou olhando para o papel.
Clara viu.
— Pode jogar fora.
— Eu sei que posso.
Ele dobrou o recibo ao meio e depois em quatro. Não jogou no lixo. Deixou ao lado do monte de papéis úteis.
Na hora da sopa, comeram pouco. A televisão ficou ligada na sala, sem som, num programa de reforma de casas. Pessoas sorriam diante de cozinhas novas como se uma bancada pudesse salvar uma vida.
Antes de dormir, Renato perguntou:
— Você vai voltar ao curso?
Clara tinha esperado a pergunta o dia inteiro.
— Não sei.
— Quer voltar?
— Quero.
Ele fechou os olhos por um segundo. Estavam no quarto, cada um de um lado da cama, ainda de roupa. O celular dela carregava na tomada da sala.
— Davi vai estar lá.
— Eu sei.
— Você quer ver ele?
Clara sentou na beira da cama.
— Uma parte de mim quer.
Renato passou a língua pelos dentes, segurando uma reação.
— Você podia mentir.
— Podia.
— Ia ser mais confortável por uns dez minutos.
— Eu não quero mais te dar dez minutos confortáveis que viram outra coisa depois.
Ele olhou para ela. Pela primeira vez desde a confissão, havia algo ali que não era só ferida. Não era confiança. Talvez fosse o reconhecimento miserável de uma tentativa.
— Então não volta por enquanto.
Clara assentiu.
— Tá.
— Não porque eu estou mandando.
— Porque eu ainda não sei ficar longe do risco.
Renato respirou como se aquela frase tivesse sido o golpe e o remédio.
— Isso.
Na segunda-feira, foram trabalhar. Sempre saíam separados às segundas, só que a despedida na porta do apartamento virou uma cena nova. Renato pegou a mochila, procurou a chave, esqueceu o crachá, voltou para buscar. Clara ficou perto do aparador, sem saber se beijava o rosto dele.
Ele abriu a porta, parou e se virou.
— Eu não sei como sair.
— Como assim?
— Não sei se te dou beijo, se não dou, se digo até logo.
Clara sentiu uma tristeza miúda, quase boba, por uma coisa que antes não precisava de protocolo.
— Diz até logo.
— Até logo.
— Até.
Ele saiu. Sem beijo. Clara fechou a porta e encostou a testa na madeira.
Durante a semana, eles construíram uma normalidade provisória. Jantaram juntos duas vezes. Em uma delas, Renato contou uma história do trabalho sobre um estagiário que enviara um e-mail para a empresa inteira sem anexo. Clara riu no lugar certo. Renato também riu, depois ficou sério, como se lembrasse que ainda não tinha autorizado aquele tipo de alívio.
Na quarta, ele perguntou se ela tinha falado com Davi. Clara disse que não. Era verdade. Na quinta, ele não perguntou. Isso a deixou mais nervosa do que a pergunta.
Na sexta, Clara saiu mais cedo do trabalho para comprar pilhas para o controle do ar-condicionado. A loja ficava dentro de uma galeria antiga no centro, com vitrines estreitas e piso manchado. Comprou as pilhas, depois parou diante de uma vitrine de roupas sem realmente olhar as roupas. Havia um vestido verde no manequim, uma bolsa pequena demais para servir a qualquer pessoa real, brincos dourados em suporte de veludo.
No reflexo do vidro, viu um homem parado alguns passos atrás.
Não era Davi. Era mais velho, talvez quarenta, camisa clara, uma sacola de livraria na mão. Olhava para a vitrine, ou para ela dentro da vitrine. Clara não soube. O homem desviou primeiro, depois voltou a olhar. Foi um gesto mínimo, sem convite declarado. Justamente por isso, entrou nela com uma precisão que a assustou.
Clara tocou a aliança com o polegar.
Podia sair andando. Saiu. Entrou na primeira loja aberta, comprou uma lâmpada que não precisava e pagou sem conferir a voltagem. Quando voltou para a rua, o homem não estava mais lá.
No ônibus para casa, com a lâmpada dentro da sacola e as pilhas esquecidas no fundo da bolsa, Clara sentiu a mesma vergonha do estacionamento, só que sem beijo, sem Davi, sem desculpa externa. O risco não tinha rosto fixo. Isso era pior.
Renato estava na cozinha quando ela chegou, mexendo uma panela de molho pronto com a expressão de quem fingia cozinhar.
— Comprei pilha — ela disse.
— Graças a Deus. O ar-condicionado voltará à civilização.
Ela colocou a sacola sobre a mesa. A lâmpada rolou para fora.
Renato olhou.
— A pilha veio fantasiada?
Clara quase riu. Quase. Depois sentou.
— Eu preciso te contar uma coisa pequena antes que vire grande dentro de mim.
Renato desligou o fogo. Não se virou de imediato. A colher ficou parada na mão dele.
— Fala.
— Um homem olhou para mim na galeria. Eu não conheço. Não aconteceu nada. Eu fui embora. Mas eu gostei.
O silêncio foi diferente do outro. Menor, talvez. Mais triste do que surpreso.
Renato virou.
— Gostou de quê?
— De perceber.
— Que podia acontecer de novo?
Clara apertou a sacola da lâmpada.
— Que eu queria que pudesse.
Ele apoiou a colher na pia. O molho respingou no azulejo branco.
— E você comprou uma lâmpada.
— Comprei.
— Para fazer o quê?
— Para sair dali.
Renato passou a mão no rosto, cansado de um jeito novo.
— A lâmpada pelo menos é da voltagem certa?
Clara olhou a caixa. Só então viu o número.
— Não.
Ele riu. Não era um riso feliz. Também não era cruel. Era o som quebrado de uma pessoa reconhecendo a vida insistindo em ser ridícula no meio da tragédia.
Clara riu junto, pouco, com medo de estragar.
Renato sentou à mesa. Ficaram os dois olhando para a lâmpada errada entre eles.
— Eu te perdoo pelo beijo — ele disse, enfim.
Clara não respirou.
— Renato...
— Não interrompe. Eu te perdoo pelo beijo. Não sei perdoar ainda o jeito como você me colocou para desconfiar da minha própria percepção. Não sei perdoar o que pode vir depois. Não sei se perdoar significa continuar igual, porque igual já não existe.
Ela assentiu devagar.
— Eu entendo.
— Não entende tudo.
— Não.
Ele olhou para a lâmpada.
— Mas você contou isso agora. Antes de virar mensagem, banheiro, estacionamento.
— Contei.
— Então talvez a gente tenha alguma coisa para salvar. Não bonita. Não limpa. Alguma coisa.
Clara colocou a mão sobre a mesa, longe da dele. Renato olhou para a mão. Demorou. Depois colocou a própria mão ao lado, sem cobrir.
Não era perdão inteiro.
Mas era uma forma de não levantar da mesa.