Capítulo 1
Pequim
Jung Narae
O dia amanhece ensolarado e sem nuvens, os raios de sol aparecem iluminando fortemente os locais que antes estavam escuros, as pessoas caminham com seus guarda-chuvas para se proteger dos raios solares. Um clima perfeito para sair com os amigos ou família, se divertir, entre outras coisas.
Até sairia para o centro da cidade nem que seja para comer algo diferente, mas minha avó rabugenta não deixa.
O que a velha tem de inteligência para administrar dinheiro tem de chata.
Isso quando não me pede para fazer algum remédio porque o pulmão está parecendo uma chaminé de tanta fumaça que recebe. Nem sei qual é a graça de fumar, vejo isso como um meio mais rápido para morrer.
Suspiro passando a mão na testa voltando a lavar as roupas no rio atrás do bordel, deveria era estar fazendo minhas experiências mirabolantes para ser um possível avanço na medicina. Sempre acaba sobrando para mim lavar as roupas, enquanto isso as dondocas das outras cortesãs ficam sem fazer nada.
Qualquer oportunidade sou a primeira a ser escravizada para fazer o trabalho pesado.
Será que elas sabem que eu também tenho que entreter os clientes?
Bato a roupa ensaboada na pedra irritada, só não me jogo nesse rio porque não sei nadar, senão teria feito isso faz tempo. Espero que na próxima vida eu seja um animal selvagem ou vire um fantasma para atormentar todos.
Olho meu reflexo na água agitada, meus traços se misturam entre chineses e coreanos. A velha foi vendida pelos pais por conta de uma dívida e veio para cá onde atuou como cortesã, teve minha mãe com um cliente e anos depois veio eu.
Somos vistas apenas como entretenimento, nunca como possíveis esposas de um homem chinês nativo. Tudo por sermos diferentes, principalmente eu e a minha mãe que somos mestiças.
Mas nada me impediu de aprender artes marciais e dar um soco na cara de algum cliente que acha que pode fazer o que quiser e vai ficar por isso mesmo.
Respiro fundo enxaguando as roupas para tirar o sabão terminando de lavá-las, as torço para tirar o excesso antes de me levantar indo ao varal. Me perco em meus pensamentos enquanto penduro as peças umidas nas cordas, nem percebo quando minha avó chega me batendo com o ópio que usa para fumar.
— Você ficou surda agora, menina? — indaga dando uma tragada.
— Isso machuca, vovó! — reclamo massageando minha cabeça.
— Tem sorte que não dei mais forte, se já terminou ai entre, temos clientes esperando.
— Já vou, estou terminando de pendurar essas coisas.
A velha revira os olhos entrando no bordel, suspiro terminando de pendurar as roupas. Entro na casa Verdete indo para o meu quarto onde troco meu hanfu por um vermelho com detalhes em dourado.
Eu não gosto dessa cor, mas preciso agradar os clientes. Não vou casar mesmo então tanto faz se eu morrer ou ser cortesã a vida toda.
Faço uma maquiagem leve, apenas o básico porque estou sem paciência para uma superprodução. Escuto alguém bater na porta e pelo espelho vejo minha irmã de bordel, a Xiaoli. Ela quem cuidou de mim pela infancia após a morte do meu pai adotivo com quem aprendi tudo sobre medicina já que era apotecário.
— Vim ver se você precisava de ajuda com a maquiagem. — ela fala adentrando o quarto.
— Não é necessário, não estou com muita vontade de ficar com a cara parecendo um reboco. — expresso fazendo um coque no meu cabelo ondulado.
— Não deixe as outras te diminuirem, ok? Você é linda e sempre será.
Sorrio sem jeito e Xiaoli se retira, preparo a mesa colocando o tabuleiro e as peças de weiqi. Escutei minha avó conversando com alguém que presumo ser um cliente, a porta ficou aberta e nesse momento um homem com máscara de oni entra, confesso que fiquei curiosa, pois não é comum usarem máscaras tradicionais japonesas.
— Nihao! Seja bem-vindo a casa Verdete. — falo fazendo um sinal para que se sente á mesa onde está o weiqi.
O homem apenas assente indo ao móvel enquanto eu fecho a porta, me ajoelho diante da mesa e começamos a jogar o go. Busquei disfarçar o meu aborrecimento, pois o que eu queria estar fazendo é as minhas experiencias.
— A senhorita parece aborrecida. — ele fala enquanto move uma peça.
— Está tão visível assim? — indago movendo outra.
— Muito, deveria tomar mais cuidado com isso, as pessoas conseguem te ler pelas expressões faciais e corporais.
— Minha irmã fala isso também, mas os homens preferem ignorar.
Olho para o tabuleiro planejando o próximo movimento, ele joga bem, mas fui ensinada a vencer então vou ser competitiva.
Movo a peça na outra linha já sentindo o velho espírito competitivo, não consigo ver que expressão está fazendo por conta da mascara.
— Por que não tira essa mascara? Se for feita de madeira ela é pesada. — expresso vendo que a peça foi cercada.
— Não quero chamar a atenção, olhos curiosos são irritantes.
— Compreendo, é como se as pessoas quisesse ver dentro de nós apenas com o olhar.
— Teria outro jogo para jogarmos? Minha cabeça dói com o weiqi.
— Tenho mahjong, serve?
— Sim, é meu jogo favorito.
Me levanto recolhendo as peças e o tabuleiro, vou a gaveta de jogos procurando pelo mahjong, o homem faz uma pergunta que me pega de surpresa.
— Você não é totalmente chinesa, quais são suas origens?
Fico em silencio procurando palavras para responder ele, ninguém nunca me fez essa pergunta, apenas queriam me tocar para sentir a textura da minha pele já que valho mais permanecendo virgem.
— Eu nasci na China, mas minha avó é coreana, eu e minha mãe somos mestiças.
— Interessante, agora entendo porque a madame Jung cobra tanto por você.
— É aquilo, quanto mais procurada maior é o valor.
Volto a mesa organizando as peças de mahjong iniciando o jogo, o espírito competitivo então faço o possível para ganhar. No fundo quero que isso termine logo porque necessito de fazer meus experimentos com as ervas que peguei do jardim.
Peça vai, peça vem, vi que esse homem é mais inteligente do que imaginei. No entanto continuei intrigada com o fato dele estar de máscara e não tirá-la por nada, imagino que deve ter alguma cicatriz feia no rosto e por isso não quer que vejam.
Enquanto o jogo estava próximo do fim ele vence, aquilo feriu meu orgulho então apertei os lábios frustrada.
— Não se pode ganhar todas, senhorita.
— Me fazer trocar de jogo para poder ganhar é um insulto ao meu orgulho.
Um som suave de risada vem dele que se levanta, presumo que já irá partir então me levantou também para acompanhá-lo até a porta.
— Já ia me esquecendo, isso é para ti. — ele fala tirando um palito de prata com pedras preciosas da manga, a peça é posta em meu cabelo.
— Obrigada, é muito bonita. — agradeço sentindo meu rosto corar.
— Uma bela dama precisa de algo para realçar sua beleza. — falo antes de sair do quarto me deixando sozinha.
Tranco a porta indo para um canto do meu quarto onde finalmente farei meus testes com as ervas novas. Espero criar algo que faça homens babacas não ficarem eretos.