Infância e memória
Infância e memória
Não me lembro de minha infância primeira; creio nela pelo que ouvi de outros, pelo que vejo nas crianças e pelo que meu corpo me ensinou sem palavras.
Chorava, buscava alimento, repousava, e depois tornava a chorar. Já havia em mim desejos, ainda que sem linguagem; havia fome, ciúme, incômodo, vontade de possuir aquilo que me faltava.
A memória, mais tarde, recolhe essas sombras como quem junta pedaços de uma casa antiga. Nem tudo se vê claramente, mas tudo deixa vestígio.
Aprendi a falar ouvindo. Não me ensinaram com método: mostravam coisas, repetiam sons, e eu, atento, prendia as palavras às coisas. Assim entrei na comunidade dos homens, pela porta frágil da linguagem.