Capítulo 2
Pequim
Huang Shaoran
Deixo a casa Verdete após pagar a dona do local, me afasto o suficiente de lá antes de tirar a máscara. Não é bom que me vejam saindo de um bordel, as pessoas esperam uma oportunidade para criar boatos e não vou dar motivos para que isso aconteça.
Vim mais para pode me distrair, a guerra terminou faz um ano, contudo ainda lido com o estresse dos dias em que fiquei no campo de batalha. Poucos do meu pelotão sobreviveram e ainda precisei enfrentar a dura realidade de contar para suas famílias que morreram em batalha.
A guerra não se importa com familias ou pessoas, é basicamente tudo ou nada.
E todos perdem algo de alguma forma.
Um ente querido, ou a si mesmo.
Ando pelas ruas da cidade com as mãos para trás observando as pessoas que andam seja para passeio, compra ou venda de produtos diversos. Um homem de uma banca de vinho me abordar tentando me vender uma garrafa que veio das Índias, mas recuso educadamente.
Tem um monte de garrafas na mansão, preciso terminar com elas primeiro. O que não será um problema já que desde que voltei para casa tenho bebido muito.
E consequentemente recebo sermões de meus irmãos e do meu primo sobre estar bebendo. Afinal tenho um cargo tanto no exército como na nobreza, apesar de não ligar muito para essa segunda coisa.
Enquanto caminhava vejo uma mulher segurando a mão de duas crianças que devem ser seus filhos, me pego me lembrando da minha mãe adotiva. Quando mais novo costumava passear com ela junto dos meus irmãos, uma das poucas lembranças que tenho dela.
Aperto os lábios buscando disfarçar a angústia que senti em meu peito, a imagem me afetou mais do que gostaria, não quero que alguém me veja em um momento de fraqueza.
Prometi a ela que cuidaria dos meus irmãos custe o que custasse e vou cumprir com isso.
No entanto ainda quero ter minha vingança contra os desgraçados que mataram ela e meu pai.
Eles sentiram a dor e a tormenta de terem mexido com minha família e tirado a coisa mais importante de mim.
Ninguém escapará da minha ira!
Suspiro indo em direção a mansão, dispersos aas lembranças ruins daquela trágica noite e fico pensando na cortesã que me atendeu. Ela até tentava disfarçar, mas estava bastante aborrecida, deu para perceber que queria terminar seu trabalho rápido.
É inegável o fato de ser uma mestiça, seus traços coreanos misturados com os chineses revelam suas raízes. Ela tem uma beleza única, as pessoas daqui não gostam do diferente, mas eu aprecio aquilo que foge dos padrões.
Ela deve ser o tipo de mulher mais geniosa e só pelo olhar parecia que queria estrangular alguém.
Deveria me preocupar com isso, pois nunca se sabe se alguém pode me atacar por impulso, contudo achei isso fofo da parte dela. É raro ver mulheres que me olham como se eu fosse algo indesejado ao invés de tentar me cortejar.
Imagino quanto ela deve causar com sua personalidade, apesar de ser a mais procurada, segundo a madame Jung.
Uma coisinha adorável.
Depois de caminhar e ser abordado por vários vendedores, chego na mansão da família. Pedi para que construíssem uma mais próxima a cidade porque se eu ficasse em minha antiga casa teria lembranças ruins daquele dia, para também minha segurança e de meus irmãos decidi me mudar.
Ao entrar em minha residência sou recebido por Jianghua, minha irmã de sangue, que está com as mãos na cintura.
— Onde você estava? E por que está com essa máscara ridícula? — ela pergunta apontando para o objeto em minha mão.
— Fui dar uma volta pela cidade. — respondo simples indo ao meu escritório.
— Volta pela cidade ou no bordel?
— Jianghua!
— Já faz tempo que você anda indo no bordel, está procurando uma nova esposa no meio de um monte de cortesãs?
— O que? Não claro que não! — nego enquanto sou seguido até meu escritório. — sabe que não tenho pretensão nenhuma de casar.
Coloco a máscara em um suporte antes de me sentar, solto um suspiro e minha mente volta para o cenário de jogatina que tive com aquela cortesã.
Será que pretendem vende-la?
Dou um sorriso bobo ao me recordar de seu rosto ruborizado quando a elogiei, parece que ela não está acostumada a receber elogios. Não percebo que novamente Jianghua me questiona.
— E esse sorriso bobo hein?
— Dá para parar de me incomodar um pouco?
— Senhor o imperador te mandou uma carta! — um servo fala afobado aparecendo em meu escritório.
Carta do Imperador? O que será que meu primo quer agora?
Ao me entregar a carta o agradeço, retiro o papel do envelope e leio.
"Prezado General Huang Shaoran,
Eu, o sucessor do trono e atual imperador da China, Huang Zhen, venho através dessa carta comunicar que achei por bem buscar por uma esposa para ti visto que um duque precisa de uma duquesa para administrar suas riquezas e ajudar o povo.
Pedi a um dos meus servos que escolhesse a dedo uma nova candidata ao senhor, não posso garantir que será uma mulher pura e da nobreza porque meu eunuco achou de bem ir atrás de uma cortesã para que não fosse cobiçada assim que se casasse.
Conto com sua compreensão.
Assinado: Imperador Huang Zhen"
Dou um soco sutil na mesa, assustando minha irmã, e dobro a carta buscando controlar minha irritação. Isso só pode ser alguma brincadeira e de muito mau gosto desse idiota. Ele acha que estou solteiro porque não vou atrás de uma esposa e não porque sou traumatizado e posso causar frustração.
Como o Zhen achou que seria uma ótima ideia arranjar uma esposa para mim? No primeiro dia de casamento ela vai querer correr de mim com medo de morrer.
— O que houve, irmão? — Jianghua pergunta um pouco assustada com minha reação.
— O Zhen arranjou um casamento para mim. — respondo passando as mãos no rosto.
— Que surpresa isso, será uma boa para você.
— Uma boa? Jianghua, eu não quero me casar e nem tenho preparação para isso!
— Meu irmão, você precisa pensar no futuro da familia, precisa de herdeiros para continuar o legado.
— Ela vai querer fugir de mim no primeiro dia, eu tenho sangue nas mãos!
— Shaoran a guerra acabou, você não está mais em um campo de batalha tirando vidas.
Bufo de irritação, eu sei que minha irmã está certa sobre isso, não estou mais lutando contra inimigos. Mas e se eu não conseguir amar e dar o que minha esposa merece? E se eu não conseguir oferecer o que precisa por causa de minha reputação?
Olho para um quadro pintado da minha mãe sorrindo com um bebê em seus braços, ela saberia como fazer e me ajudaria. Me encosto na cadeira sem saber o que fazer ou dizer, eu não estava preparado para algo assim.
— Está pensando nela, não está? — Jianghua indaga como se estivesse lendo minha mente.
— Impossível não pensar nela, foi a única que me entendia e me via mais como um general sangrento. — replico desviando o olhar do quadro como se o simples ato de vê-lo me causa um peso estranho.
— Compreendo, mas pense no quanto ficaria feliz de te ver ter uma família e sendo amado pelo que é.
— Não é tão simples assim, ela sabia que eu só fiz o que me foi ordenado, via que apesar de tudo eu ainda sou um ser humano. Outra não irá me entender e serei visto como um monstro cruel e sem coração.
— Ninguém sabe o que o futuro nos espera, tente ver isso como uma chance de ter uma vida normal.
Jianghua deixa meu escritório indo fazer outra coisa. Fiquei um tempo refletindo até que decidi sair, indo para a sala de treinamento. Pego minha Jian, tirando-a da bainha, jogando-a no chão. Seguro o cabo com as duas mãos e olho para o boneco de madeira à minha frente. Respiro fundo e dou início ao meu treinamento, começando a desferir golpes nele.