Capítulo XXI - A orgia
Capítulo XXI - A orgia
Assim se passaram alguns dias, que pareceram séculos a Manuela, séculos de tédio e tristeza. Já lhe era impossível habituar-se àquela existência entre os bandidos, pois, à medida que o Zarco a tratava com maior intimidade, sendo ela já sua amante, sentia maior desapego por ele, desapego complicado com uma espécie de medo ou de horror ao homem que pudera arrastá-la até aquele abismo.
Por necessidade de sua nova vida, Manuela tivera de travar relações, se não de amizade, ao menos de familiaridade com aquelas mulheres que habitavam a capela com ela, e até com as amantes dos outros bandidos que viviam em outra parte.
Entre elas fazia distinção de uma, não porque fosse menos perversa, mas porque conhecia muito bem Yautepec, onde havia residido muitos anos, e lhe falava sempre de pessoas conhecidas suas: de dona Antonia, de Pilar, de Nicolás, sobretudo de Nicolás, a quem conhecia muito.
— Ai, Manuelita! — dissera-lhe essa mulher no primeiro dia em que travaram conversa —, eu me alegro muito de que a senhora esteja conosco, porque é tão bonita e tão graciosa, e porque quero bem ao Zarco e meu homem também gosta dele; mas nem por isso deixarei de lhe dizer que fez uma grande tolice vindo para cá com ele. Se ele a tivesse posto em algum dos povoados, ou fazendas, ou ranchos onde temos amigos, teria feito melhor, e a senhora estaria mais segura e mais contente.
Mas aqui, minha alma, a senhora vai sofrer muito. Para nós, que seguimos nossos homens em todas as guerras e andamos com eles por tudo quanto é canto, esta vida já não é pesada; ao contrário, até gostamos dela, porque, enfim, estamos acostumadas, e as aventuras que nos acontecem às vezes são divertidas, fora que também temos nossa parte em certas ocasiões, e nos cabem coisas razoáveis.
É verdade que também passamos bons sustos, e há dias em que não comemos e noites em que não dormimos, e nossos homens nos batem e nos maltratam; mas, já digo, estamos acostumadas, e nada nos abala. Mas a senhora, uma menina que sempre viveu tão recolhida, tão metidinha em casa, tão cuidada por sua mãe, que tem o rostinho tão fino e o corpinho tão delicado, e que não foi feita para passar trabalhos, a verdade, minha alma, é que tenho muito medo de que adoeça ou lhe aconteça alguma desgraça.
Agora mesmo está vendo: a senhora está muito triste; nota-se logo no rosto que não está contente, não é?
Manuela respondeu apenas derramando um mar de lágrimas.
— Pobrezinha! — continuou aquela mulher. — Eu a conheci há dois anos, lá em Yautepec, tão formosa, tão decente, tão bem vestida! Parecia uma Virgem, e os gachupins da loja e todos os rapazes bem-apessoados da povoação gostavam muito da senhora, embora eu lhe fale francamente: nenhum deles valia coisa alguma em comparação com dom Nicolás, o ferreiro.
Ele, pobrezinho, é trigueiro, é feio, é desajeitado, como índio que é, e artesão; mas dizem que é muito trabalhador, que já tem seu dinheiro e que gostam muito dele.
Aqui não se pode falar bem dele, porque têm medo dele, e é o único em quem não puderam dar um golpe, porque é muito valente e não se deixa apanhar; e como não tem terras, nem gado, nem coisa alguma que possam tomar dele, mas tem dinheiro sabe Deus onde, então seria preciso apanhá-lo para lhe dar tormento e obrigá-lo a entregar. Mas não se pôde, porque ele é muito desconfiado e anda sempre muito bem armado e com outros companheiros, também resolutos.
Mas esse, sim, teria lhe convencido, menina; e ele andava enamorado da senhora havia muito tempo, e todos sabiam! Isto é falar a verdade, e Deus me livre de que o Zarco me ouvisse, porque me arrancava os olhos, mas é a verdade. O Zarco é certo que é bonito e simpático, bom para a briga e tem muita fortuna; mas lhe direi: tem mau gênio, e se continuar vendo a senhora triste, vai se zangar, e pode ser que...
— Que? — interrompeu Manuela com vivacidade. — Que me bata?
— Pois... escute, Manuelita, não seria difícil! Ele gosta muito da senhora, mas já lhe digo, tem muito mau gênio...
— Pois era só o que me faltava! — replicou Manuela. E depois acrescentou com amargura: — Não, não o fará; e por que havia de fazer? Que motivo lhe dou?
— Claro que nenhum; ao contrário, ele está muito enamorado da senhora; mas justamente por isso, ele é muito bruto, e, se a vir triste, talvez acredite que a senhora não o ama, que está arrependida de tê-lo seguido, e seria capaz de matá-la num acesso de raiva...
Eu lhe aconselho que se mostre mais alegre, que dissimule, que faça o Zarco conhecer que está contente, que se entenda conosco, que aguente as pilhérias dos rapazes, que também já perceberam que a senhora não gosta deles; enfim, que vá se acostumando à nossa vida, porque afinal, agora, minha alma, a senhora é do Zarco, e, salvo alguma desgraça, como por exemplo que o matem, tem de andar sempre com ele, se não conseguir, com jeitinho, que ele a leve para outra parte. Mas então pode ser pior; porque terá de lidar com as pessoas, que desconfiariam da senhora, e além disso com os ciúmes do Zarco, que estando longe da senhora há de andar sempre desconfiado, e ao menor mexerico que lhe contem haverá brigas e mortes, e a senhora se arrependerá de ter se separado dele.
Portanto, é melhor que faça o que lhe digo: muita dissimulação e ganhar o carinho de todos.
Manuela compreendeu facilmente que aquela mulher tinha razão, e que, embora amarga e desagradável, lhe pintara, com a verdade própria da experiência, a existência que teria de levar. As razões que lhe dava não tinham réplica. Tudo o que lhe acontecia e ainda haveria de acontecer não era senão a consequência inevitável de seu atordoamento, de sua cegueira, de sua insensatez. Precipitada de cabeça no abismo, não havia desvio possível: tinha de cair até o fundo.
Assim, pois, não havia escapatória; era como uma avezinha presa nas redes, como uma mosca envolta na negra teia de uma aranha monstruosa, e tanto mais envolta quanto maiores fossem os esforços para sair dela. A essa consideração, Manuela sentia circular pelo corpo um calafrio de morte, e apoderava-se dela um forte desejo de escapar, de voar, ao qual sucediam depois um desmaio e um desalento indescritíveis.
Fingir! Dissimular! Aquilo era horroroso; e, no entanto, não lhe restava outro caminho. Propôs-se, pois, logo depois, mudar inteiramente de conduta e enganar o Zarco para inspirar-lhe confiança, a fim de aproveitar a primeira oportunidade para escapar de suas garras.
Semelhante vida estava cheia de vicissitudes, de aventuras; nem sempre estariam naquela madrigueira, nem sempre andariam por aqueles vericuetos. Era possível que alguma vez tivessem de atravessar perto de alguma cidade; então ela se refugiaria ali, apelaria às autoridades, chamaria em seu auxílio; talvez encontrasse Nicolás, inspirasse-lhe compaixão, e ele a salvaria — ele, a quem os bandidos tanto temiam; ele, tão valente, tão honrado e tão generoso.
Porque, como é de supor, dada a mudança de ideias que se operara no espírito de Manuela, à medida que a figura do Zarco se ia cobrindo com as sombras do medo, do horror e talvez do ódio, a do jovem ferreiro se ia iluminando com nova e rosada luz.
Nicolás, até para aquela mulher que não fazia senão dizer a verdade, valia mais que o Zarco, mais que todos aqueles bandidos que o temiam. Não era dotado de bela figura, mas, em compensação, que alma tão formosa possuía! Manuela já aprendera, em tão poucos dias, a estimar o que vale a aparência quando comparada ao fundo. O Zarco, jovem, bonito, gracioso antes para ela, hoje lhe inspirava horror.
Nicolás, o operário rude, o índio bronzeado, de mãos negras e grossas, brandindo o martelo junto à bigorna, coberto com seu avental de couro, iluminado pelos fulgores avermelhados da forja e ganhando a vida com seu honradíssimo trabalho, parecia-lhe agora belo, cheio de grandeza, amável em comparação com aqueles vadios carcomidos de vícios, cobertos de prata, que a arrancaram por meio do assassinato e do roubo; proscritos da sociedade, vivendo sempre em sobressalto, tendo por perspectiva o patíbulo, dormindo com susto, procurando na embriaguez e no jogo o esquecimento de seus remorsos ou os únicos prazeres de sua vida infame.
Que bela e doce teria sido a existência na casa daquele operário, cercada pelo respeito das pessoas honradas! Que lar tão tranquilo, por mais humilde que fosse! Que dias tão alegres, consagrados desde o amanhecer às santas tarefas da família! Que noites tão gratas, depois das fadigas do dia, passadas em conversas suaves e num repouso não turbado por nenhuma lembrança amarga! E depois, a ceia saborosa e bem preparada, na mesa pobre, porém limpa; as carícias dos filhos, os conselhos da velha mãe, os projetos para o futuro, as esperanças que se enraízam na economia, na atividade e na virtude...
Todo um mundo de felicidade e de luz... Tudo desvanecido!... Tudo agora impossível!
E, no meio desse quadro, surgia rápida, mas precisa e clara, uma imagem que fazia Manuela estremecer. Era a imagem de Pilar, de sua doce e boa amiga, que parecia amar Nicolás em silêncio, e a quem ela costumava dizê-lo em tom de brincadeira, como para humilhá-la! E agora... essa aparição fugaz, nesse sonho de ventura que se afastava, produzia em Manuela um sentimento amargo e pungente. Era a inveja! Eram os ciúmes!
Pilar merecia essa ventura que ela, insensata, havia desdenhado; mas, ainda assim, Manuela sentia um mal-estar indizível só de suspeitá-la, e não se tranquilizava senão pensando que tal união era impossível, uma vez que Nicolás não poderia amar a órfã, apaixonado como estava por ela, Manuela, e exacerbada como devia estar essa paixão em consequência da fuga.
Contudo, mal nasceram esses pensamentos no espírito de Manuela, depois da conversa com a mulher que escolhera por confidente, desenvolveram-se de modo tenaz e implacável. A imagem de Pilar tornou-se a constante pesadelo de Manuela, e as suspeitas tomaram o caráter de realidades, como sempre acontece com as imagens vivas. É que Manuela já amava Nicolás, e amava-o com o amor desesperado e violento que luta contra o impossível.
Assim, embora houvesse decidido seguir os conselhos recebidos e adotar o caminho da dissimulação, não conseguiu fazê-lo e fechou-se num silêncio e numa tristeza ainda mais obstinados que os dos dias anteriores.
O Zarco, afinal, mostrou-se irritado e ralhou com ela.
— Se continua triste, vai me fazer cometer uma barbaridade — disse-lhe.
Manuela encolheu os ombros.
Mas, certa tarde, o Zarco chegou a cavalo e muito contente. Durante o dia fizera uma expedição em companhia de vários camaradas. Saltou do cavalo à porta da capela e correu para ver Manuela, que quase sempre se achava encerrada na espécie de alcova que lhe havia sido improvisada.
— Tome — disse-lhe o bandido —, para que já não fique triste.
E pôs em suas mãos um saco com onças de ouro.
— Que é isto? — perguntou Manuela com desgosto.
— Veja o que é — respondeu o Zarco, esvaziando as onças sobre a cama.
— Cem onças de ouro — acrescentou —, que acabam de me trazer; e amanhã me trarão outras cem, ou corto o gasganete do francês.
— Que francês? — perguntou Manuela, horrorizada.
— Ora, um francês que os rapazes foram buscar até perto de Chalco; imagine, até perto do México. É rico, e solta a mosca ou morre! A família já mandou cem onças; mas, se não mandar quinhentas, ele vai desta para melhor. Por aí o tenho, comendo uma tortilla a cada doze horas.
— Jesus! — exclamou Manuela, espantada.
— Que foi? Você se espanta, faladeira de sermões? Pois veja só que linda figura! Em vez de se alegrar, porque com esse dinheiro vamos ficar ricos.
Eu darei alguma coisa aos companheiros, mas ficaremos com a maior parte; depois iremos nos safando daqui pouco a pouco, porque não se pode fazer isso de repente, e iremos por aí, para Morelia ou Zacatecas, ou para a casa dos diabos, onde ninguém saiba quem sou, e montarei uma pousada ou compraremos um rancho; porque, quanto a você, não tem cara de querer levar esta vida, e isso que me prometeu!...
Manuela, sem se dar por entendida com aquela censura, depois de olhar o dinheiro com indiferença, respondeu-lhe:
— Ouça, Zarco: ainda que não me traga mais dinheiro, peço-lhe que solte esse homem. Você diz que ele está comendo uma tortilla a cada vinte e quatro horas?
— Sim — replicou o Zarco, surpreso com a pergunta.
— Pois bem — continuou Manuela —, suplico-lhe que lhe dê de comer bem e que depois o deixe livre, ainda que ele não lhe dê mais dinheiro.
— Que é que você está dizendo? — perguntou o Zarco com voz rouca, na qual transparecia a cólera mais selvagem. — Está louca, Manuela, para me dizer isso? Não sabe que cada rico que cai em nossas mãos tem de comprar a vida pesando-se em ouro? Então, só por você, só por você, ingrata, arrisquei os rapazes para irem buscar esse rico, para que nos desse dinheiro, para que nos enchesse de onças, para que você comprasse joias, vestidos de seda, tudo o que quisesse, e agora me vem com essa compaixão e com esses rogos? Pois com certeza você ainda não acabou de saber quem sou eu e do que sou capaz.
Você é muito boa, Manuelita, e foi criada entre gente muito escrupulosa e muito santa; mas sabia quem eu era, e, se não se acreditava capaz de se acomodar ao meu modo, para que saiu de casa? Já sabia o que eu sou, já sabia de onde vinham as joias que lhe dei. De que se espanta agora? Veio aqui para nos pregar sermões? Pois perde seu tempo e está me aborrecendo, porque, na verdade, já não aguento seus gestos e desprezos para meus companheiros, nem suas lágrimas, nem seus sermões.
Faz vários dias que Salomé, Félix e o Coyote me dizem que fiz mal em trazê-la aqui conosco, e que você vai nos causar alguma desgraça; e eu, só pelo carinho que lhe tenho, tenho suportado suas indiretas, e, acreditando agradar-lhe, expus a vida de meus melhores companheiros para que me trouxessem um rico, para pelá-lo e lhe dar dinheiro, muito dinheiro, e você me sai com essa tolice!... A verdade, Manuelita, é que não hei de aguentar.
Se seu modo de pensar era diferente, por que não se casou com o índio de Atlihuayan? Esse não é ladrão! Mas comigo, ou você bebe ou derrama... ou se conforma com a vida que levo, ou morre, Manuela — disse o Zarco, aproximando-se da jovem, arregalando os olhos, abafando o tom e pondo a mão no punho da pistola.
Manuela tremeu diante daquela explosão de ira.
— Mas eu queria — disse com timidez — que por minha causa você não fosse matar esse estrangeiro... Era por você, só por você... porque tenho medo de que cometa um crime...
— Crime! — repetiu o Zarco, lívido de cólera e com voz nasal, embora já um pouco mais calmo. — Crime! Que tola! Você pensa, então, que esta é a primeira raposa que eu esfolei? Vá para o diabo com seus escrúpulos! Esse francês irá para onde foram os outros, ainda que não seja para lhe dar o dinheiro. Não sabe, inocente, que o rico que cai em nosso poder pertence a todos nós? Ainda que eu quisesse soltar o francês, você pensa que os outros me deixariam? E a parte que cabe a eles?
— Bem, não falemos mais disso — disse Manuela, espantada. — Faça o que quiser, Zarco; não lhe direi mais nada.
— Pois está bem — replicou o bandido —, e fará bem! Agora, o que deve fazer é aproveitar a ocasião. Guarde essas onças sem fazer barulho, e não me incomode com prantos e queixumes.
Mal o Zarco acabara de dizer isso quando se ouviu um grande ruído de vozes misturado ao rasgueado de violões e jaranitas, e entraram na capela Salomé Plasencia, Palo Seco, o Tigre, Linares e mais uns vinte bandoleiros, que pareciam regozijados e estavam bêbados.
— Zarco! — gritaram. — Agora você é rico, irmão, e vamos fazer um baile para alegrar a chata que você trouxe de Yautepec e que está morrendo de melancolia.
— Vamos ver! Tira ela daí, negro, tira, e que venha dançar conosco a valsa, a polca e o schottisch!
— Venha, Manuelita, e cuidado em desgostar meus companheiros — disse o Zarco, tomando a jovem pela mão; ela deixou-se arrastar como uma vítima e procurou fingir um sorriso.
— Aqui estou, irmãos, e aqui está minha chata para ir ao baile.
— Güerita — disse Salomé, que trazia uma garrafa na mão —, a senhora vai nos acompanhar no baile que vamos fazer para celebrar as façanhas de seu querido, o Zarco; anteontem ele deu o tormento da cana ao francês, e o homem logo cuspiu as oncinhas que a senhora deve ter guardado, bela moça, e vamos beber e aproveitar... Venha para cá e deixe de estar aí tão triste como a Virgem da Solidão em Sexta-feira Santa.
— Bom, bom — disse o Zarco —, vamos arrumar o baile e preparar os licores, mas eu já venho buscar Manuela para levá-la. Vista-se, minha vida, e arrume-se para o baile, que já venho buscá-la.
— Zarco, você é ciumento — disse Salomé, dando-lhe uma palmada no ombro em tom de zombaria —; você é ciumento, e sabe que entre nós isso não se usa. Por ora consentimos esses seus sermões, mas não continue muito tempo com eles, irmão, porque não convêm.
Manuelita tremeu. Tudo se convertia em novos perigos para ela. Logo que ficou sozinha, chamou sua confidente para que a ajudasse a vestir-se e, na verdade, para falar com ela.
— Quem é esse francês que vocês têm preso? — perguntou-lhe. — A senhora não sabe nada?
— Como não! — respondeu a mulher. — E me espanta muito que a senhora não saiba. O francês está num porão da casa da fazenda, e todos os dias lhe dão tormento para que cuspa o dinheiro da família, que está no México. Dizem que já deu um saco, e que o Zarco o tem. O Amarillo — assim se chamava o homem dela — é quem agora toma conta dele, como dos outros.
— Então há outros? — perguntou Manuela, curiosa.
— Claro que há outros — respondeu a mulher. — Há um gachupim, há outro lojista, outro velho muito mesquinho que se queixa o dia inteiro, e outros mais pobres, mas que podem dar seus cem ou duzentos pesos. Sempre é alguma coisa!
— E eu poderia vê-los?
— Como não! Se o Zarco quiser levá-la, é muito fácil; mas, como a senhora é tão delicada, vai se afligir.
— Não me afligirei — respondeu Manuela, com ar de resolução. — Já estou mudada, vou seguir seus conselhos.
— Ah, que gosto! — exclamou a mulher. — Então vai se divertir muito. A senhora vai ver!
Como o Zarco chegava naquele momento, Manuela rogou-lhe que a conduzisse até onde estavam os sequestrados.
O Zarco olhou-a com surpresa.
— Você? — disse-lhe. — Você quer ver os presos? Mas o que aconteceu?
— Aconteceu — respondeu Manuela — que vou provar-lhe que não estou triste nem descontente com esta vida; que não me assusto com nada, e que, quando resolvi deixar minha casa e minha família por você, é porque estava decidida a segui-lo a toda parte e a compartilhar sua sorte.
— Bom, menina, isso sim me agrada! Você me tinha muito desgostoso, mas, já que estava fingindo e que é o que eu pensava, agora sim estou feliz. Vou levá-la aonde estão aqueles patetas, e não tenha pena deles, porque têm dinheiro e não arriscam a vida como nós.
Manuela, já vestida e arrumada para o baile, e muito bela, apesar de sua palidez e de seu abatimento, deixou-se conduzir pelo bandido até as velhas abóbadas dos purgares, que serviam de prisão às desgraçadas vítimas dos facinerosos.
Na única porta praticável, havia uma guarda de vinte bandidos, armados de mosquetes, pistolas, machetes e punhais. Todos guardavam silêncio e tinham o rosto coberto com lenços.
Aqueles vastos salões abóbadados, que em outro tempo haviam servido para guardar os pães de açúcar e que nas fazendas são conhecidos pelo nome de purgar, teriam estado completamente escuros se, nos cantos, não iluminasse uma lamparina de gordura, junto da qual jaziam, sobre petates imundos, quatro homens amarrados de pés e mãos, com os olhos vendados, e que teriam sido tomados por cadáveres se, de vez em quando, não revelassem, em movimentos de dor ou em abafados soluços, que eram corpos ainda vivos.
— Olhe o francês! — disse o Zarco a Manuela, levando-a a um dos cantos e apontando para um homem ancião, de cabeça grisalha, fortemente vendada, que mal dava sinais de vida.
Junto dele havia vigas em cruz, laços, lanças e alguns outros objetos de tortura, uma jarra de água e uma garrafa de aguardente.
— Anteontem demos cana a este maldito gabacho, e por isso ele deu as onças; mas, se não soltar mais dinheiro, faremos algo pior. Ainda não sabe o que é ter o pescoço apertado, nem o que é arrancarem-lhe as unhas dos pés e das mãos. Há de saber!
A estas últimas palavras, ditas em voz alta, o pobre francês, que as havia ouvido, tentou incorporar-se e, com voz débil e suplicante, disse:
— Escute, senhor, pelo amor de Deus, mate-me, já não posso mais, mate-me!
— Não, ainda não, velho agarrado; mande trazer outras quatrocentas onças; se não, vai ver o que lhe acontece.
— Não tenho mais onças — respondeu o desgraçado. — Sou pobre, tenho família, tenho filhos, não há quem me empreste!... Não tenho mais! Não tenho mais!... Matem-me!...
— Vamos embora — disse Manuela, próxima de desmaiar. — Se ele não tem dinheiro, matem-no...
— Não — tornou o Zarco, rindo com uma risada sinistra e espantosa —; isso todos dizem: desesperam-se, querem morrer, mas, como a vida não brota de novo, acabam por soltar a mosca. Amanhã este dará o que lhe pedimos. Já se avisou a família, e ele já escreveu dizendo o que lhe acontece.
— Bem — disse Manuela, toda trêmula —, mas o quê? O governo não mandará tropa para perseguir vocês e libertar estes homens? As famílias deles não avisarão?
— Ah, não! Não lhes convém, porque terão medo de que os matemos. Além disso, o governo não pode mandar força contra nós; e, ainda que mandasse, nada nos fariam, não nos encontrariam aqui. Você não sabe, Manuelita; nós somos fortes, estamos seguros, e, por enquanto, ninguém nos ronca!... Mas vamos ao baile, que já estão nos esperando! É preciso que dance com todos, que esteja sorridente; não vão dizer que sou ciumento e acabemos tendo uma confusão.
Manuela saiu apressadamente do purgar, lívida, convulsa, com os olhos fora das órbitas, louca de horror e pavor. Por espantoso que viesse a ser aquele baile, não poderia produzir-lhe o pavor, a repugnância imensa que acabava de lhe causar o quadro dos sequestrados.
Como o baile se dava nos cômodos que estavam um pouco mais inteiros na antiga casa da fazenda, junto às abóbadas do purgar, o casal subiu as escadas arruinadas e logo se apresentou no salão, iluminado por velas de sebo e cheio de fumaça, onde os bandidos se haviam reunido para divertir-se.
Ressoavam ali alguns bandolões, violões e jaranas tocando polcas e valsas, porque se deve observar que esses bandidos eram pouco afeitos às danças populares, como o jarabe, e só as usavam como uma espécie de adorno ou capricho. Os Plateados tinham pretensões: dançavam à maneira decente; mas, por isso mesmo, seus bailes tinham todo o aspecto repugnante da paródia ou o grotesco da caricatura.
Ao entrar Manuela com o Zarco, levantou-se uma gritaria espantosa: vivas, galanteios, juramentos, blasfêmias; tudo saiu de cem bocas torcidas pela embriaguez e pela crápula. Todos os bandidos famosos estavam ali, cobertos de prata, sempre armados, cantando canções obscenas, abraçando outros as perdidas que lhes faziam companhia. Manuela estremeceu; mal acabava de soltar-se do braço do Zarco quando se aproximou dela o mulato colossal e horroroso que tanta repugnância lhe inspirava.
Trazia ainda sua venda, que lhe cobria parte do rosto; mas deixava ver a enorme boca, armada de dentes agudos e brancos, dos quais sobressaíam os dois caninos superiores, que pareciam fender-lhe o lábio inferior, e vinha literalmente forrado de prata, como se quisesse sobrepujar em enfeites os demais companheiros.
— Agora a senhora vai dançar comigo, güerita — disse a Manuela, tomando com uma de suas mãos enormes o braço branco e delicado da jovem.
Por um movimento irresistível, Manuela recuou assustada e procurou seguir o Zarco para refugiar-se junto dele. Mas o mulato a seguiu, rindo, cingiu-lhe à cintura com o braço nervudo e disse ao Zarco:
— Olha, Zarco, a tua chata, que foge de mim e não quer dançar: obrigue-a!
— Ora, que é isso, Manuela? Por que não quer dançar com meu amigo, o Tigre? Já lhe disse que há de dançar com todos; para isso veio.
Manuela resignou-se e, fingindo um sorriso doloroso, deixou-se conduzir por aquele monstro de fealdade e insolência.
— Ah! — exclamou ele, empurrando o grande chapéu para trás, enquanto continuava cingindo e apertando convulsivamente à cintura de Manuela. — Bem que eu disse que havia de ter o gosto de abraçá-la à minha inteira satisfação! Por enquanto está com um homem, e vamos nos divertir dançando este schottisch.
Manuela quase fechou os olhos e se deixou levar por aquela espécie de cíclope, que a devorava com o único olho que lhe ficava livre e a banhava com seu resfolegar, como com um vapor de aguardente.
Ao vê-los passar assim — ele espantoso como fera raivosa, ela fraca e curvada como presa —, os demais bandidos lhe gritavam:
— Ah, Tigre, não coma essa veadinha!
Depois de dar algumas voltas naquele salão infecto, atropelando e empurrando cinquenta pares de bandoleiros e mulheres bêbados, o Tigre deixou de dançar; mas, inclinando-se para sua companheira, disse-lhe com voz sufocada pelos desejos e apertando brutalmente seu braço:
— Chatinha, desde que a vi chegar com o Zarco, gostei da senhora e encarreguei a Zona, a mulher do Amarillo, de lhe dizer, não para que a senhora correspondesse logo, loguinho, mas para que soubesse de uma vez. Não sei se ela lhe disse.
Manuela não respondeu.
— Pois, se não lhe disse, agora eu lhe digo francamente: a senhora ainda há de gostar de mim.
— Eu?... — exclamou a jovem, assustada.
— A senhora! — replicou o Tigre. — Já verá!... O Zarco não é constante, e há de lhe pagar mal, como pagou a todas... Mas eu estou aqui, minha alma, para que, quando vier o desengano, a senhora se lembre de mim; e então saberá quem é o Tigre. A senhora não me conhece, e ainda não conhece o Zarco. Não se espante de me ver assim com a cara enfaixada, porque estou assim justamente por sua causa.
— Por minha causa? — perguntou Manuela com uma curiosidade misturada de pavor.
— Sim, por sua causa, e vou lhe explicar. Fui ferido em Alpuyeca pelos gringos que matamos. Eu os matei, sim senhor!... fui eu quem sustentou a luta, enquanto o Zarco roubava os baús; um gringo me deu um tiro de pistola que por pouco não me arrancou um olho; mas, afinal, ele morreu, e morreram todos os que o acompanhavam, em classe de homens.
Mas o Zarco mal nos ajudou no forte da briga; e, depois que todos já estavam caídos e moribundos, foi quando ele veio e os matou quando estavam rendidos, e matou as mulheres e os rapazes. Sim, senhor, assim foi. O Zarco é um magricela e uma galinha; mas, isso sim, tirou todas as joias para levá-las à senhora e não nos deixou senão a roupa inútil, porque para que queríamos aquilo? Casacas, paletós, túnicas velhas, trapos de catrins.
E o Zarco ficou com o melhor depois que nós triunfamos. Está bom! Os gaviões não chiam! Mas logo que vi a senhora, disse: agora sim, me empatei! Que o Zarco leve as joias, mas que nos deixe a güerita, e estamos em paz.
Manuela parecia ser presa de um pesadelo e sentiu-se desfalecer. Aquelas revelações sobre o Zarco, seus assassinatos de mulheres, de moribundos e de crianças, aquelas ameaças do Tigre, tudo era superior às suas forças e à sua resolução de afrontar semelhante vida. Havia caído no inferno! Acreditara que aqueles homens fossem simplesmente bandidos, e na realidade eram demônios vomitados pelo Averno.
Oh! Se pudesse escapar naquele momento; se pudesse ao menos morrer! Ficou paralisada e muda. Tirou-a daquele estado a voz áspera e rouca do Tigre, que lhe perguntou:
— Que é que lhe acontece, linda? Assusta-se com o que lhe digo?... O Zarco não lhe havia contado todas as suas façanhas e valentias? Aposto que não; pois conheça-as e vá se conformando com o que lhe digo: a senhora ainda há de vir parar em meu poder.
— Mas o senhor acredita que o Zarco vai permitir? — exclamou afinal Manuela, sufocada de ira e fastio.
— E que me importa que permita ou não, chata! Que é isso? A senhora pensa que tenho medo desse covarde? Se aceitar meu carinho, agora mesmo, diga-me uma palavra e mato o Zarco. Com isso, de uma vez a senhora fica livre... Se não, esperarei, e verá o que acontece.
— Pois eu vou dizer ao Zarco para que ele fique prevenido!
— Pois diga, linda, diga! — respondeu o Tigre, com uma risada desdenhosa e sinistra, na qual se revelava uma resolução espantosa. — O Zarco já me conhece — acrescentou —, e a senhora verá se é verdade o que lhe digo. O Zarco, por quem a senhora se enamorou porque o julgou homem, não passa de um magricela. Portanto, diga-lhe; e, para que seja logo, vou sentá-la e fico esperando.
Manuela foi sentar-se aterrada. Seguramente ia produzir-se ali uma catástrofe; o Tigre desejava provocá-la a todo custo para matar o Zarco, e ela estava destinada a ser o botim do vencedor. Que situação espantosa! Manuela sentia-se agonizar.
Mas, quando procurava angustiada o amante, em quem, apesar do horror que já lhe inspirava, acreditava ter seu único apoio, viu-o dirigir-se para ela, carrancudo, frio, lívido de cólera. Manuela acreditou que ele estava com ciúmes do Tigre e pensou que chegara o momento da briga que temia.
Mas o Zarco, com um sorriso sarcástico e a voz enrouquecida pela ira, disse-lhe:
— Então já sei qual é o motivo de suas tristezas e de seu tédio nestes dias; já me contaram, e você não me engana outra vez, arrastada!...
— Mas o que é? O que é? Que lhe contaram, Zarco? — perguntou Manuela, tão assombrada quanto apavorada ao ouvir aquelas palavras.
— Sim; a Zorra já me disse que o que há é isto: que você se arrependeu de ter fugido comigo; que percebeu que não me queria de verdade; que o único homem que amava era o índio Nicolás; que sente tê-lo deixado; que a vida com os Plateados não lhe convém, e que, na primeira ocasião que tiver, há de me abandonar.
— Mas eu não disse!... — interrompeu Manuela, tremendo.
O Zarco não a deixou terminar.
— Sim, você lhe disse, falsa e mentirosa; não tente negar! A culpa é minha por confiar numa catrina e numa santarrona como você, que não queria senão joias e dinheiro... Mas escute — acrescentou, tomando-lhe um braço e apertando-o bestialmente —, de mim você não zomba, entendeu? Já fugiu comigo, e agora verá para que nasceu.
Quanto ao índio ferreiro, eu ainda hei de ter o gosto de lhe trazer a cabeça dele para que você a coma em barbacoa; e depois você morrerá, mas não há de ficar rindo de mim!
Manuela mal pôde dizer ao Zarco, em atitude suplicante:
— Zarco, faça-me o favor de me tirar daqui, estou doente!...
— Não tiro; morra! — respondeu o bandido no paroxismo do furor.
Mal acabara de dizer essas palavras quando houve um grande ruído à porta da sala, e vários bandidos, cobertos de pó e com o traje desordenado por uma longa caminhada, precipitaram-se para dentro, com ar assustado, perguntando por Salomé Plasencia, pelo Zarco, pelo Tigre e pelos demais chefes.
Salomé e os outros foram ao encontro deles.
— Que há? — perguntou aquele, enquanto todos os Plateados iam formando círculo em torno dele e cessavam, como era de supor, a música e a algazarra do baile.
— Uma novidade — respondeu um dos recém-chegados, sufocando-se. — Corremos dez léguas para avisá-los... Martín Sánchez Chagollán, o de Ayacapixtla, com uma força de quarenta homens, surpreendeu Juan, o Gachupim, e vinte companheiros, e os enforcou na catzahuatera do Casasano.
— E quando? — perguntaram em coro os bandidos aterrados.
— Ontem à noite, por volta das dez, ele os surpreendeu. Estavam emboscados esperando uma carga que ia passar, quando Martín Sánchez caiu sobre eles, encurralou-os, e apenas puderam escapar cinco ou seis, que vieram nos procurar e que ficaram feridos, por isso não puderam chegar até aqui.
— Mas... o quê?... Esses rapazes não lutaram? — perguntou Salomé.
— Sim, lutaram; mas os outros eram mais numerosos e traziam armas muito boas.
— E não tiveram aviso?
— É isso que estranhamos! Mas creio que a gente começa a ajudar Martín Sánchez e a nos faltar.
— Pois é preciso vingar nossos companheiros e meter medo na gente, para que não venha a se voltar inteiramente contra nós. Amanhã, ao amanhecer, todos sairemos daqui; que se reúnam a nós os demais que andam dispersos, e vamos procurar Martín Sánchez para ver se ele é tão bom contra quinhentos homens como contra trinta. Portanto, preparem-se para amanhã.
— E que fazemos com os presos? — perguntou um.
— Ora, que morram — disse Salomé —, para que queremos estorvos?... Você, Tigre, vá e mate-os já, já.
— Olhe, Salomé — disse o Tigre, adiantando-se —, melhor dê essa comissão ao Zarco; ele sabe muito bem matar os mortos — acrescentou com desprezo.
— Matar os mortos, você diz, Tigre?
— Sim, matar os mortos! — replicou o Tigre. — Lembre-se de Alpuyeca.
— Pois você verá se sei matar também os vivos! — replicou o Zarco, lívido de cólera.
— Bom, bom — disse Salomé, interpondo-se —; não queremos disputas; qualquer um serve para despachar os presos! O caso é que eles não amanheçam vivos. Levem a ordem ao Amarillo e vamos embora. Acabou o baile.
— Ah, outra notícia! — acrescentou um dos recém-chegados. — Esta manhã foi enterrada, em Yautepec, a mãe da moça que o Zarco trouxe.
Então ouviu-se um grito agudo que fez todos aqueles homens voltarem o rosto.
— Minha mãe! — exclamou Manuela, e deixou-se cair desfalecida no chão.
— Pobrezinha! — disseram as mulheres, já voltando a si da embriaguez diante daquela chuva de más notícias.
— Levante-a, Zarco, leve-a e que se conforme; porque, se não, vai nos atrapalhar.
O Zarco, ajudado por algumas mulheres, levantou Manuela, carregou-a e levou-a para a capela, onde a recostou em sua cama. A jovem estava moribunda. Tantas emoções seguidas, tantos perigos, tantas ameaças, tantos horrores haviam abatido aquela natureza fraca e estavam obscurecendo aquele espírito. Manuela estava como idiota e não fazia senão chorar em silêncio.
O Zarco, preocupado também com mil pensamentos diversos, enfurecido contra o Tigre, ciumento de Nicolás, cada vez mais apaixonado por Manuela, mas infinitamente contrariado pelas últimas notícias e pela necessidade de marchar, não sabia o que fazer.
Dava voltas como uma fera encerrada na jaula; chamava as mulheres para que assistissem sua amante, comunicava ordens aos bandidos que o obedeciam e serviam, preparava malas, remexia os baús, sentava-se às vezes à beira da cama em que Manuela estava reclinada e a olhava com olhares nos quais era difícil distinguir o amor, o ódio ou as tentações de uma resolução sinistra; outras vezes punha-se a passear ao longo da capela, blasfemando.
Por fim, aproximou-se da jovem e, com acento frio e seco, disse-lhe:
— Isso já não tem remédio; pare de chorar e prepare-se para marcharmos amanhã daqui. Ajude-me a fazer as malas. Guarde bem suas joias; isso é o que lhe importa.
— Entre nós — acrescentou, vendo que Manuela soluçava com mais violência —, não se costuma afligir tanto nem fazer tanto luto quando morre alguém... para isso nascemos! Além disso, sua mãe já estava velha, e a boa senhora me detestava; reze-lhe uma mortalha, e amém... Não volte a se lembrar dela. Seu índio deve tê-la enterrado e ficará com a horta, e se pagará dos gastos; depois você enterrará a ele, não tenha cuidado, e terá o gosto de chorar sobre sua sepultura.
Assim, pois, aquele bandido, aquele Zarco que Manuela julgara ao menos homem, ao menos compassivo, não passava de um perverso sem entranhas, que se comprazia em aumentar-lhe o tormento, em insultá-la nos momentos de maior pesar e em caluniar o homem generoso que, certamente e já sem interesse de espécie alguma, assistira em seus últimos instantes a pobre anciã e lhe dera sepultura.
Nicolás e Pilar! Outra vez esse par, que não deixava de aparecer em sua imaginação! Agora, quão grandes e nobres lhe pareciam aqueles dois jovens!... Mas que desgraça que não lhe aparecessem assim senão para causar-lhe o horrível tormento dos ciúmes e a vergonha indizível de se considerar um monstro de ingratidão e baixeza em comparação com eles!
E, no entanto, atormentada e degradada, desprezível como era, só o pensar em Nicolás lhe parecia um vislumbre de consolo no meio daquela noite espantosa que a rodeava por todos os lados com suas trevas, seus terrores e seus perigos, desconhecidos mas pavorosos.
Por fim, incorporou-se e, engolindo as lágrimas, pôs-se a preparar as malas, sentindo a morte na alma.