Ato II
ATO II
CENA I
Uma fonte no parque.
Entram Pelléas e Mélisande.
PELLÉAS.
A senhora não sabe aonde eu a trouxe?—Venho muitas vezes sentar-me aqui, por volta do meio-dia, quando faz calor demais nos jardins. Hoje a gente sufoca, mesmo à sombra das árvores.
MÉLISANDE.
Oh! A água é clara...
PELLÉAS.
É fresca como o inverno. É uma velha fonte abandonada. Dizem que era uma fonte milagrosa,—ela abria os olhos dos cegos.—Ainda a chamam de “fonte dos cegos”.
MÉLISANDE.
Ela não abre mais os olhos dos cegos?
PELLÉAS.
Desde que o rei está quase cego também, ninguém mais vem aqui...
MÉLISANDE.
Como estamos sós aqui... Não se ouve nada.
PELLÉAS.
Há sempre um silêncio extraordinário... Seria possível ouvir a água dormir... Quer se sentar à beira da bacia de mármore? Há uma tília onde o sol nunca entra...
MÉLISANDE.
Vou me deitar sobre o mármore.—Eu gostaria de ver o fundo da água...
PELLÉAS.
Nunca ninguém o viu.—Talvez ela seja tão profunda quanto o mar.
MÉLISANDE.
Se alguma coisa brilhasse no fundo, talvez se pudesse vê-la...
PELLÉAS.
Não se incline assim...
MÉLISANDE.
Eu queria tocar a água...
PELLÉAS.
Cuidado para não escorregar... Vou segurar sua mão...
MÉLISANDE.
Não, não, eu queria mergulhar nela as duas mãos... Parece que minhas mãos estão doentes hoje...
PELLÉAS.
Oh! oh! cuidado! cuidado! Mélisande!... Mélisande!—Oh! seus cabelos!...
MÉLISANDE, erguendo-se.
Não consigo, não consigo alcançá-la.
PELLÉAS.
Seus cabelos mergulharam na água...
MÉLISANDE.
Sim, eles são mais longos que meus braços... São mais longos que eu...
Um silêncio.
PELLÉAS.
Foi também à beira de uma fonte que ele a encontrou?
MÉLISANDE.
Sim...
PELLÉAS.
O que ele lhe disse?
MÉLISANDE.
Nada;—não me lembro mais...
PELLÉAS.
Ele estava muito perto da senhora?
MÉLISANDE.
Sim, queria me beijar...
PELLÉAS.
E a senhora não queria?
MÉLISANDE.
Não.
PELLÉAS.
Por que não queria?
MÉLISANDE.
Oh! oh! vi alguma coisa passar no fundo da água...
PELLÉAS.
Cuidado! cuidado!—Vai cair!—Com o que está brincando?
MÉLISANDE.
Com o anel que ele me deu...
PELLÉAS.
Não brinque assim, sobre uma água tão profunda...
MÉLISANDE.
Minhas mãos não tremem.
PELLÉAS.
Como ele brilha ao sol!—Não o jogue tão alto para o céu!...
MÉLISANDE.
Oh!...
PELLÉAS.
Ele caiu?
MÉLISANDE.
Caiu na água!...
PELLÉAS.
Onde está? Onde está?
MÉLISANDE.
Não o vejo descer...
PELLÉAS.
Acho que estou vendo-o brilhar...
MÉLISANDE.
Meu anel?
PELLÉAS.
Sim, sim,... Lá adiante...
MÉLISANDE.
Oh! Oh! está tão longe de nós!... não, não, não é ele... já não é ele... Está perdido... perdido... Não há mais que um grande círculo sobre a água... O que vamos fazer agora?...
PELLÉAS.
Não é preciso se inquietar assim por causa de um anel. Não é nada... talvez o encontremos. Ou então encontraremos outro.
MÉLISANDE.
Não, não, nunca mais o encontraremos, também não encontraremos outro... Eu pensava tê-lo nas mãos, no entanto... Eu já havia fechado as mãos, e mesmo assim ele caiu... Joguei-o alto demais, para o lado do sol...
PELLÉAS.
Venha, voltaremos outro dia... venha, está na hora. Viriam ao nosso encontro... O meio-dia soava no momento em que o anel caiu...
MÉLISANDE.
O que vamos dizer a Golaud se ele perguntar onde está?
PELLÉAS.
A verdade, a verdade, a verdade...
Eles saem.
CENA II
Um aposento no castelo.
Vê-se Golaud estendido em seu leito; Mélisande está à sua cabeceira.
GOLAUD.
Ah! ah! tudo vai bem, não será nada. Mas não consigo explicar como aconteceu. Eu caçava tranquilamente na floresta. Meu cavalo disparou de repente, sem razão. Teria visto alguma coisa extraordinária?... Eu acabara de ouvir soarem as doze badaladas do meio-dia. Na décima segunda badalada, ele se assusta subitamente, e corre, como um cego enlouquecido, contra uma árvore. Não sei mais o que aconteceu. Caí, e ele deve ter caído sobre mim. Pensei ter toda a floresta sobre o peito; pensei que meu coração estivesse dilacerado. Mas meu coração é sólido. Parece que não foi nada...
MÉLISANDE.
Quer beber um pouco de água?
GOLAUD.
Obrigado, não tenho sede.
MÉLISANDE.
Quer outro travesseiro?... Há uma pequena mancha de sangue neste.
GOLAUD.
Não, não; não vale a pena.
MÉLISANDE.
Tem certeza?... Não está sofrendo demais?
GOLAUD.
Não, não, já vi coisas bem piores. Sou feito de ferro e sangue...
MÉLISANDE.
Feche os olhos e tente dormir. Ficarei aqui a noite toda...
GOLAUD.
Não, não; não quero que você se fatigue assim. Não preciso de nada; vou dormir como uma criança... O que há, Mélisande? Por que chora de repente?...
MÉLISANDE, desfazendo-se em lágrimas.
Estou... Estou doente aqui...
GOLAUD.
Você está doente?... O que tem, então, o que tem, Mélisande?...
MÉLISANDE.
Não sei... Estou doente aqui... Prefiro lhe dizer hoje; senhor, não sou feliz aqui...
GOLAUD.
O que aconteceu, então?... Alguém lhe fez mal?... Alguém teria ofendido você?
MÉLISANDE.
Não, não; ninguém me fez o menor mal... Não é isso...
GOLAUD.
Mas você deve estar escondendo alguma coisa de mim?... Diga-me toda a verdade, Mélisande... É o rei?... É minha mãe?... É Pelléas?...
MÉLISANDE.
Não, não; não é Pelléas. Não é ninguém... O senhor não pode me compreender... É alguma coisa mais forte do que eu...
GOLAUD.
Vamos; seja razoável, Mélisande.—O que quer que eu faça?—Você já não é uma criança.—É de mim que gostaria de se afastar?
MÉLISANDE.
Oh! não; não é isso... Eu gostaria de ir embora com o senhor... É aqui que eu já não consigo viver... Sinto que não viverei por muito tempo...
GOLAUD.
Mas é preciso haver uma razão, apesar de tudo. Vão pensar que você está louca. Vão pensar em sonhos de criança.—Vamos, talvez seja Pelléas?—Acho que ele não fala muito com você...
MÉLISANDE.
Sim, sim; ele fala comigo às vezes. Acho que não me ama; vi isso nos olhos dele... Mas fala comigo quando me encontra...
GOLAUD.
Não se deve guardar rancor dele por isso. Ele sempre foi assim. É um pouco estranho. Vai mudar, você verá; é jovem...
MÉLISANDE.
Mas não é isso... Não é isso...
GOLAUD.
O que é, então?—Você não consegue se acostumar à vida que se leva aqui? É triste demais aqui?—É verdade que este castelo é muito velho e muito sombrio... É muito frio e muito profundo. E todos os que o habitam já são velhos. E o campo também pode parecer bem triste, com todas as suas florestas, todas as suas velhas florestas sem luz. Mas podemos alegrar tudo isso, se quisermos. E depois, a alegria, a alegria, não a temos todos os dias; é preciso tomar as coisas como elas são. Mas diga-me alguma coisa; qualquer coisa; farei tudo o que você quiser...
MÉLISANDE.
Sim, é verdade... Nunca se vê o céu claro... Eu o vi pela primeira vez esta manhã...
GOLAUD.
Então é isso que a faz chorar, minha pobre Mélisande?—É apenas isso?—Você chora por não ver o céu?—Vamos, você já não está na idade em que se pode chorar por essas coisas... E o verão não está aí? Vai ver o céu todos os dias.—E depois, no ano que vem... Vamos, dê-me sua mão; dê-me suas duas mãozinhas. Ele lhe toma as mãos. Oh! estas mãozinhas que eu poderia esmagar como flores...—Espere, onde está o anel que eu lhe dera?
MÉLISANDE.
O anel?
GOLAUD.
Sim; a aliança de nossas núpcias, onde está?
MÉLISANDE.
Acho... Acho que caiu...
GOLAUD.
Caiu?—Onde caiu?...—Você não a perdeu?
MÉLISANDE.
Não, ela caiu... deve ter caído... Mas não sei onde está...
GOLAUD.
Onde está?
MÉLISANDE.
O senhor sabe bem... o senhor sabe bem... a gruta à beira do mar?
GOLAUD.
Sim.
MÉLISANDE.
Pois bem, foi lá... Tem de ter sido lá... Sim, sim; estou me lembrando... Fui lá esta manhã, apanhar conchas para o pequeno Yniold... Há algumas muito bonitas... Ela escorregou do meu dedo... depois o mar entrou; e tive de sair antes de tê-la encontrado.
GOLAUD.
Tem certeza de que foi lá?
MÉLISANDE.
Sim, sim; absoluta certeza... Senti-a escorregar...
GOLAUD.
É preciso ir buscá-la agora mesmo.
MÉLISANDE.
Agora?—agora mesmo?—no escuro?
GOLAUD.
Agora, agora mesmo, no escuro. Eu preferiria ter perdido tudo o que possuo a ter perdido esse anel. Você não sabe o que ele é. Não sabe de onde ele vem. O mar estará muito alto esta noite. O mar virá tomá-lo antes de você... Depressa.
MÉLISANDE.
Não ouso... Não ouso ir sozinha...
GOLAUD.
Vá, vá com quem quiser. Mas é preciso ir agora mesmo, ouviu?—Depressa; peça a Pelléas que vá com você.
MÉLISANDE.
Pelléas?—Com Pelléas?—Mas Pelléas não vai querer...
GOLAUD.
Pelléas fará tudo o que você lhe pedir. Conheço Pelléas melhor que você. Vá, apresse-se. Não dormirei antes de ter o anel.
MÉLISANDE.
Oh! oh! Não sou feliz!... Não sou feliz!
Ela sai chorando.
CENA III
Diante de uma gruta.
Entram Pelléas e Mélisande.
PELLÉAS, falando com grande agitação.
Sim; é aqui, chegamos. Está tão escuro que a entrada da gruta não se distingue do resto da noite... Não há estrelas deste lado. Esperemos que a lua rasgue esta grande nuvem; ela iluminará toda a gruta e então poderemos entrar sem perigo. Há lugares perigosos e o caminho é muito estreito, entre dois lagos cujo fundo ainda não foi encontrado. Não pensei em trazer uma tocha ou uma lanterna, mas creio que a claridade do céu nos bastará.—A senhora nunca entrou nesta gruta?
MÉLISANDE.
Não...
PELLÉAS.
Entremos... É preciso poder descrever o lugar onde perdeu o anel, se ele a interrogar... Ela é muito grande e muito bela. Está cheia de trevas azuis. Quando se acende ali uma pequena luz, parece que a abóbada está coberta de estrelas, como o céu. Dê-me a mão, não trema, não trema assim. Não há perigo: pararemos no momento em que já não avistarmos a claridade do mar... É o ruído da gruta que a assusta? Ouve o mar atrás de nós?—Ele não parece feliz esta noite... Ah! Eis a claridade!
A lua ilumina amplamente a entrada e uma parte das trevas da gruta; e vêem-se, a certa profundidade, três velhos pobres de cabelos brancos, sentados lado a lado, amparando-se uns aos outros, adormecidos contra um pedaço de rocha.
MÉLISANDE.
Ah!
PELLÉAS.
O que há?
MÉLISANDE.
Há... Há...
Ela mostra os três pobres.
PELLÉAS.
Sim, sim; eu também os vi...
MÉLISANDE.
Vamos embora!... Vamos embora!...
PELLÉAS.
São três velhos pobres que adormeceram... Por que vieram dormir aqui?... Haverá fome no país.
MÉLISANDE.
Vamos embora!... Venha... Vamos embora!...
PELLÉAS.
Cuidado, não fale tão alto... Não os acordemos... Ainda dormem profundamente... Venha.
MÉLISANDE.
Deixe-me; prefiro caminhar sozinha...
PELLÉAS.
Voltaremos outro dia...
Eles saem.