A Ira de Rustem
“Então enfim vieste, ó insolente Pehliva! Em verdade, muito bem. E agora eu gostaria de perguntar: ‘Quem é Rustem, afinal, para ousar desafiar meu poder e desobedecer às minhas ordens?’ Na verdade, se eu tivesse uma espada na mão neste instante, como a uma laranja eu lhe fenderia a cabeça ao meio, e a lançaria aos chacais! Como não a tenho — Guardas, prendei-o! — pois quero que seja enforcado vivo no patíbulo mais próximo, e que seu nome seja riscado da lista de meus heróis.”
Ora, Gew, ao ouvir tais palavras de cólera, ficou atônito; e, em seu grande espanto, clamou ao Rei:
“Ó Senhor do Mundo, quereis realmente pôr as mãos sobre Rustem? Rogo-vos que não esqueçais que só ele é o baluarte do trono — sim, como ele e sua casa sempre o foram por longas gerações!”
Mas, ai! As palavras sábias de Gew apenas atiçaram ainda mais a labareda da ira do Rei. Fora de si, portanto, ele se enfureceu como um elefante enlouquecido, bradando com um rugido que fez tremer o próprio trono:
“Guardas! Prendei também aquele cão ladrador, e enforcai-o vivo com o outro. Depressa! Fora de minha presença!”
Então Tus, temendo que Kaikous, em sua fúria insensata, fizesse algum mal ao Poderoso, pousou suavemente a mão sobre a de Rustem, para conduzi-lo para fora da sala de audiências; mas o Pehliva não o permitiu. Desprendendo-se de seu gesto, pôs-se ousadamente diante de Kaikous, com uma ira que rivalizava com a do Rei. E disse:
“Monarca mesquinho, ousas realmente enfurecer-te contra mim — Rustem? Em verdade, hás de arrepender-te amargamente de tua temeridade! E agora, por minha vez, pergunto-te: ‘Quem é, afinal, Kaikous, para atrever-se a falar de patíbulo a mim — Rustem?’ Escuta, e eu te direi:
“Em verdade, Kaikous é aquele louco que conduziu seu bravo exército a Mazinderan e a Hamaveran, e que também, certa vez, alçou seu voo tolo rumo ao céu; Kaikous é esse Shah que, em sua insensatez, sempre trouxe escárnio e vergonha ao Irã, e tristeza e desgraça a seus súditos; Kaikous é o monarca que sempre manda chamar seu Pehliva quando o perigo ameaça, em vez de avançar ele próprio, com coragem, para enfrentar seus inimigos — sim, Kaikous é um valente sujeito! Pois não tem ele o coração de um rato e a cabeça daquela criatura obstinada que sacode as longas orelhas e zurra para a lua?
“E agora, tendo liquidado o glorioso Kous, responderei a ti quanto a Rustem:
“Em verdade, Rustem é filho de Zal, de Saum e de Neriman, heróis que sempre sustentaram o trono da luz, e sem os quais Kaikous jamais se teria sentado nele; Rustem é homem livre, escravo de ninguém e servo apenas de Deus, que lhe concedeu sua força gloriosa e sua coragem; Rustem é o Pehliva cujos feitos brilham como o sol num mundo escuro, e a quem, muitas e muitas vezes, rogaram que tomasse seu verdadeiro lugar no trono do Irã; Rustem é o Campeão que tem o mundo a seus pés, e, ainda assim, não desejou trono algum senão Rakush, coroa alguma senão seu elmo, cetro algum senão a poderosa clava de seu avô; sim, Rustem é o Pehliva que, incontáveis vezes, arriscou a vida para salvar o ilustre Kous do castigo merecido por seus atos insensatos.
“Mas enfim, ó criatura sem juízo, Rustem chegou ao limite de sua paciência. E agora ele te diz: quando vier o bravo chefe tártaro, sai tu mesmo a enfrentá-lo — tu, que és bravo, sábio, cheio de força e valor como os Shahs de outrora! Talvez então possas usar contra ele o patíbulo de que tanto te gabas. Quanto a Rustem, em verdade não o verás mais nas terras da Pérsia, pois ele está mortalmente farto de tuas loucuras.”
Assim falou o Grande Rustem em sua cólera; e, tendo terminado, voltou-se sem temor e saiu a largos passos da sala da presença, sem que ninguém o impedisse. E, montando em Rakush, eis que desapareceu antes que o atônito Kaikous se recobrasse de seu assombro.
Ora, os nobres e chefes do Irã ficaram profundamente aflitos com a ira de Rustem, pois eles eram o rebanho, e o Grande Pehliva, seu pastor. Então murmuraram contra Kaikous, dizendo:
“Em verdade, o Shah, em sua ira, esqueceu toda gratidão e toda decência! Pois, de outro modo, como ousaria ameaçar o Grande Rustem, a quem deve a vida e o trono, com o vil patíbulo? Em verdade, a cólera do Poderoso é justa! Mas o que será, ai de nós, do Irã, se seu único Campeão invencível o abandona agora que tão grande perigo o ameaça?”
Assim falavam os nobres do Irã; e, por fim, em seu impasse, decidiram escolher um mediador: Gudarz, o Ancião, que se apresentaria diante do Rei. E, embora a missão estivesse cheia de perigo, Gudarz não vacilou; falou longamente e sem temor ao Shah, enumerando, como um colar de pérolas, cada feito glorioso de Rustem. E, tendo assim falado, censurou sem medo o fraco monarca por sua ingratidão. E disse:
“Ó Rei dos Reis, será realmente possível que tão depressa tenhas apagado do livro de tua memória tudo quanto Rustem fez por ti e por esta terra? Como conquistou Mazinderan e o Grande Deev Branco; e como devolveu a teus olhos a visão? E agora, como recompensa, ordenas que seja enforcado vivo num patíbulo, tu que és Rei apenas por sua graça! Agora peço que me respondas com verdade: é esta a justiça de um monarca grande e sábio, ou digna do grande Rei dos Reis?”
Ai! Vendo seus atos assim expostos, nus, diante de si, Kaikous envergonhou-se do que dissera em sua ira. Então, humilhando-se diante de Gudarz, disse:
“Ó Pehliva de cabelos brancos, em verdade falas bem! As palavras de um poderoso monarca devem ser palavras de sabedoria, e não palavras que provoquem ira. Vai, portanto, até Rustem, e dize-lhe que Kaikous se arrepende de suas palavras amargas e o chama de volta para ser seu mais honrado Pehliva.”
Assim armado, Gudarz partiu velozmente em busca do irado Rustem; e eis que todos os poderosos chefes do Irã se juntaram a ele, formando grande companhia. Ora, cavalgaram rápido e para longe antes de alcançarem o herói impelido pela cólera; mas, quando enfim o alcançaram, eis que toda a companhia se prostrou no pó diante dele. E Gudarz disse:
“Ó Herói dos Heróis! Escuta, rogo-te, as palavras de um guerreiro idoso que ama tanto a ti quanto ao Irã. Agora, em verdade, tua ira é justa, e assim o declarei a Kaikous, cujos pensamentos, quando está encolerizado, transbordam como vinho novo que fermenta, azedo e amargo ao paladar. Mas, embora precipitado, o Shah logo se arrepende de sua ira; e eis que já se acha envergonhado e pesaroso por sua ingratidão para com o Pehliva, que é a luz de seus olhos e o sustentáculo de seu trono!
“Quanto a Kaikous — ai! Ainda muitas vezes deverá o sol girar sobre sua cabeça antes que ele aprenda a sabedoria dos grandes, como tão acertadamente disse Zal, teu pai de coroa prateada. Mas eis que o mundo inteiro sabe que Rustem é nobre de espírito, além de sábio, bravo e forte de membros! E, embora esteja justamente irado contra o Shah, o Irã não cometeu culpa alguma para ser abandonado e cair nas mãos do negro coração de Afrasiab.”
Assim falou o ancião Gudarz em sua sabedoria. Mas, ai! Embora ditas com tanto acerto, as palavras caíram em ouvidos surdos, pois Rustem ainda estava tomado por uma ira imensa. Voltando-se, portanto, para o velho, disse:
“Não me fales de Kaikous, bravo Gudarz — nem de sua ira, nem de seu arrependimento —, pois que é ele para mim senão um grão de vil poeira? Eis que Rustem teme apenas seu Criador, e doravante servirá somente a Ele. Quanto a Kaikous, que faça o pior que puder; pois, em verdade, estou não apenas farto, mas envergonhado em minha alma de sua fraqueza e de suas loucuras, e não combaterei mais suas batalhas.”
Ora, quando os nobres ouviram tais palavras, lamentaram-se em tristeza e lançaram pó sobre a cabeça. Mas Gudarz não desesperou, pois não envelhecera na Corte sem aprender muito sobre a natureza humana, que sabia ser a mesma num grande herói e nos mortais comuns. Assim, em sua sabedoria, ainda guardava de reserva uma flecha farpada, afiada o bastante para atravessar até mesmo a armadura do invencível Rustem; e agora a disparou, dizendo suavemente ao herói:
“Ó Glorioso, tudo quanto dizes é, em verdade, justo e verdadeiro! Mas me parece que ainda resta algo a considerar. Pois, quando se souber por toda a terra que o Poderoso Rustem — Campeão incontestado de todo o mundo — fugiu diante de um chefe tártaro tão anunciado, jovem e cheio de proeza, não dirão todos os guerreiros:
“‘Ai! Ai! Não pensávamos tal coisa, mas em verdade Rustem já passa do auge. Que pena que a glória de um herói desapareça tão depressa quando ele começa a envelhecer! Logo também não se ouvirá mais falar de Rustem; pois, já que teme esse valente jovem tártaro, por certo este deve ser um herói poderoso, que em breve suplantará o de membros de elefante como Campeão do Mundo.’
“Sim, muito temo, ó Poderoso, que não apenas isto, mas coisas ainda mais amargas ao paladar, sejam ditas. Portanto eu, Gudarz, o Ancião, te pergunto: será sábio, nesta hora, voltares as costas à tua lealdade ao Shah, manchando assim tua glória e fazendo recair sobre tua cabeça a ruína do Irã? Em verdade, não; pois tua retirada seria o caminho da loucura, que tua alma odeia. Afasta de ti, portanto, as palavras vazias de Kaikous, e conduz-nos à batalha contra esse tártaro. Pois em verdade não se deve dizer que Rustem teve medo de combater um rapaz imberbe!”
Tão aguda era a flecha envenenada de Gudarz, e não foi em vão que voou até seu alvo. Pois eis que Rustem ficou atônito diante dessa maneira de ver a questão, sendo-lhe novos tais pensamentos. Recobrando-se, contudo, de sua surpresa, disse com orgulho ao mensageiro do Shah:
“Em verdade, se, ao procurar, Rustem encontrasse em seu coração um só átomo de medo, depressa arrancaria de vergonha a alma do próprio corpo! Mas o matador do Grande Deev Branco não precisa vindicar sua coragem, pois ela é conhecida em todo o mundo.”
Assim falou Rustem. Não obstante, continuou a meditar sobre as palavras de Gudarz, pois sabia serem elas a mensagem de um velho tornado sábio nos pensamentos dos homens. E assim, mudado o curso de sua ira, logo decidiu fazer, por amor ao Irã, aquilo que sabia ser justo. Pois, embora na verdade não temesse por sua glória, bem sabia que ninguém senão Rustem poderia enfrentar essa crise na história de seu país. Além disso, no fundo de sua alma havia o desejo de encontrar esse tão alardeado campeão tártaro e de alegrar-se mais uma vez na batalha.
Portanto, grandes foram os brados de alegria quando, obedecendo à mão de seu senhor, Rakush voltou outra vez a face para a Pérsia. Mas em verdade foi com passo altivo e cabeça erguida que o herói apareceu de novo diante do Shah. Quando Kaikous viu Rustem, porém, tão grande foi seu alívio que desceu do trono para recebê-lo, dizendo-lhe em profunda humildade de espírito:
“Ó glorioso Pehliva! Em verdade, sou tolo de alma, como dizes, e não digno de sentar-me no trono da luz. Mas não deve um homem ser como Ormuzd o fez? Ora, tu és bravo; mas, ai! Meu coração estava cheio de temor por causa desse poderoso tártaro, e eu buscava em ti minha segurança, pois não és tu o baluarte de meu trono? Mas, embora a precipitação seja meu direito de nascimento, demoraste muito a vir, e assim, em minha ira, falei-te palavras insensatas, embora agora minha boca esteja cheia de pó.”
Assim falou o Shah arrependido; e Rustem, vendo sua humildade, respondeu-lhe:
“Ó Rei dos Reis! Em verdade, o mundo é teu escabelo, e todos os seus habitantes, teus escravos, pois tal é a prerrogativa dos Shahs. Quanto a Rustem, sempre teve os rins cingidos em fidelidade ao Irã, e assim seja enquanto viver.”
Assim, restabelecida mais uma vez a paz, Kaikous preparou um grande banquete, convidando para ele todos os seus heróis. Mas, entre todos os poderosos ali presentes, nenhum foi louvado senão Rustem, o Campeão do Mundo, diante de quem ricos presentes foram derramados — sim, até que o enorme monte se erguesse alto como uma montanha! Então, e só então, Kaikous disse aos escravos: “basta!”, pois Rustem não aceitaria mais. E agora tudo estava novamente em paz dentro dos portões do Shah, pois eis que a ira de Rustem fora aplacada.