O Peso das Coisas Volume Irregular · Capítulo 8 de 10
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O Peso das Coisas

Fugiram pelo estacionamento inundado. A água batia no tornozelo, cheia de comprovantes boiando como peixes mortos. Teo carregava a gaveta. Nara levava um saco de etiquetas arrancadas no escuro.

Atrás deles, os coletores pararam no limite da luz, como se a água fora do subsolo exigisse outro protocolo. Um deles levantou o tablet. Nara sentiu o celular vibrar no bolso.

Infração registrada:

remoção indevida de material classificado

Do lado de fora, a manhã começava cinza. A cidade seguia: padaria abrindo, ônibus cuspindo fumaça, gente desviando de poça. Ninguém olhava para o shopping fechado.

Foram devolver os nomes.

Primeiro, Dona Sônia. Nara entregou as etiquetas de Diego. A velha espalhou tudo na mesa da cozinha: filho adulto, cheiro de quarto, resposta atravessada, marca afundada no sofá, pedido de pão não cumprido.

A mesa era pequena para tanto pedaço. Dona Sônia tirou o saleiro, a toalha plástica, um vaso de flor artificial. Mesmo assim, uma etiqueta caiu no chão.

desperdício de talento

Ela pegou essa mais devagar.

— Fui eu que falei.

— Quando?

— Todo dia um pouco.

— Cadê o resto?

— Talvez isso seja o que sobrou.

Dona Sônia tocou cada papel.

— Eu quero ele de volta, tirando essa parte aqui — disse, separando resposta atravessada. — Essa pode ficar lá.

A raiva subiu em Nara com gosto de café velho.

— A senhora pediu um filho ou pediu a casa calada?

Dona Sônia recolheu a mão. Depois pegou a etiqueta que separara e colocou junto das outras.

— Ele respondia atravessado desde pequeno — disse. — Uma vez, com oito anos, me chamou de porteira da vida dele. Eu ri escondido. Depois briguei.

A caneca do dragão, remontada com fita, ficou no centro da mesa. Nada aconteceu por quase um minuto. Então a cozinha cheirou a xampu barato. Dona Sônia fechou os olhos.

— Diego?

Do ralo da pia veio uma voz baixa:

— Compra pão?

Dona Sônia caiu de joelhos diante da pia. Abriu a torneira, fechou, abriu de novo. A água saiu normal, transparente, sem filho nenhum.

— Diego, eu compro. Eu compro agora.

O ralo respondeu com uma tosse de encanamento. Depois, a voz voltou menor:

— Integral não.

A velha riu e chorou com a mesma cara. Nara deixou sobre a mesa o comprovante de corrida de Diego. Não sabia se aquilo ajudava ou feria. Àquela altura, quase tudo fazia as duas coisas.

Nara saiu antes que a velha começasse a negociar com o ralo.

Teo deixou a gaveta na escola de Clara antes da aula. A menina apareceu no portão, mochila de unicórnio, olhos vermelhos.

— Pai, ontem eu esqueci como era sentir saudade de você — ela disse. — Foi bom e horrível.

Ele ajoelhou sem saber onde pôr as mãos. A coordenadora observava da porta, com um copo térmico e um sorriso pronto para reunião.

Clara tocou o próprio rosto.

— Eu acordei e minha boca estava longe.

Teo fechou os olhos.

— Agora está aqui?

— Está. Mas a professora falou que saudade atrapalha fila.

A coordenadora deu dois passos.

— Senhor Teodoro, podemos conversar?

— Hoje não.

— É sobre adaptação.

— A adaptação de quem?

— Da Clara ao ambiente.

Teo levantou com a filha no colo.

— Hoje o ambiente que se adapte.

Ele abraçou a filha.

— Hoje ela fica inadequada comigo.

A pulseirinha de miçangas, remontada com um nó feio, estava no pulso de Clara. Faltavam três cores. Mesmo assim, ela mexia o braço para ouvir as contas batendo.

No hospital, Miriam ainda estava inteira. Dormia sentada no vestiário, com o rodo apoiado no ombro. Ao lado dela, três etiquetas novas.

material insistente

mãe em excesso

funcionária que questiona

Miriam abriu um olho.

— Achou o inferno?

— Achei estoque.

A mãe pegou as etiquetas e rasgou com os dentes.

— Então fecha.

— Tem uma Dona Jandira no depósito.

Miriam ficou quieta. A etiqueta rasgada grudou no canto da boca.

— Eu sabia.

— Ela respondeu batendo.

— Jandira bate três vezes quando quer café. Duas quando quer filha. Uma quando quer que todo mundo pare de perguntar.

Miriam levantou com dificuldade. O joelho estalou.

— A gente busca.

— Não agora.

— Você veio me dizer que ela está numa sacola e quer que eu espere?

Nara segurou o braço da mãe.

— Se entrarmos sem troca, o sistema pega outra pessoa.

— Sistema nenhum sabe o preço de Jandira.

Nara sabia por onde começar: o pedido vinha antes do caminhão. A SUMA organizava. A cidade fornecia.

Ela passou o resto do dia juntando provas que pareciam lixo: print de grupo de condomínio, áudio de ouvidoria, termo escolar, etiqueta de hospital, recibo do shopping, cópia local dos logs de Teo. Cada prova tinha uma voz conhecida atrás. A vizinha cansada. A mãe irritada. A professora com frase pronta. O médico atrasado. Ninguém falava como assassino. Esse era o problema.

No celular, o aplicativo vibrou.

Nova campanha pública:

O que você gostaria que deixasse de ocupar espaço?

A pergunta veio com confete animado na tela.

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