Infância e memória Confissões · Capítulo 3 de 6
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Infância e memória

Infância e memória

Não me lembro de minha infância primeira; creio nela pelo que ouvi de outros, pelo que vejo nas crianças e pelo que meu corpo me ensinou sem palavras.

Chorava, buscava alimento, repousava, e depois tornava a chorar. Já havia em mim desejos, ainda que sem linguagem; havia fome, ciúme, incômodo, vontade de possuir aquilo que me faltava.

A memória, mais tarde, recolhe essas sombras como quem junta pedaços de uma casa antiga. Nem tudo se vê claramente, mas tudo deixa vestígio.

Aprendi a falar ouvindo. Não me ensinaram com método: mostravam coisas, repetiam sons, e eu, atento, prendia as palavras às coisas. Assim entrei na comunidade dos homens, pela porta frágil da linguagem.

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