O Sofá Vermelho
Nara morava no terceiro andar de um prédio sem elevador, onde os vizinhos deixavam coisas na calçada com a esperança rancorosa de que alguém levasse. Naquela manhã, havia um sofá vermelho diante do portão. Chovia fino, e a espuma saía por um rasgo lateral como língua de bicho cansado.
Dona Sônia, do 12, estava agachada diante dele com uma tesoura de unha.
— A senhora está desmontando o sofá?
— Estou libertando uma coisa.
Nara quase subiu direto. Tinha o pescoço duro da madrugada e o cheiro da central preso no cabelo: café queimado, ar-condicionado velho, plástico morno.
— Que coisa?
Dona Sônia puxou do rasgo uma etiqueta amarela, úmida, grudada num pedaço de pano cinza. Entregou a Nara como quem entrega exame ruim.
SUMA — COMPROVANTE DE RETIRADA
Objeto: Diego Amaral
Estado: repetitivo
Solicitante: unidade familiar
Destino: triagem fina
— Diego é meu filho — disse Dona Sônia.
Nara ficou olhando o nome. A tinta continuava perfeita, apesar da chuva.
— A senhora abriu chamado?
— Eu falei no grupo do prédio. Só falei. “Esse menino encostado no sofá o dia inteiro me mata.” Mãe fala essas coisas.
A chuva batia no toldo da padaria em frente. Um ônibus passou jogando água marrom nos pneus.
— Quando foi isso?
— Anteontem. À noite. Ele estava aqui no sofá, com o notebook no colo. Eu fui fazer arroz. Quando voltei, tinha só o sofá. E um cheiro de xampu dele.
Diego tinha vinte e oito anos e cumprimentava Nara no corredor com um “boa noite” dito em horário errado. Fazia bicos de edição de vídeo, recebia encomenda de comida às três da tarde e às vezes descia para buscar o lixo da mãe sem camisa, com fone no ouvido e cara de quem estava em outra casa. Nara lembrava de uma vez em que ele ajudara Miriam a subir com uma sacola de arroz, quando a velha torceu o pé na escada. Dona Sônia, depois, reclamara que ele “era bom para os outros”.
Havia também uma lembrança menor, quase besta. Diego sentado no degrau do segundo andar, numa falta de luz, iluminando com o celular uma barata virada de costas. Dona Sônia gritava de dentro do apartamento para ele matar logo. Ele respondeu que a barata estava fazendo abdominal e merecia respeito. Nara riu antes de conseguir segurar. Depois, por uma semana, toda vez que se cruzavam, Diego fazia uma flexão mínima com os dedos.
— Ele deixou celular? Documento? Alguma mochila?
— O carregador ficou na tomada. A caneca também. Aquela feia, com dragão.
— E a senhora mexeu?
— Lavei a caneca. Depois fiquei com raiva de ter lavado.
— Posso ver o apartamento?
Dona Sônia levou a mão ao peito do vestido, como se Nara tivesse pedido para abrir uma cicatriz.
— Está bagunçado.
— O quarto dele?
— A casa inteira. Quando filho some, tudo fica acusando.
Subiram juntas. No apartamento 12, o cheiro de arroz queimado continuava preso na parede da cozinha, embora Dona Sônia jurasse ter lavado a panela três vezes. O quarto de Diego ficava no fim do corredor. Tinha um colchão baixo, uma mesa com duas telas, caixas de equipamento, meias jogadas e a caneca do dragão secando sobre uma toalha de prato. O carregador continuava na tomada, com o fio caído no chão.
Nara tocou no notebook fechado.
— Ele tinha senha?
— Tinha tudo. Até para pedir pizza precisava hackear governo.
Na mesa, entre recibos amassados, havia uma etiqueta menor, sem marca da SUMA. Apenas uma linha:
pré-triagem concluída
Nara guardou a etiqueta no bolso.
— Deixa isso quieto por enquanto. Vou ver no sistema.
Dona Sônia segurou o braço dela. A unha da velha tinha terra.
— Se encontrar, traz com calma, tá? Ele fica feio quando acha que venceu.
— Venceu o quê?
Dona Sônia olhou para o sofá aberto.
— Tudo que eu dizia dele.
No corredor, antes de sair, Nara ouviu o notebook de Diego ligar sozinho. A tela acendeu por um segundo, mostrando a imagem congelada de uma rua vista de dentro de um carro. Uma via estreita, molhada, sem placas. No canto inferior, o nome do arquivo: entrega_final.mov.
Depois apagou.
Nara desceu os três andares com as duas etiquetas encostadas na coxa. No térreo, seu celular vibrou.
A SUMA agradece sua colaboração. Calçadas livres, cidade viva.