Capítulo VI - A entrevista O Zarco · Capítulo 6 de 25
Obra Menu

Capítulo VI - A entrevista

Capítulo VI - A entrevista

A cerca não era alta; era formada de grandes pedras, entre as quais haviam brotado centenas de trepadeiras, urtigas e cactos de caules verticais e esbeltos, formando um muro espesso, coberto por uma cortina de verdura. Sobre essa cerca, aproveitando uma de suas aberturas e sob os ramos sombrios do sapotizeiro, cujo tronco nodoso apresentava uma escada natural por dentro da horta, Manuelita havia improvisado para si um assento para falar com o Zarco em suas frequentes entrevistas noturnas.

O bandido não apeava do cavalo nessas ocasiões. Desconfiado ao extremo, como todos os homens de sua espécie, preferia estar sempre pronto para a fuga ou para a luta, mesmo quando falava com sua amada nas altas horas da noite, na solidão daquela viela deserta e enquanto a povoação dormia sobressaltada, sem que ninguém se atrevesse a mostrar o rosto depois do toque de recolher.

No mais, assim, a cavalo, ficava ao alcance da jovem para lhe falar e abraçá-la com toda comodidade, pois a altura do cercado não ultrapassava a cabeça da sela; e quanto ao animal, ensinado como todos os cavalos de bandidos, sabia ficar quieto quando a vontade do cavaleiro o exigia.

Por outro lado, a cortina vegetal que revestia o cercado de pedra apresentava ali um amplo rasgão que permitia aos amantes falar de perto, entrelaçar as mãos e abandonar-se às intimidades de um amor apaixonado e violento.

Já várias vezes alguns vizinhos de Yautepec, que costumavam transitar por essa viela de manhã para sair ao campo, haviam reparado nas marcas que o cavalo deixava nas noites de chuva, marcas que indicavam que alguém estivera ali parado por muito tempo, vindo do rio e tornando a dirigir-se a ele.

Mas supunham que fossem as de algum camponês que estivera ali na tarde anterior; ou, no máximo, suspeitavam que Nicolás, o ferreiro de Atlihuayan, cujo amor por Manuelita era conhecido demais, tivesse encontros com ela, embora todos soubessem, por outro lado, que a jovem manifestava profunda aversão pelo ferreiro, coisa que atribuíam a dissimulação hipócrita, desmentida por aquelas pegadas acusadoras.

Quanto a dona Antonia, mãe de Manuelita, ignorava completamente, como se pode supor, que sua filha tivesse entrevista alguma com alguém, e até o rumor sobre as marcas de um cavalo junto ao cercado de sua horta lhe era totalmente desconhecido.

Assim, sob aquele segredo profundo, que ninguém se teria atrevido a adivinhar, Manuela saía para falar com seu amante com toda a frequência que lhe permitiam as arriscadas excursões de assalto e pilhagem. Ele parecia muito apaixonado pela formosa moça, pois mal podia dispor de algumas horas, aproveitava-as, à custa do descanso e do sono, para vir conversar uma hora com sua amada, a quem avisava regularmente por meio dos emissários e cúmplices que tinha em Yautepec.

Desta vez era esperado com mais impaciência que nunca pela jovem, alarmada pelos perigos que as resoluções da tarde anunciavam para seus amores.

— Eu tinha medo de que você não viesse esta noite, e o esperava com ansiedade — disse Manuela, palpitante de paixão e sobressalto.

— Pois por pouco não vim, minha vida — respondeu o Zarco, aproximando-se da cerca e tomando entre as suas as mãos trêmulas da jovem. — Tivemos briga ontem à noite; por pouco um gringo maldito não me mata, e mal tive tempo de passar por Xochimancas, trocar de cavalo, comer um bocado e tomar um pouco de café; andei vinte léguas para vê-la... Mas o que você tem? Está tremendo! Por que me esperava com tanta ansiedade?

— Diga-me, você esteve no caso de Alpuyeca?

— Sim, justamente eu comandava a força. Por que me pergunta isso? Como soube tão depressa?

— Pois agora você vai ver: esteve aqui, como sempre, hoje à tarde, o fastidioso ferreiro, e a ele, dizendo minha mãe que já não via a hora de sair daqui para irmos ao México, mas que não sabia como, porque meu tio não vem, contou que uma tropa de cavalaria do governo tinha saído ontem de Cuernavaca em direção a Yautepec, e que havia dormido em Xiutepec; mas que hoje de manhã recebeu ordem urgente para perseguir uma partida que matou uns estrangeiros em Alpuyeca, ontem à noite, e que foi para lá...

— Já sabíamos... dizem que vão cair sobre nos com forças..., imagine, duzentos homens, no máximo! Terão bom cuidado de não se aproximar de Xochimancas... ali deixariam o couro estacado... E que mais?

— Bem, pois continuou dizendo que essa cavalaria do governo não apanhara nenhum de vocês, e que voltara a tomar a direção de Yautepec para continuar a marcha. Que então poderíamos aproveitar a oportunidade para irmos com a tropa.

— vocês?

— Sim, nos duas; e minha mãe disse que a ideia lhe parecia boa, que íamos nos preparar para ir embora, e até encarregou o ferreiro de vir amanhã para lhe trazer novas notícias e para deixar com ele seus encargos.

— Ah, caramba! De modo que é verdade?

— Muito verdade, Zarco, muito verdade. Minha mãe está com tanto medo que, não duvide, vai aproveitar a ocasião; e já me disse que vamos arrumando nossos baús com o mais necessário, que amanhã irá pedir a uma pessoa o dinheiro que tem guardado para ela, e nós vamos.

— impossível! — exclamou o bandido com violência. — impossível! Ela ira, mas você não; antes me matam.

— Mas como fazemos então?

— Recuse.

— Ah, seria inútil, Zarco. Você não conhece minha mãe; quando diz uma coisa, cumpre; quando manda algo, não se pode responder. Já tenho desgostos de sobra todos os dias porque ela quer me casar à força com o índio; e, por mais que eu lhe manifeste minha resolução de não me unir a esse homem, por mais desfeitas que lhe faça, e por mais que já lhe tenha dito na cara muitas vezes que não o amo, minha mãe continua em sua teimosia, e o ferreiro continua vindo também, certamente porque minha mãe lhe dá asas para que não abandone sua necedade. Mas, enfim, nisso posso desobedecer, porque alego minha falta de carinho; mas quanto a irmos embora... você bem vê que é impossível.

— Pois deixe-me pensar — disse o Zarco, pondo-se a refletir.

— Diga-me — interrompeu Manuela —, não seria possível que vocês atacassem a tropa do governo nas Tetillas ou em outro lugar, e a derrotassem? Vocês são muitos.

— Sim, minha alma; seria possível, e conseguiríamos. Mas vou lhe falar francamente: os rapazes não se arriscam a essas empresas senão quando esperam apanhar um bom botim, ou quando se defendem e veem a coisa irremediável. Mas aqui não iriam querer! Diriam que, atacando essa tropa, não vão receber senão muitos tiros; e, se a derrotarem, apanharão no máximo uns poucos cavalos magros, selas velhas, uniformes em farrapos. Ora, os soldados do governo parecem mendigos! Além disso, são cem homens. Teríamos de cair sobre eles com pelo menos quinhentos; e você acha que nos haveríamos de juntar todos para isso, e nada mais?

— Pois muito bem — replicou a jovem, contrariada —, eu já sabia que os Plateados só atacavam os indefesos!... E isso que minha mãe diz.

— Os indefesos? — disse o Zarco, ferido por sua vez no ponto mais vivo. — Isso diz sua mãe? Pois a boa senhora se engana; também sabemos atacar a tropa, e estamos cansados de fazê-lo e de triunfar... Indefesos! Pois bom seria que ela tivesse visto o tiroteio de ontem à noite. Aqueles gringos pareciam demônios... defendiam-se com rifles, com pistolas, com espadas.

— Ai, Zarco, dizem que vocês mataram as mulheres e as crianças!

— Quem disse isso?

— O ferreiro.

— Indio falador!

— Não é verdade?

— Que morreram? Sim, morreram; mas nós não as matamos, morreram na refriega. Enfim, não falemos desse assunto, Manuelita, porque você está me ferindo.

— Não, minha vida, não — replicou a jovem, com voz de infinita ternura, enlaçada ao pescoço do bandido. — Eu ofender você, que é todo o meu querer?

— Sim, Manuelita — disse ele, desprendendo-se dos braços dela. — Tudo isso que estava me dizendo era porque me acha covarde.

— Eu achá-lo covarde, Zarco? — disse a jovem, caindo em prantos. — Mas como você pôde pensar isso? Se eu acredito que você é o homem mais valente do mundo; se estou louca de paixão por você; se penso que meu coração vai rebentar de dor pela sua ausência, pelo medo que me dão os perigos que você corre!... Se eu sou inteiramente sua... e faço o que você quiser!

— Bom — disse o bandido, adoçando a voz e beijando-a com fúria —, bom, não chore mais, já não estou ressentido... mas não volte a me dizer essas palavras.

— Mas eu lhe digo o que contam; eu fico furiosa quando escuto isso, e não tenho outro consolo senão contar a você! Agora, meu desejo de que atacassem a tropa, você deve supor que nasce do próprio amor que tenho por você, para que não nos separemos. Se você tem outro meio... o de nos casarmos, por exemplo.

— Casarmos?

— Sim, e por que não?

— Mas você não pensa que não podemos nos casar?

— Por que? Diga-me.

— Por mil razões. Levando a vida que levo, sendo, como sou, tão conhecido, tendo tantos processos pendentes nos tribunais, havendo naturalmente ordem para me enforcarem onde me apanharem, onde eu haveria de me apresentar para que nos casassem? Você está louca!

— Mas não podemos ir para longe deste rumo, para Puebla, para o Sul, para Morelos, para onde não conheçam você, a fim de nos casarmos?

— Mas para isso seria preciso que eu a tirasse daqui, que eu a raptasse, que você fosse comigo para Xochimancas enquanto... e depois empreenderíamos a viagem para outra parte.

— Pois bem — replicou a jovem resolutamente, depois de refletir um momento —, já que não resta outro recurso, tire-me daqui; eu irei com você para onde quiser.

— Mas você se acomodará à vida que levo, nem que seja por esses dias? Vamos para Xochimancas; você já sabe quem são meus companheiros. É verdade que eles têm ali suas mulheres, mas não são como você; elas estão acostumadas a passar trabalhos, montam a cavalo, jejuam às vezes, passam noites sem dormir, não se escandalizam com o que acontece, porque acontecem coisas um pouco feias... Enfim, são como nós. Você é uma moça criada de outro modo... Sua mãe a quer muito. Tenho medo de que você se aborreça, de que chore lembrando-se de sua mãe e de Yautepec... de que me culpe por sua desgraça, de que passe a me odiar.

— Isso nunca, Zarco, nunca; eu passarei por todos os trabalhos que vierem, eu também sei montar a cavalo, e jejuarei, e passarei noites sem dormir, e verei tudo sem me assustar, desde que esteja a seu lado.

Olhe — acrescentou Manuela, com voz surda e no desvario de sua paixão frenética —, eu amo muito minha mãe, de fato, embora de poucos dias para cá me pareça amá-la menos; sei que talvez lhe cause a morte, mas prometo não chorar quando me lembrar dela, com a condição de que você esteja comigo, de que me ame sempre como eu o amo, de que saiamos logo desta região.

O bandido estreitou-a entre os braços e a devorou de beijos, comovido diante daquela explosão de amor, tão apaixonada, tão louca, tão sincera, que estava tão perto do frenesi e que lhe entregava inteiramente aquela jovem tão bela, tão cobiçada, tão sonhada em suas horas de paixão e desejo.

Porque o Zarco também amava Manuela, só que a amava da única maneira que podia amar um homem enlameado no crime, um homem a quem era estranha toda noção de bem, e em cuja alma tenebrosa e pervertida só cabiam já os gozos de um sensualismo bestial e as infames emoções que podem produzir o roubo e a matança.

Amava-a porque ela era linda, fresca, garbosa; porque sua formosura atraente e voluptuosa, a opulência de suas formas, seu andar lânguido e provocador, seus olhos ardentes e negros, seus lábios de romã, seu acento harmonioso e brando, tudo exercia um império terrível sobre seus sentidos, excitados dia após dia pela insônia e pela obsessão constante daquela visão.

Aquilo não era amor, no sentido elevado da palavra; era o desejo esporeado pela impaciência e lisonjeado pela vaidade, porque, de fato, o bandido devia sentir-se afortunado por merecer a preferência da mulher mais bonita da comarca.

Assim, tão logo o Zarco se certificou de que a jovem estava resolvida a afrontar tudo para segui-lo, sentiu-se feliz, e todo o sangue de suas veias afluiu ao coração naquele instante supremo.

— Bem — disse, separando-se dos braços de Manuela. — Então não há mais o que falar: você sai comigo, e vamos embora...

— Agora? — perguntou a jovem, com alguma indecisão.

— Não, agora não — respondeu o bandido. — Agora é tarde e você não poderia se preparar. Amanhã; virei buscá-la na mesma hora, às onze. Não dê motivo algum para sua mãe desconfiar; durante o dia, fique como se nada fosse, com muito disfarce; não tire mais roupa do que a muito necessária. Lá você terá toda a que quiser; mas tire suas joias e o dinheiro que lhe dei. Você guarda tudo isso separado, não é verdade?

— Sim, tenho tudo num baúzinho, enterrado.

— Pois bem: desenterre-o e me espere aqui amanhã, sem falta.

— E se por acaso chegar a tropa do governo? — perguntou Manuela, inquieta.

— Não, não virá, fique segura. A tropa do governo terá andado todo o dia de hoje nos procurando; depois, como esses soldados têm uma cavalhada tão magra e miserável, descansarão todo o dia de amanhã, e, no máximo, voltariam a Cuernavaca depois de amanhã, de modo que não estarão aqui senão dentro de quatro dias. Assim temos tempo. Você pode arrumar seus baús com sua mãe, como se estivesse se preparando para a viagem ao México, e não deixar de fora senão a roupa que há de trazer.

Se por desgraça ocorrer alguma dificuldade que a impeça de sair para me ver, mande-me aviso imediatamente com a velha, que devera me esperar onde sabe para me dar notícia. Mas, se não houver nada, nem a ela diga uma palavra. Tome — acrescentou, tirando dos bolsos da jaqueta umas caixinhas e entregando-as a jovem.

— O que é isto? — perguntou ela, recebendo-as.

— Você verá amanhã, e há de gostar... São joias! Guarde-as com as outras — disse o bandido, abraçando-a e beijando-a pela última vez. — Agora vou, porque já é hora; mal chegarei a Xochimancas ao amanhecer. Até amanhã, minha vida.

— até amanhã — respondeu ela. — Não falte.

— Amanhã você será minha, inteiramente!

— Sua para sempre — disse Manuela, enviando-lhe um beijo e ficando um instante sobre a cerca para vê-lo partir.

O Zarco afastou-se como havia vindo, a passo e recatadamente, e pouco depois se perdeu nas tortuosidades da viela apenas iluminada pela lua.

1/1
Menu

Fazer anotação