Ato IV Pelléas e Mélisande · Capítulo 4 de 5
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Ato IV

ATO IV

CENA I

Um corredor no castelo.

PELLÉAS.

Aonde vais? Preciso falar contigo esta noite. Vou te ver?

MÉLISANDE.

Sim.

PELLÉAS.

Venho do quarto de meu pai. Ele está melhor. O médico nos disse que ele estava salvo. Ele me reconheceu. Tomou minha mão e me disse, com aquele ar estranho que tem desde que adoeceu: “É você, Pelléas? Veja, nunca tinha reparado, mas você tem o rosto grave e amistoso daqueles que não viverão muito tempo. É preciso viajar; é preciso viajar...” É estranho; vou obedecer-lhe... Minha mãe o escutava e chorava de alegria. Não percebeste? Toda a casa já parece reviver, ouve-se respirar, ouve-se caminhar... Escuta, ouço falarem atrás desta porta. Depressa, depressa, responde depressa, onde te verei?

MÉLISANDE.

Onde quiseres.

PELLÉAS.

No parque: junto à fonte dos cegos? Queres? Virás?

MÉLISANDE.

Sim.

PELLÉAS.

Será a última noite. Vou viajar, como meu pai disse. Não me verás mais...

MÉLISANDE.

Não digas isso, Pelléas... Eu te verei sempre; eu te olharei sempre...

PELLÉAS.

Por mais que olhes... Estarei tão longe que não poderás mais me ver.

MÉLISANDE.

Que aconteceu, Pelléas? Já não compreendo o que dizes...

PELLÉAS.

Vai-te, vai-te, separemo-nos. Ouço falarem atrás desta porta.

Eles saem separadamente.

Depois entra Arkël, acompanhado de Mélisande.

ARKEL.

Agora que o pai de Pelléas está salvo, e que a doença, a velha serva da morte, deixou o castelo, um pouco de alegria e um pouco de sol enfim voltarão a entrar nesta casa... Já era tempo! Pois, desde a tua chegada, aqui só se viveu murmurando em torno de um quarto fechado... E, na verdade, eu tinha pena de ti, Mélisande... Eu te observava; estavas ali, talvez despreocupada, mas com o ar estranho e extraviado de alguém que esperasse sempre uma grande desgraça, ao sol, num belo jardim... Não sei explicar... Mas entristecia-me ver-te assim; pois és jovem demais e bela demais para viver já, dia e noite, sob o hálito da morte... Mas agora tudo isso vai mudar. Na minha idade — e talvez seja este o fruto mais seguro da minha vida —, na minha idade, adquiri não sei que fé na fidelidade dos acontecimentos, e sempre vi que todo ser jovem e belo criava ao seu redor acontecimentos jovens, belos e felizes... E és tu, agora, quem vai abrir a porta para a nova era que entrevejo... Vem aqui; por que ficas aí sem responder e sem erguer os olhos? — Eu só te beijei uma vez até hoje, no dia da tua chegada; e, no entanto, os velhos precisam às vezes tocar com os lábios a fronte de uma mulher ou a face de uma criança, para ainda acreditar no frescor da vida e afastar por um instante as ameaças da morte. Tens medo dos meus velhos lábios? Como tive pena de ti nestes meses!...

MÉLISANDE.

Avô, eu não era infeliz...

ARKEL.

Deixa-me olhar-te assim, de bem perto, por um momento... temos tanta necessidade de beleza ao lado da morte...

Entra Golaud.

GOLAUD.

Pelléas parte esta noite.

ARKEL.

Tens sangue na testa. — Que fizeste?

GOLAUD.

Nada, nada... Passei através de uma sebe de espinhos...

MÉLISANDE.

Baixai um pouco a cabeça, senhor... Vou limpar vossa testa...

GOLAUD, repelindo-a.

Não quero que me toques, ouviste? Vai-te, vai-te! — Não estou falando contigo. — Onde está minha espada? — Eu vinha buscar minha espada...

MÉLISANDE.

Aqui; sobre o genuflexório.

GOLAUD.

Traze-a. A Arkël. Acabaram de encontrar mais um camponês morto de fome, à beira do mar. Dir-se-ia que todos fazem questão de morrer diante de nossos olhos. — A Mélisande. Então, minha espada? — Por que tremeis assim? Não vou vos matar. Eu queria simplesmente examinar a lâmina. Não emprego a espada para esses usos. Por que me examinais como a um pobre? — Não venho pedir-vos esmola. Esperais ver alguma coisa em meus olhos sem que eu veja alguma coisa nos vossos? — Acreditais que eu saiba alguma coisa? — A Arkël. Vedes estes grandes olhos? — Dir-se-ia que têm orgulho de serem ricos...

ARKEL.

Neles só vejo uma grande inocência...

GOLAUD.

Uma grande inocência!... São maiores que a inocência!... São mais puros que os olhos de um cordeiro... Dariam a Deus lições de inocência! Uma grande inocência! Escutai: estou tão perto deles que sinto o frescor de seus cílios quando pestanejam; e, no entanto, estou menos longe dos grandes segredos do outro mundo que do menor segredo desses olhos!... Uma grande inocência!... Mais que inocência! Dir-se-ia que os anjos do céu celebram neles sem cessar um batismo!... Conheço esses olhos! Vi-os em ação! Fechai-os! Fechai-os! ou eu os fecharei por muito tempo!... — Não ponhais assim a mão na garganta; digo uma coisa muito simples... Não tenho segunda intenção... Se tivesse uma segunda intenção, por que não a diria? Ah! ah! — não tenteis fugir! — Aqui! — Dai-me essa mão! — Ah! vossas mãos estão quentes demais... Ide embora! Vossa carne me repugna!... Já não se trata de fugir agora! — Ele a agarra pelos cabelos. — Vais me seguir de joelhos! — De joelhos! — De joelhos diante de mim! — Ah! ah! vossos longos cabelos finalmente servem para alguma coisa!... À direita e depois à esquerda! — À esquerda e depois à direita! — Absalão! Absalão! — Para a frente! para trás! Até o chão! até o chão!... Vedes, vedes; já rio como um velho...

ARKEL, acorrendo.

Golaud!...

GOLAUD, afetando uma calma súbita.

Farei como quiserdes, vede bem. — Não dou importância alguma a isso. — Sou velho demais; e, além disso, não sou espião. Esperarei o acaso; e então... Oh! então!... simplesmente porque é o costume; simplesmente porque é o costume...

Ele sai.

ARKEL.

Que há com ele? — Está bêbado?

MÉLISANDE, em lágrimas.

Não, não; mas ele não me ama mais... Eu não sou feliz!...

ARKEL.

Se eu fosse Deus, teria piedade do coração dos homens...

CENA II

Um terraço, na bruma.

Vê-se o pequeno Yniold tentando erguer um pedaço de rocha.

YNIOLD.

Oh! Esta pedra é pesada... é mais pesada que eu. — É mais pesada que todo mundo. — É mais pesada que tudo.

Vejo minha bola de ouro entre o rochedo e esta pedra malvada. E não consigo alcançá-la... Meu bracinho não é comprido o bastante — e esta pedra não quer ser levantada... Dir-se-ia que tem raízes na terra.

Ouvem-se ao longe os balidos de um rebanho.

Oh! oh! Ouço os carneiros chorarem. — Olha! Já não há sol! — Eles vêm chegando, os carneirinhos; eles vêm chegando... Há tantos!... Há tantos!... Tiveram medo do escuro... Apertam-se uns contra os outros. Apertam-se! Choram... e andam depressa!... Alguns querem tomar a direita... Todos querem ir para a direita. Não podem!... O pastor lhes atira terra!... Ah! ah!... Eles vão passar por aqui... Vou vê-los de perto. — Como são tantos!... — Agora, todos se calam. Pastor? Por que não falam mais?

O PASTOR, que não se vê.

Porque este não é o caminho do estábulo! —

YNIOLD.

Para onde vão? Pastor? Pastor? Para onde vão?... Ele já não me ouve. Já estão longe demais... Já não fazem ruído. — Este não é o caminho do estábulo... Onde vão dormir esta noite?... Oh! oh! está escuro demais... Vou dizer alguma coisa a alguém!

Ele sai.

CENA III

Uma fonte no parque.

Entra Pelléas.

PELLÉAS.

É a última noite... A última noite... É preciso que tudo acabe... Brinquei como uma criança em torno de uma coisa que eu não suspeitava... Brinquei em sonho ao redor das armadilhas do destino... Quem foi que me despertou de repente? Vou fugir gritando de alegria e de dor, como um cego que fugisse do incêndio de sua casa... Vou dizer a ela que vou fugir... É tarde; ela não vem... Eu faria melhor em partir sem tornar a vê-la... É preciso que eu a olhe bem desta vez... Há coisas de que já não me lembro... dir-se-ia, por momentos, que faz mais de cem anos que não a vejo... E ainda não olhei o seu olhar... Não me resta nada se eu partir assim. E todas essas lembranças... é como se eu levasse um pouco de água num saco de musselina... É preciso que eu a veja uma última vez, até o fundo de seu coração... É preciso que eu lhe diga tudo o que não disse...

Entra Mélisande.

MÉLISANDE.

Pelléas?

PELLÉAS.

Mélisande! — És tu, Mélisande?

MÉLISANDE.

Sim.

PELLÉAS.

Vem aqui: não fiques à beira do luar. — Vem aqui. Temos tantas coisas a dizer um ao outro... Vem aqui, à sombra da tília.

MÉLISANDE.

Deixa-me na claridade...

PELLÉAS.

Poderiam ver-nos das janelas da torre. Vem aqui; aqui, nada temos a temer. — Cuidado; poderiam ver-nos...

MÉLISANDE.

Quero que me vejam...

PELLÉAS.

Que tens? — Conseguiste sair sem que percebessem?

MÉLISANDE.

Sim; teu irmão dormia...

PELLÉAS.

É tarde. — Dentro de uma hora fecharão as portas. É preciso ter cuidado. Por que vieste tão tarde?

MÉLISANDE.

Teu irmão tinha um sonho ruim. E depois meu vestido ficou preso nos cravos da porta. Vê, está rasgado. Perdi todo esse tempo e corri...

PELLÉAS.

Minha pobre Mélisande!... Eu quase teria medo de tocar-te... Ainda estás sem fôlego, como um pássaro perseguido... É por mim, por mim que fazes tudo isso?... Ouço teu coração bater como se fosse o meu... Vem aqui... mais perto, mais perto de mim.

MÉLISANDE.

Por que ris?

PELLÉAS.

Não rio; — ou então rio de alegria, sem saber... Antes haveria motivo para chorar...

MÉLISANDE.

Viemos aqui há muito tempo... Eu me lembro.

PELLÉAS.

Sim... Há longos meses. — Então, eu não sabia... Sabes por que te pedi que viesses esta noite?

MÉLISANDE.

Não.

PELLÉAS.

Talvez seja a última vez que te vejo... É preciso que eu vá embora para sempre...

MÉLISANDE.

Por que dizes sempre que vais embora?...

PELLÉAS.

Devo dizer-te aquilo que já sabes! — Não sabes o que vou te dizer?

MÉLISANDE.

Mas não, mas não; não sei nada...

PELLÉAS.

Não sabes por que é preciso que eu me afaste... Ele a beija bruscamente. Não sabes que é porque eu te amo...

MÉLISANDE, em voz baixa.

Eu também te amo...

PELLÉAS.

Oh! Que disseste, Mélisande! Eu quase não ouvi!... Quebraram o gelo com ferros em brasa!... Dizes isso com uma voz que vem do fim do mundo!... Eu quase não te ouvi... Tu me amas? — Tu também me amas?... Desde quando me amas?

MÉLISANDE.

Desde sempre... Desde que te vi...

PELLÉAS.

Oh! como dizes isso!... Dir-se-ia que tua voz passou sobre o mar na primavera!... Eu nunca a tinha ouvido até agora... dir-se-ia que choveu sobre meu coração! Dizes isso tão francamente!... Como um anjo a quem se interroga!... Não posso acreditar, Mélisande!... Por que me amarias? — Mas por que me amas! — É verdade o que dizes? — Não me enganas? — Não mentes um pouco, para me fazer sorrir?...

MÉLISANDE.

Não; nunca minto; só minto a teu irmão...

PELLÉAS.

Oh! Como dizes isso!... Tua voz! tua voz... Ela é mais fresca e mais franca que a água!... Dir-se-ia água pura sobre meus lábios!... Dir-se-ia água pura sobre minhas mãos... Dá-me, dá-me tuas mãos. Oh! tuas mãos são pequenas!... Eu não sabia que eras tão bela!... Nunca tinha visto nada tão belo antes de ti... Eu estava inquieto, procurava por toda a casa... Procurava por toda a campina... E não encontrava a beleza... E agora te encontrei!... Eu te encontrei!... Não creio que haja sobre a terra uma mulher mais bela!... Onde estás? — Já não te ouço respirar...

MÉLISANDE.

É que estou te olhando...

PELLÉAS.

Por que me olhas tão gravemente! — Já estamos na sombra. — Está escuro demais debaixo desta árvore. Vem para a luz. Não podemos ver quanto somos felizes. Vem, vem; resta-nos tão pouco tempo...

MÉLISANDE.

Não, não; fiquemos aqui... Estou mais perto de ti na escuridão...

PELLÉAS.

Onde estão teus olhos? — Não vais fugir de mim? — Não estás pensando em mim neste momento.

MÉLISANDE.

Mas sim, mas sim, só penso em ti...

PELLÉAS.

Olhavas para outro lugar...

MÉLISANDE.

Eu te via em outro lugar...

PELLÉAS.

Estás distraída. Que tens? — Não me pareces feliz...

MÉLISANDE.

Sim, sim; estou feliz, mas estou triste...

PELLÉAS.

Que ruído é esse? — Estão fechando as portas!...

MÉLISANDE.

Sim, fecharam as portas...

PELLÉAS.

Já não podemos entrar! — Ouves os ferrolhos? — Escuta! escuta!... as grandes correntes!... É tarde demais, é tarde demais!...

MÉLISANDE.

Tanto melhor! Tanto melhor!

PELLÉAS.

Tu?... Pois bem, pois bem!... Já não somos nós que o queremos!... Tudo está perdido, tudo está salvo! tudo está salvo esta noite! — Vem! vem... Meu coração bate como um louco até o fundo da minha garganta... Ele a enlaça. Escuta! meu coração está a ponto de me estrangular... Vem! vem!... Ah! como é belo nas trevas!...

MÉLISANDE.

Há alguém atrás de nós!...

PELLÉAS.

Não vejo ninguém...

MÉLISANDE.

Ouvi um ruído...

PELLÉAS.

Só ouço teu coração na escuridão...

MÉLISANDE.

Ouvi as folhas mortas estalarem...

PELLÉAS.

É o vento que se calou de repente... Ele caiu enquanto nos beijávamos...

MÉLISANDE.

Como nossas sombras estão grandes esta noite!...

PELLÉAS.

Elas se enlaçam até o fundo do jardim... Oh! como elas se beijam longe de nós!... Olha! Olha!...

MÉLISANDE, com voz abafada.

A-a-h! — Ele está atrás de uma árvore!

PELLÉAS.

Quem?

MÉLISANDE.

Golaud!

PELLÉAS.

Golaud? — Onde? — Não vejo nada...

MÉLISANDE.

Ali... no fim de nossas sombras...

PELLÉAS.

Sim, sim; eu o vi... Não nos voltemos bruscamente...

MÉLISANDE.

Ele está com a espada...

PELLÉAS.

Não tenho a minha...

MÉLISANDE.

Ele viu que nos beijávamos...

PELLÉAS.

Ele não sabe que nós o vimos... Não te mexas; não vires a cabeça... Ele se lançaria sobre nós... Está nos observando... Ainda está imóvel... Vai embora, vai embora imediatamente por aqui... Eu o esperarei... Eu o deterei...

MÉLISANDE.

Não, não, não!...

PELLÉAS.

Vai embora! vai embora! Ele viu tudo!... Ele nos matará!...

MÉLISANDE.

Tanto melhor! tanto melhor! tanto melhor!...

PELLÉAS.

Ele vem! ele vem!... Tua boca!... Tua boca!...

MÉLISANDE.

Sim!... Sim!... Sim!...

Eles se beijam perdidamente.

PELLÉAS.

Oh! oh! Todas as estrelas caem...

MÉLISANDE.

Sobre mim também! sobre mim também!...

PELLÉAS.

Todas! todas! todas!...

Golaud se precipita sobre eles, espada em punho, e golpeia Pelléas, que cai à beira da fonte. Mélisande foge apavorada.

MÉLISANDE, fugindo.

Oh! oh! Não tenho coragem!... Não tenho coragem!...

Golaud a persegue através do bosque, em silêncio.

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