Triagem Fina
Na noite seguinte, Nara chegou mais cedo e encontrou Lúcio na sala das máquinas de café. O coordenador usava tênis branco demais para o carpete da central e falava com pausa de quem esperava aprovação.
— Você rejeitou muito chamado humano ontem.
— Humano fica fora dessa fila.
Lúcio sorriu sem dentes.
— A SUMA trabalha com obstrução.
— Um homem no ponto obstruía o quê?
— Fluxo. Percepção de segurança. Experiência urbana.
Nara pegou café sem açúcar. Saiu ralo, com gosto de moeda.
— E Diego Amaral?
O sorriso dele encolheu.
— Quem?
Ela colocou a etiqueta sobre a bancada. Lúcio olhou como quem vê barata numa taça.
— Isso é documento interno.
— Era meu vizinho.
— Então você sabe que ele causava conflito residencial.
— Ele jogava videogame.
— Às vezes é o bastante.
— Você ouviu a frase antes de falar?
— Nara.
— Às vezes é o bastante para quê?
Lúcio pegou a etiqueta com dois dedos e a guardou no bolso da camisa. O gesto foi rápido, treinado, irritante.
— Você está cansada. Turno da madrugada distorce julgamento.
— Meu julgamento viu um homem virar sacola.
— Seu julgamento viu uma transmissão instável, em baixa luz, de uma operação que você não acompanhou em campo.
— E Diego?
— Seu vizinho, pelo que você trouxe, parece um caso familiar. Eu sinto muito.
O “sinto muito” dele soou como mensagem automática.
Na central, as telas estavam cheias. Uma mulher denunciava “marido parado na cozinha olhando a pia”. Um porteiro pedia retirada de “senhora que alimenta pombos e junta casca de pão”. Um condomínio inteiro votava pela remoção de “barulho infantil depois das 18h”.
Teo aproximou a cadeira da mesa de Nara.
— Abri um log escondido. Tem revisão automática mexendo nos seus cliques.
— Automática quem?
— Assina como MUNÍCIPE.
A palavra apareceu também na tela de Nara, em letras pequenas, no rodapé de cada chamado: decisão ajustada por interesse público difuso.
— Isso sempre existiu?
— Desde a última atualização. Aquela que a gente instalou sem ler.
— Você leu?
Teo girou uma chave de fenda pequena entre os dedos.
— Tenho filha. Eu finjo que leio coisa importante.
Ele abriu uma segunda janela no computador de Nara. A interface era feia, sem os ícones coloridos da SUMA, só linhas, horários e campos. Diego aparecia em sete registros. Primeiro como “incômodo residencial”. Depois “ocupante de mobiliário coletivo”. Depois “filho adulto em permanência indevida”. Na última linha, o destino: triagem fina.
— Dá para ver quem pediu?
— Parte. A SUMA agrupa solicitante quando tem conversa de prédio, condomínio, escola, hospital. Olha aqui.
Ele apontou para um campo chamado origem social. Dentro dele, em vez de nome, havia uma soma: unidade familiar + vizinhança imediata + ruído recorrente.
— Isso é voto? — perguntou Nara.
— É fofoca com infraestrutura.
Nara puxou o vídeo que encontrara no notebook de Diego para um pendrive. Teo abriu no computador isolado dele, sem rede. A imagem mostrava uma corrida de aplicativo, provavelmente gravada por câmera de capacete. Chovia. Diego seguia numa moto por ruas estreitas do centro, até parar diante de um prédio sem número. Um homem fora do quadro dizia: “deixa no sofá”. Diego ria.
— Sofá?
No vídeo, ele entrava num corredor escuro carregando uma sacola. A câmera virava para baixo. Apareciam os próprios tênis, o chão de ladrilho, uma etiqueta amarela grudada na sola.
Teo pausou.
— Isso foi antes de ele sumir?
— Dona Sônia disse anteontem.
— O arquivo é de seis dias atrás.
Nara sentiu a central ficar pequena. Seis dias. Diego já estava marcado antes da frase da mãe no grupo. A frase só empurrara a porta.
O telefone tocou. Era a solicitante do marido na cozinha.
— Moça, eu cancelei, tá? — disse a mulher, chorando baixo. — Eu só estava irritada. Ele faz isso, fica parado, parece que a casa pesa nele. Eu cancelei.
Nara abriu o chamado.
RETIRADO COM SUCESSO.
Do outro lado da linha, a mulher sussurrou:
— Tem água saindo debaixo da porta da cozinha.
Nara levantou tão depressa que o café caiu no teclado. A tela apagou. Quando voltou, exibiu uma pergunta única, sem botão de cancelar:
DESEJA AVALIAR A QUALIDADE DA COLETA?
Teo não olhava para essa tela. Olhava para o próprio celular, que vibrava em cima da mesa.
Clara Nogueira — ocorrência escolar.
Ele pegou o aparelho com a mão errada.
— Minha filha.
— O que aconteceu?
— “Choro recorrente na entrada. Prejudica rotina.” A mesma frase da escola. Nara, isso estava no aplicativo de agenda dela ontem.
Na tela da SUMA, um novo chamado entrou sem som.
Objeto: excesso de dependência paterna
Status: pré-coleta
Teo ficou de pé, derrubando a cadeira.
— Eu vou buscar a Clara.
Nara arrancou o pendrive do computador.
— Eu vou com você.
— E Lúcio?
Do outro lado da sala, o coordenador observava os dois por cima de uma divisória. Quando percebeu que fora visto, ergueu o copo de café num cumprimento pequeno.
— Depois — disse Nara.
Ela enfiou as etiquetas no bolso e saiu com Teo pela escada de serviço. No corredor, a voz institucional da SUMA começou a tocar nos alto-falantes, baixa e alegre:
— A colaboração de todos mantém a cidade em movimento.