Capítulo 3 A Cortesã do General · Capítulo 4 de 4
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Capítulo 3

Pequim

Jung Narae

O dia seguinte veio e aqui estou eu realizando mais um dos meus experimentos, usei algumas ervas afrodisíacas misturando com outras e testei em um cliente que estava tratando a irmã Xiaoli mal. O resultado me surpreendeu: ele não conseguiu ficar ereto por nada e xingou os céus por não ter conseguido dormir com ela.

Agora tenho um método para punir esses homens que se acham só por terem um órgão diferente entre as pernas. Essa será a melhor forma de mexer com a virilidade desses mequetrefes que nem banho devem tomar para vir ao bordel.

Decidi usar o palito que o cliente misterioso de ontem me deu, ninguém reparou no objeto em meu cabelo e até agradeço por isso. Não quero lidar com cortesãs invejosas que acham que não mereço ser presenteada por um cliente por ser mestiça.

Que na próxima vida delas virem todas as espumas do mar.

Ainda estou curiosa para saber quem era aquele homem, para usar uma máscara horrorosa na rua deve ser alguém importante. É bem comum homens poderosos virem a casa Verdete, são os que possuem condições os suficientes para pagarem pelas cortesãs mais cobiçadas e de maior valor.

Pelo menos aquele cliente não me chamou de aberração por ser mestiça e muito menos tentou me violentar.

Homens acham que por sermos cortesãs possuem direito de abusar de nós como se fossemos menos por causa do nosso trabalho.

Termino de moer as ervas antes de colocá-las em um infusor, o cheiro é agradável e doce, usei pimenta em pó junto de hortelã para ver o que acontece. Como meu objetivo é causar flacidez nos homens tem que ser algo que não os façam ficar eretos naquela hora.

Quando ia terminar minha experiência sou chamada pela minha avó, praguejo baixinho enquanto ela entra sem ao menos bater na porta.

Agora vai eu fazer isso com ela, a velha logo joga um tamanco de madeira em mim.

— O que foi agora? Outro cliente saiu sem pagar?

— Eu nunca deixo esses idiotas saírem sem pagar, Narae. Na verdade, veio um guarda do Imperador buscar uma cortesã, mas não disse para que.

— E o que eu tenho a ver com isso?

— Você é algum tipo de asno para falar uma coisa dessas?

— Não exagere também, estou ocupada agora.

— Suas bugigangas podem esperar, desça e ofereça chá para ele.

Solto um resmungo antes de me levantar, nem me dou ao trabalho de me arrumar para recebê-lo. Só espero que a velhota não pense em querer me vender, tem outras cortesãs que valem o dobro, fora que eu não tenho nada de tão especial assim.

E para completar não tenho frutos grandes como o das outras. Não é à toa que me provocam me chamando de despeitada.

Pelo menos tenho habilidades suficientes para cuidar de todas quando estiverem doentes, assim ninguém precisa depender de um homem para resolver as questões de saúde.

Chego no salão onde vejo cortesãs no colo dos clientes que bebem chá, vejo um homem de armadura que presumo ser o guarda imperial. Provavelmente quer se divertir com alguma cortesã, se bem que a maioria está custando o salário todo de guardas comuns.

— Nihao! O que o senhor deseja? — pergunto até esquecendo de pegar um bule de chá.

— Quero conhecer as melhores cortesãs da casa Verdete, pretendo comprar uma. — responde se endireitando na cadeira, arqueio uma sobrancelha.

— Compreendo, não é por nada não, mas as melhores mesmo que são as mais procuradas tem um valor bem alto.

— Sei disso, senhorita, mesmo assim quero conhecê-las.

Olhei para ele antes de ir pegar o bule de chá, vejo o quarteto das cortesãs mais procuradas do bordel. Bem não sendo eu está de boa, nenhum homem vai querer alguém que não tem nem quinze centímetros de peitos.

Ao retornar ofereço um pouco do chá de cerejeira ao guarda que me agradece bebericando um pouco do líquido quente. Minha avó mostra as quatro, entre elas a irmã Xiaoli, o homem ficou analisando cada uma delas.

— Essa que está me servindo vale quanto? — ele pergunta apontando para mim e paro de servir o chá. Esse homem está pensando em me comprar?

— Eu não estou a venda-.

— Está valendo cem mil qians. — minha avó responde e olho para ela indignada.

— Oi? Você caducou de vez, é?

— Perfeito, vou levar ela.

Isso não pode estar acontecendo.

— Ok, Narae pode pegar suas coisas — a velha fala fumando seu ópio.

— E quem vai cuidar da minha mãe? Ela precisa de mim!

— Xiaoli cuidará dela, não se preocupe, alguém da nossa família precisa ter uma vida digna.

Olho para ela desacreditada do que acabou de fazer, não demora muito para que alguém apareça com uma bolsa onde minhas coisas estão. Essa velha caduca acha que eu vou ter uma vida normal saindo desse bordel? Que eu vou ter uma vida digna quando sou filha e netas de cortesãs?

Pego a bolsa e abro verificando as coisas dentro dela, vejo uma caixa de madeira onde estão as joias da minha mãe. Pelo menos fizeram essa questão de me dar uma lembrança dela, só espero que façam o mínimo que é cuidar da minha genitora.

O guarda bebe o resto do seu chá e deixa um saco pesado que está cheio de moedas de ouro, os olhos de minha avó brilharam ao abri-lo vendo aquelas moedas. Apenas dei um aceno de despedida a todas antes de ser guiada pelo homem saindo da casa Verdete, avisto uma carruagem majestosa que deve valer todos os órgãos do meu corpo.

Bem melhor que as outras que eu costumava andar, tinha umas que só falta cair os pedaços.

Entro nela sentando-me no banco que é incrivelmente macia, vejo uma mesa de centro com alguns doces que nunca tinha visto ou experimentado antes. A carruagem começa a andar se afastando aos poucos da casa Verdete, pego um dos doces disponíveis levando a boca.

— O Imperador solicitou que eu comprasse uma cortesã para ser a esposa do general, tente parecer ser alguém da corte para não levantar muitas suspeitas. — o guarda conta e começo a entender.

Está explicado por que esse homem foi na casa Verdete, contudo faria mais sentido se fosse ele a comprar uma cortesã. Não é comum que mulheres como eu sejam compradas para casar, apesar de que cortesãs virgens tem um valor maior.

Para o Imperador ter feito isso tem que ter alguma razão, não é sempre que uma cortesã é comprada para se tornar esposa de alguém importante. Nesse meio costumam escolher mulheres puras, da nobreza e acima de tudo chinesa sangue pura.

Talvez meu futuro marido não tenha apreciação por mulheres e querem manter as aparências com alguém que não consideram importante, ou pode ser que ele não queria encontrar uma esposa por conta própria. A primeira opção faz mais sentido, contudo, pelo que o guarda disse ele é general então pode ter tido algum trauma que o faça ter pavor de casar e continuar a linhagem.

Mas de qualquer forma é só um achismo meu.

Será que serei bem recebida em meu novo lar? E se eu for desprezada por ser mestiça? Ou expulsa quando descobrir que sou uma cortesã?

Sou dispersa de meus pensamentos em relação ao general quando a carruagem para, acabo me engasgando com o chá que tomava e começo a tossir. Pela janela pude ver que o céu já está escuro e cheio de estrelas, levando em conta que já era tarde quando estava na casa Verdete não me surpreende ter chegado a noite.

Assim que a porta é aberta e o guarda estende a mão para me ajudar a descer, pego nela saindo da caixa de madeira batendo no meu hanfu tirando uma poeira imaginaria. Levo meu olhar a mansão ficando impressionada não só com a arquitetura, mas também com sua grandeza, muros altos rodeiam a residência para protegê-la.

Já estou vendo que vou me perder fácil nesse lugar, não é maior que o palácio, contudo, continua sendo grande. Vou levar bastante tempo para me acostumar e decorar todo o ambiente.

O guarda me guia até o portão onde sou recebida por outro, os dois falam alguma coisa no qual não consegui entender antes de ir embora, sou guiada pelo caminho de pedras brancas passando pela ponte até chegar na porta que é aberta. Sou recebida por uma mulher de meia idade que faz uma reverência a mim, ela me dá espaço para entrar e retribuo antes de adentrar no local.

— Presumo que a senhorita seja a noiva do senhor Huang, me chamo Lanxin, sou a governanta da mansão Huang, é um prazer conhecê-la. — ela se apresenta se curvando para mim.

— Igualmente, me chamo Narae. E não precisa se curvar, pode dar problema em suas costas. — expresso fazendo um sinal para que se levante

— Certo, senhorita Narae. Não precisa se preocupar com minhas costas, estou velha, mas consigo fazer as coisas normalmente. — A senhora fala fazendo um sinal para que eu a siga. — Irei levá-la para o escritório do senhor Huang.

Lanxin me guia pela enorme mansão, senti os olhares de alguns criados em minha direção o que me deixa incomodada. Algo me diz que já se espalhou a notícia de que a futura esposa do general é uma cortesã, gente fofoqueira é uma verdadeira praga.

Continuamos a andar pelos corredores até chegarmos em uma porta que está aberta, contudo não vimos nenhum sinal de meu noivo.

— Ele deve estar no quartel, se quiser o esperar aqui fique à vontade, só não mexa em suas coisas, o senhor Huang fica bravo quando fazem isso.

— Tudo bem, muito obrigada, senhora Lanxin.

Observo a mulher se curvar antes de se retirar do recinto, olhei para o corredor antes de me aproximar de um vaso que há na janela. Cheiro a planta identificando como camomila, não resisto e pego um pouco guardando em uma bolsa que guardo dentro do meu hanfu.

Olho ao redor da sala e meu olhar pousa em uma máscara de oni que está em um apoio, uma sensação de familiaridade me atinge ao ver aquele objeto. A imagem do homem de ontem vem à mente e se não me falha a memória era exatamente essa que ele usava, coincidência talvez?

Traço meus dedos pela máscara antes de pegá-la sentindo a textura da madeira, minhas memórias me levam ao cliente misterioso enquanto encaro o objeto de madeira. Não vi seu rosto então não posso afirmar que seja o general Huang, mas não vou descartar essa possibilidade, homem é homem independente da classe.

Continuei a encarar a máscara e a cheiro sentindo o aroma de sândalo misturado com algo parecido com canela, não percebo que alguém entra no escritório e se aproxima de mim.

— Nunca te falaram que não se deve mexer nas coisas dos outros sem autorização? — uma voz soa me fazendo pular de susto, por pouco não deixei a máscara cair.

Me viro abruptamente vendo um homem de cabelo castanho longo e olhos da mesma cor exalando autoridade. Seu olhar é intimidador e por um momento sinto que está vendo o fundo da minha alma procurando pelos meus pecados.

Pelo cheiro de azedo deve ter vindo de um treinamento, ele poderia ao menos ter tomado um banho antes. Ninguém merece ter que sentir odor de suor, meu nariz até fica irritado só de sentir esse cheiro.

— Me desculpe... eu só... — fico nervosa ao falar. Eu fui criada em um bordel, não deveria estar assim.

O homem a minha frente que presumo ser meu noivo se aproxima pegando a máscara da minha mão deixando no suporte. Sinto enjoo com o fedor de suor vindo dele o que me deixa agoniada.

— É uma coincidência e tanto mandarem justamente a cortesã que estive ontem. — ele expressa em tom grave e fico surpresa.

— É o que? Você era o cliente com a máscara de oni que me venceu no weiqi? — indago chocada com o que diz.

Por estar perto demais coloquei as mãos em seus ombros o afastando de mim incomodada com o odor, até passo as mãos no hanfu agoniada.

Que maravilha, então meu futuro marido é um cliente da casa Verdete. Mas não posso negar que quero saber o porquê de ele ter usado essa máscara horrorosa ontem.

Já estou até prevendo que vou ser expulsa já, já em menos de vinte e quatro horas dessa mansão, não tem chances nenhuma de eu ser bem trata por alguém como ele. Até porque ninguém quer uma cortesã e ainda por cima mestiça como esposa, só porque estava começando a gostar da nova vida.

— Uma mulher mestiça e cortesã... seria um escândalo muito grande se a sociedade descobrir que o conde e general do exército tem uma cortesã como noiva... — ele expressa e articula enquanto olha para mim.

— Eu não tenho culpa nenhuma se o guarda imperial escolheu uma cortesã como esposa de um general. Me mantenha fora dessa. — conto levantando as mãos em rendição.

— Presumo que você não estava a venda, senão teriam comentado sobre algo assim pela cidade.

— Não, mas a velha caduca da minha avó me vendeu no último minuto. Não é como se eu fosse a mulher ideal para se casar por ter trabalhado na casa Verdete.

E fora que meus peitos são pequenos, parecem duas maçãs comparados aos de outras cortesãs.

Senti sua mão em meu queixo levantando minha cabeça, me seguro para não fazer uma expressão de nojo por causa do odor.

— Ninguém precisa saber desse detalhe, felizmente não sou alguém que se importa com a opinião alheia. o que você é ou deixou de ser não me interessa, o importante é o que eu devo achar e para sua sorte não acho tão ruim assim te ter como minha esposa.

— Sério? A primeira coisa que costumam reparar é no tamanho das pomas e bem, como pode ver as minhas são do tamanho de duas maçãs.

— Isso é irrelevante para mim, o que mais importa é sua lealdade a mim. Suas pomas são pequenas, mas não é só isso que me agrada.

Coloco as mãos em seus ombros novamente o afastando de mim, ele finalmente entende que estou incomodada com cheiro.

— Eu sei que estou com mal odor, não se preocupe que logo irei tomar banho. Mandei as servas prepararem seus aposentos, em breve irão te levar até lá.

— Ok, mas ainda não sei seu nome, se é que você tem.

— Você é muito ousada para o seu próprio bem, garota, me chamo Shaoran, sou o general do exército imperial. Espero que nossa convivência seja... suportável.

Com isso Shaoran sai do escritório me deixando sozinha, fico parada tentando entender o que acabou de acontecer.

Esse homem é esquisito, mas pelo menos não é um babaca ao contrário dos outros clientes da casa Verdete. Ele vai precisar de bastante ervas aromáticas ao tomar banho para tirar esse fedor horrível de suor.

Não sei se o que Shaoran disse sobre não se importar com o tamanho dos meus seios é verdade ou se só disse aquilo para me confortar. Já estou prevendo que minha estadia nessa mansão não vai ser nada fácil.

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