Capítulo 5 - A Regra Torta
Renato dormiu no sofá e acordou com dor no pescoço.
Clara ouviu quando ele se mexeu na sala. Era cedo, mas a luz já entrava pela fresta da cortina e cortava o corredor em uma faixa pálida. Ela não tinha dormido direito. Passara a noite virada para a parede, contando barulhos: o motor da geladeira, uma moto na rua, Renato mudando de posição no sofá, o próprio coração quando a casa ficava quieta demais.
A camisa azul continuava no chão da área de serviço.
Clara tinha pensado em lavar. Pensou em jogar fora. Pensou em deixar exatamente onde estava para que Renato não achasse que ela tentava limpar a cena sem autorização. No fim, não fez nada. A camisa passou a noite ali, caída perto do tanque, com uma manga dobrada sob o corpo como se também tivesse dormido mal.
Quando Clara saiu do quarto, Renato estava sentado no sofá, a manta no colo, uma mão na nuca. A mesa de centro tinha um copo vazio, o controle remoto e o celular dele virado para baixo.
— Bom dia — ela disse.
Ele olhou para a janela antes de olhar para ela.
— Bom dia.
— Quer café?
— Quero.
Ela foi para a cozinha. Renato veio depois, devagar. O sofá tinha deixado uma marca vermelha no braço dele. Clara viu e não comentou. Preparou o café medindo o pó com cuidado demais. Ele encostou na bancada, ainda com a mão na nuca.
— Você podia ter dormido no quarto — ela disse.
— Podia.
— Eu teria ido para o sofá.
— Eu sei.
— Por que não deixou?
Renato soltou o ar pelo nariz.
— Porque eu não queria trocar de lugar com você numa cena em que eu continuo sem saber onde fico.
Clara colocou o filtro no suporte. A frase tinha lógica e não tinha. Como quase tudo desde o primeiro beijo.
— Seu pescoço está doendo.
— Bastante.
— Posso pegar remédio.
— Não precisa.
— Renato.
— Clara, se você cuidar de cada dor pequena minha hoje, eu vou acabar te agradecendo por coisa que você mesma ajudou a causar.
Ela fechou a gaveta dos talheres devagar.
— Tá.
O café desceu. Ficaram os dois olhando. Antes, esse intervalo era preenchido por uma piada qualquer, uma reclamação sobre o preço do pó, uma disputa sobre quem tinha esquecido de comprar filtro. Agora o silêncio parecia uma terceira pessoa na cozinha, sentada entre eles, tomando espaço.
Renato apontou para a área de serviço.
— O que você vai fazer com a camisa?
Clara olhou para o corredor.
— Não sei.
— Eu também não.
— Posso lavar separada.
— E depois?
— Depois eu guardo.
— Você quer guardar?
Ela demorou.
— Não.
— Então joga fora.
— Parece teatro.
— Tudo parece teatro agora.
A água terminou de passar pelo pó. Clara desligou a chaleira e serviu duas xícaras. Renato pegou a dele sem tocar na mão dela.
— Eu fiquei pensando numa coisa — ele disse.
— No quê?
— Você me contar depois não me deixa participar da verdade. Só me entrega o resultado.
Clara segurou a xícara com as duas mãos.
— Eu sei.
— Não sabe, não. Se soubesse, ontem teria mandado a mensagem que apagou.
Ela levantou os olhos.
— Você não sabe dessa mensagem.
— Eu sei que teve uma. Você chegou com cara de quem apagou metade da noite antes de entrar pela porta.
Clara sentiu o rosto esquentar. Renato bebeu um gole de café e fez uma careta; estava quente demais.
— O que você ia escrever?
— Que eu estava na varanda com um fornecedor que fumava. Que ia voltar para dentro.
— E por que não mandou?
— Porque se eu mandasse, você ia saber antes de mim que eu estava no limite.
— Essa é exatamente a parte que importava.
Ela pousou a xícara na mesa.
— Eu tive vergonha.
— De estar no limite ou de me avisar?
— Dos dois.
Renato assentiu como se confirmasse algo que já doía.
— Então contar depois vira uma versão melhorada da mentira.
— Não é mentira.
— Não. É pior de explicar. Você chega, me dá a verdade fechada, com começo, meio e fim, e eu fico aqui tentando descobrir onde eu poderia ter existido antes do estrago.
Clara olhou para a própria mão. O curativo do corte de dias antes já tinha saído, mas ainda havia uma linha clara no dedo.
— Você queria ter impedido?
— Não sei. Talvez eu quisesse ter sido lembrado antes.
Essa frase encontrou um lugar mais fundo que as outras. Clara pensou no celular vibrando na bolsa, no texto que apagou, na decisão pequena que separou a varanda do apartamento. Renato não queria vigiar. Queria existir a tempo.
— Eu lembrei de você — ela disse.
— Lembrou e ficou.
— Sim.
— Então lembrar não basta.
O café esfriou um pouco. Clara bebeu e sentiu o amargo.
— O que você quer que eu faça?
— Não me pergunta assim.
— Eu estou perguntando porque não sei.
— Parece que eu tenho que criar o manual da pessoa que me traiu duas vezes.
Clara fechou os olhos.
— Desculpa.
Renato afastou a xícara.
— Eu também estou cansado de ser justo.
Ela não disse nada.
— Ontem, quando você falou Mauro, eu odiei o nome. Depois eu odiei Davi por parecer menor. Depois percebi que não importava o nome. Isso me deu medo. Porque se não importa o nome, eu não tenho contra quem brigar.
— Você pode brigar comigo.
— Eu estou brigando.
— Não parece.
— Porque se eu fizer do jeito que dá vontade, talvez eu não volte.
Clara sentiu a ameaça como um fato, não como chantagem. Renato podia ir embora. Até então, mesmo nas piores frases, havia uma espécie de chão: o casamento ferido, mas ali. Agora o chão se mexeu.
— Eu não quero que você fique só porque ainda me ama.
— Eu também não.
— E você está ficando por quê?
Renato olhou para a janela. No prédio em frente, uma mulher regava plantas pequenas com um copo de requeijão. A água escorria pela parede e caía no vazio.
— Porque eu não sei sair sem arrancar uma parte minha junto.
Clara levou a mão à boca. Renato levantou antes que ela chorasse.
— Vou tomar banho.
— Renato.
— Depois a gente fala.
Ele saiu da cozinha. Clara ficou com as duas xícaras, a camisa na área de serviço e uma pergunta impossível: como se repara uma coisa que continua acontecendo enquanto se tenta reparar?
Jogou a camisa fora.
Não fez cerimônia. Pegou uma sacola de mercado, colocou a peça dentro, amarrou duas vezes e levou ao lixo do corredor. O cheiro de cigarro subiu quando a camisa se mexeu. Clara prendeu a respiração. Na volta, lavou as mãos sem precisar. Depois tirou o lixo da lixeira da cozinha também, porque a sacola parecia pequena demais para carregar sozinha o que tinha acontecido.
Renato saiu do banho com outra camiseta e o cabelo molhado. Viu a área de serviço vazia.
— Jogou fora?
— Joguei.
— Melhorou?
— Não.
— Pelo menos é honesto.
Passaram a manhã sem encontrar uma forma de continuar a conversa. Renato abriu o notebook na mesa da sala e fingiu resolver trabalho atrasado. Clara varreu a casa, limpou a bancada, organizou uma gaveta de panos que não precisava ser organizada. Às onze e meia, ela perguntou se ele queria almoçar. Ele disse que não estava com fome. À uma, pediu desculpa por ter respondido daquele jeito. Ela disse que tudo bem, embora não estivesse.
À tarde, a chuva começou. Primeiro fraca, depois cerrada, batendo na janela da sala. A televisão estava ligada sem volume. Clara sentou no chão perto da estante, separando livros que nunca seriam doados. Renato fechou o notebook.
— Vem aqui.
Ela levantou devagar. Sentou na poltrona, não no sofá ao lado dele.
— Aqui, Clara.
Ela sentou no sofá, deixando um espaço entre os dois.
Renato olhou para esse espaço.
— Eu pensei numa coisa. E é ruim.
— Fala.
— Se acontecer de novo...
Ela encolheu um pouco.
— Eu não quero que aconteça.
— Eu também não queria da segunda vez.
— Eu sei.
— Se acontecer de você sentir que está indo para esse lugar, eu quero saber antes.
Clara demorou a entender, ou fingiu demorar para ter alguns segundos a mais.
— Antes?
— Antes de beijo. Antes de varanda. Antes de banheiro. Antes da frase que você apaga.
— E você faria o quê?
— Não sei.
— Me mandaria voltar?
— Talvez.
— E se eu voltasse só porque você mandou?
— Eu odiaria isso também.
— Então para quê?
Renato esfregou os olhos com o polegar e o indicador.
— Porque eu prefiro ser colocado no inferno antes da porta fechar do que depois que você já saiu e voltou com a chave no bolso.
Clara sentiu a frase como uma imagem concreta demais. A porta, a chave, o lado de fora.
— Isso não é justo com você.
— Nada disso é.
— Você não devia ter que receber uma mensagem minha dizendo que talvez eu beije alguém.
— Eu sei.
— Isso pode te destruir mais.
— Pode.
— Então por que está propondo?
Renato olhou para ela, e havia ali uma exaustão sem pose.
— Porque estou tentando não te perder e não me perder ao mesmo tempo, e aparentemente sou péssimo em escolher métodos.
Clara chorou. Dessa vez não tentou esconder. Renato não a abraçou. Mas também não se afastou.
— Eu tenho medo de usar isso — ela disse.
— Como?
— Como permissão. Como se avisar tornasse menos errado.
— Eu também tenho.
— E se eu avisar para dividir a culpa?
— Aí eu vou perceber tarde demais e te odiar por isso.
Ela riu chorando, uma coisa curta.
— Ótimo plano.
— Péssimo.
Ficaram quietos. A chuva batia forte. Um carro passou na rua levantando água.
— Mas se a alternativa é você me contar depois, eu não aguento — Renato disse.
Clara enxugou o rosto com a manga.
— Tá.
— Não responde tá como se eu tivesse pedido para comprar pão.
— Eu não sei responder.
— Responde a verdade.
Ela respirou fundo.
— Eu topo. Mas eu tenho medo de falhar.
— Eu também tenho medo de você falhar.
— E se eu falhar?
Renato olhou para a televisão muda. Na tela, alguém comemorava alguma coisa num auditório colorido.
— Aí talvez eu vá embora.
Clara assentiu. Era a primeira regra que vinha com uma consequência real, mesmo sem ameaça desenhada.
— Então é isso — ela disse. — Se eu perceber que estou perto de alguma coisa, eu te aviso antes.
— Antes de responder mensagem também.
— Antes de responder mensagem que não seja só mensagem.
— Você sabe a diferença?
— Nem sempre.
— Então quando não souber, avisa.
Ela encostou a cabeça no sofá, olhando para o teto.
— Isso é ridículo.
— É.
— Parece uma coleira para os dois.
— É uma coleira com duas pontas e nenhum cachorro.
Clara olhou para ele, surpresa. Renato percebeu a própria frase e quase sorriu. Quase. O quase bastou para abrir um espaço mínimo de ar.
— Eu odeio essa imagem — ela disse.
— Eu também.
— Mas entendi.
Ele assentiu. Pegou o celular na mesa de centro e colocou entre os dois, objeto da nova regra.
— Você bloqueou o Davi?
— Não.
Renato fechou os olhos.
— Por quê?
— Porque no dia eu achei que bloquear na sua frente seria teatro. Depois... acho que eu quis guardar a possibilidade de ele aparecer.
— Obrigado por continuar escolhendo a resposta que mais machuca.
— Você pediu a verdade.
— Pedi. Estou reclamando do serviço, não do produto.
Clara respirou pelo nariz. Pegou o celular. Procurou o contato de Davi. A conversa tinha sido apagada, mas o número estava ali, no grupo do curso, na lista de contatos recentes, nos lugares onde a vida digital guarda o que a pessoa finge encerrar. Bloqueou. Depois apagou o contato.
— Mauro?
— Eu não tenho o contato dele.
— Mas pode encontrar.
— Posso.
— E se encontrar?
— Aviso antes.
Renato olhou para o celular dela.
— Quero acreditar que isso significa alguma coisa.
— Eu também.
— Não usa meu querer contra mim.
— Eu vou tentar não usar.
— Clara.
— Eu não vou usar.
Ele aceitou a correção. A chuva diminuiu. A sala ficou cheia de um silêncio menos agressivo, mas não exatamente pacífico.
Mais tarde, foram a uma farmácia porque Renato insistiu que precisava comprar algo para o pescoço. Clara ofereceu ficar em casa. Ele disse que não, sem explicar se a queria por perto ou se não queria deixá-la sozinha com o próprio telefone.
A farmácia estava quase vazia. O segurança assistia a um vídeo baixo no celular. Uma mulher escolhia esmaltes como se cada cor exigisse uma decisão moral. Renato parou diante das prateleiras de analgésicos e leu caixas com seriedade excessiva.
— Você quer pomada ou comprimido? — Clara perguntou.
— Quero um pescoço novo.
— Acho que fica no corredor ortopédico.
Ele soltou um riso pequeno, mais pelo hábito do que pela graça. Clara pegou uma caixa de pastilhas para garganta sem perceber.
— Isso é para garganta — ele disse.
Ela olhou a caixa.
— Eu sei.
— Seu plano é curar meu pescoço por dentro?
Clara quase devolveu à prateleira, mas Renato pegou a caixa da mão dela.
— Leva. Pelo menos se eu ficar sem voz a gente descansa das conversas horríveis.
Dessa vez ela riu de verdade, e ele também. Por três segundos, a farmácia não foi cenário de pacto nenhum. Foi só uma farmácia, uma sexta chuvosa, duas pessoas cansadas comprando o remédio errado.
Na fila do caixa, o celular de Clara vibrou.
Ela congelou antes de olhar. Renato viu.
— Olha.
Clara desbloqueou. Era Janaína.
“Você chegou bem quinta? Sumiu.”
Clara mostrou a tela para Renato.
— É a Janaína.
— Eu vi.
— Posso responder?
Ele fechou os olhos por um instante, como se odiasse o tamanho pequeno da pergunta.
— Pode.
Clara digitou devagar:
“Cheguei. Dor de cabeça mesmo. Segunda te conto.”
Mostrou antes de enviar. Renato fez um gesto com a mão.
— Não precisa me mostrar tudo.
— Eu não sei ainda o que precisa.
Ele olhou para ela. O caixa chamou o próximo. Renato colocou as pastilhas, a pomada e um pacote de algodão que ninguém lembrava de ter pegado sobre o balcão.
— Nem eu — ele disse.
Clara enviou a mensagem.
Na volta para casa, Renato dirigiu com cuidado por causa da pista molhada. As sacolas da farmácia ficaram no colo dela. A caixa de pastilhas fez um barulho seco quando o carro passou por um buraco.
— Você comprou algodão — Clara disse.
— Você pegou.
— Eu?
— Acho que sim.
— Para quê?
— Para estancar o casamento, talvez.
A frase saiu antes que ele medisse. Clara olhou para ele. Renato manteve os olhos na rua, mas a boca tremeu num quase riso envergonhado. Ela riu primeiro. Depois ele. Não era alívio. Era só uma rachadura por onde entrou ar.
Em casa, guardaram as coisas. Renato passou pomada no pescoço sozinho, diante do espelho do banheiro. Clara ficou na porta.
— Quer ajuda?
— Quero.
Ele entregou a bisnaga.
Clara espalhou a pomada devagar na nuca dele. Os dedos tocaram a pele quente, a curva tensa dos ombros. Renato fechou os olhos. O gesto era cuidado e ferida ao mesmo tempo. Ela terminou e lavou as mãos. Quando voltou, ele ainda estava diante do espelho.
— Eu não sei se a regra salva alguma coisa — ele disse.
— Eu também não.
— Mas agora ela existe.
Clara encostou no batente.
— Existe.
No quarto, antes de dormir, ela colocou o celular na cabeceira, carregando, virado para cima. Renato viu. Não agradeceu. Deitou-se ao lado dela. Havia espaço entre os corpos, mas menos que na noite anterior.
No escuro, Clara pensou que a regra era horrível.
Pior ainda era sentir algum consolo por tê-la.