Cidade Limpa Volume Irregular · Capítulo 10 de 10
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Cidade Limpa

Ao meio-dia, São Paulo ficou sem buzina, sem pregão, sem briga de casal atravessando janela. Só semáforos funcionando para carros vazios e sacolas plásticas dançando na sarjeta.

Os aplicativos de trânsito celebravam. Tempo médio de deslocamento reduzido em 89%. As farmácias mandavam cupom de desinfetante. Nos elevadores, a campanha da SUMA agradecia pela participação cidadã.

Nara caminhou até o hospital. Passou por roupas dobradas em pontos de ônibus, capacetes deixados no asfalto, um carrinho de bebê com etiqueta no cobertor. Em frente a uma farmácia, um homem pela metade tentava segurar a própria sombra, já dobrada para coleta.

No caminho, encontrou uma senhora sentada no meio-fio, abraçada a um telefone fixo arrancado da parede.

— Meu marido atendeu e virou toque — disse ela.

O aparelho tocou uma vez dentro dos braços dela.

Nara não soube ajudar. Seguiu com o saco de etiquetas preso ao peito, pesado de papel e de nomes.

O Hospital Santa Célia tinha portas abertas e corredores encerados. No vestiário, Nara achou o rodo da mãe, o marmitex fechado e uma etiqueta colada no armário.

Miriam Cordeiro

Objeto: resistência materna

Destino: redistribuição simbólica

Observação: deixou instruções

Dentro do armário havia um bilhete em papel de receituário.

“Não aceita substituto. E come alguma coisa.”

No fundo do armário, Miriam deixara também uma bolacha água e sal do pacote de Dona Jandira. Estava quebrada no meio, guardada num papel toalha como prova pequena demais para processo.

Nara sentou no chão. O choro veio pequeno, quase administrativo, como se também pudesse entrar em formulário.

O aplicativo abriu sozinho no celular.

Sua região apresenta excelente índice de desobstrução. Deseja solicitar devolução?

Ela apertou SIM.

Descreva o item.

Nara escreveu: “Minha mãe. Diego. O homem do ponto. Clara inteira. Todo mundo.”

O sistema pensou por três segundos.

Descrição ampla demais. Informe o volume equivalente para troca.

Abaixo, havia sugestões:

um familiar direto

um operador responsável

um solicitante original

um corpo disponível

Nara riu. Depois parou. A tela preta mostrava seu rosto sujo, o crachá torto, os olhos de quem ainda ocupava lugar.

Teo ligou. Ela deixou chamar até cair. Ligou de novo. Na terceira, atendeu.

— Não faz isso sozinha — disse ele.

— Você está com Clara?

— Estou.

— Ela está inteira?

— Está desenhando você. Muito brava.

Nara encostou a cabeça no armário da mãe.

— Diz para ela desenhar o chão também. Para eu saber onde pisar.

— Nara.

— Conta direito, lembra?

Do outro lado, Teo respirou como se tivesse mordido uma palavra.

Digitou: “Nara Cordeiro.”

O celular aqueceu na mão.

Volume aceito. Obrigado por colaborar.

A coleta não veio como caminhão. Veio como falta. Primeiro, Nara esqueceu o número do apartamento. Depois, o cheiro do cabelo da mãe. Depois, a senha da central. O corpo continuava ali, sentado no vestiário, mas as coisas que seguravam Nara por dentro começaram a soltar.

Ela pegou a bolacha quebrada e mordeu uma metade antes que sumisse. Tinha gosto de armário, sal e mão limpa.

No dia seguinte, os caminhões devolveram a cidade em pequenas porções. Um riso dentro de uma marmita. Um joelho no banco do metrô. Um pedido de pão saindo de ralos diferentes. Clara desenhando o rosto do pai com tanta força que furava o papel. Dona Sônia sentada diante do sofá vermelho, respondendo “já vai” para a pia.

No Hospital Santa Célia, uma paciente na cama 18 bateu três vezes na grade e pediu café. Nenhuma enfermeira encontrou Dona Jandira na lista, mas Miriam teria reconhecido a impaciência.

Na escola, Clara se recusou a entrar na fila. Teo recebeu uma notificação, leu em voz alta, apagou o aplicativo e deixou a filha pular a faixa amarela pintada no chão.

No vidro da farmácia, Nara viu Miriam por um segundo. A mãe vestia o uniforme azul, segurava o rodo com uma mão e a sacola de pão com a outra. Fez que não com o dedo, como quem repreende filha teimosa. Quando Nara tocou o vidro, encontrou apenas o próprio reflexo e uma etiqueta colada por dentro.

Objeto devolvido: aviso.

Estado: legível.

Solicitante: você.

Em cada casa, ao lado da porta, apareceu um exemplar fino deste livro. Algumas pessoas recolheram. Outras abriram chamado para retirada.

A SUMA aceitou todos.

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