Cena I
Cena I
Cardoso, Amália (Vestidos para a cerimônia e prontos para sair.)
UMA Parte (Que logo sai, à porta do fundo.)
Cardoso - Sim, senhor; sim,. senhor! Pode ir com Deus. Descanse, que hoje mesmo serão dadas as providências que o caso exige.
Parte - Às ordens de Vossa Senhoria. (Retira-se.)
Cardoso - Safa!
Amália (Erguendo-se.) - Deixar-te-ão desta vez?
Cardoso- E metam-se!
Amália - Hein?
Cardoso - E metam-se a servir o país!
Amália - Para que aceitaste esta maldita subdelegacia?
Cardoso (Ainda passeando.) - Eu não aceitei: pedi. Mas já tenho dito um milhão de vezes que os serviços prestados ao país e ao partido pesam muito no ânimo daqueles que me podem fazer galgar mais um degrau na escala social.
Amália - Deixa-te disso, Cardoso; um degrau dessa tão falada escala social, não vale decerto o sacrifício que te custa essa autoridade de ca-ca-ra-cá. São uns desfrutadores, eis o que são! Hás de ser pago com um pontapé. Verás!
Cardoso - Hei de ser promovido na primeira vaga que aparecer. O Cantidiano está por pouco a bater a bota. Verás se o lugar é ou não é meu!
Amália - Fia-te na Virgem e não corras.
Cardoso - E uma vez que aceitei o cargo...
Amália - A carga, deves dizer.
Cardoso - Venha com ele o sacrifício. Antes de tudo o dever!
Amália - Estamos prontos para sair há duas horas.
Cardoso (Consultando o relógio de mesa.) - Há duas horas e dois minutos.
Amália (Embonecando-se ao espelho.) - Creio que não chegamos a tempo para o batizado.
Cardoso - Que remédio terão eles, senão esperar pelos padrinhos?
Amália - E o carro na porta há tanto tempo?
Cardoso - Anda com isso, anda com isso! E metam-se!
Amália - Hein?
Cardoso - E metam-se a servir o país!
Amália - Vamos. Não percamos mais tempo.
Cardoso - Vamos . (Vão saindo. Batem palmas.)
AMBOS - Bateram.
Cardoso - Quem é?
Apolinário (Fora.) - Sou eu.
Amália - Eu quem?
Apolinário (No mesmo.) - Um criado de Vossa Senhoria.
Cardoso - Entre quem é.
Amália - Temo-la travada! (Entra Apolinário. Pisa macio e fala descansado.)