Capítulo VIII - Quem era o Zarco
Capítulo VIII - Quem era o Zarco
Enquanto isso, e justamente no momento em que Manuela examinava suas novas joias, o Zarco, depois de deixar os arredores de Yautepec e de atravessar o rio com a mesma cautela que tivera ao chegar, tomou, pelo amplo caminho da fazenda de Atlihuayan, a direção do trilho montanhoso por onde havia descido e que conduzia a Xochimancas. Era meia-noite, e a lua, envolvendo-se em espessos nuvarrões, deixava a terra coberta de sombras.
A estrada de Atlihuayan estava completamente solitária, e as árvores que a flanqueavam de um e de outro lado projetavam uma escuridão sinistra e lúgubre, tornada ainda mais densa pelos arabescos fugidios e pálidos que produziam os cocuyos e os vaga-lumes.
O bandido, conhecedor daqueles lugares, acostumado, como todos os homens de sua espécie, a enxergar um pouco na escuridão, e, sobretudo, fiado na sensibilidade extraordinária de seu cavalo, que ao menor ruído estranho erguia as orelhas e se detinha para prevenir o amo, seguia passo a passo, mas com inteira tranquilidade, pensando na felicidade próxima que lhe prometia a posse de Manuela.
Afinal, aquela belíssima jovem, cuja imagem abrasara suas horas de insônia durante tantos meses, cujo amor fora sua preocupação constante, mesmo no meio de suas aventuras mais sangrentas e arriscadas, e cuja posse lhe parecera impossível quando a viu pela primeira vez em Cuernavaca e se enamorou dela, ia ser sua, inteiramente sua, ia compartilhar sua sorte e fazê-lo saborear as dulcíssimas delícias do amor — ele, que até ali, verdadeiramente, não conhecera senão as pungentes emoções do roubo e do assassinato.
Sua organização grosseira e sensual, acostumada desde a juventude ao vício, conhecia, é verdade, os gozos do amor material, comprados com o dinheiro do jogo ou do roubo, arrancado em meio ao terror das vítimas, numa noite de assalto a aldeias indefesas; mas o Zarco sentia que nunca havia querido nem desejado uma mulher com aquela exaltação febril que experimentara desde que começou a ver Manuela assomada à janela, desde que a ouviu falar e, mais ainda, desde que trocou com ela as primeiras palavras de amor.
Jamais, desde que ainda menino abandonara o lar da família, havia sentido a necessidade impériosa de se unir a outro ser, como agora a sentia diante daquela mulher, tão bonita e tão apaixonada, que encerrava para ele um mundo de inesperadas venturas.
Assim, repassando na memória todas as cenas de sua infância e de sua juventude, encontrava que seu caráter bravio e duro sempre repelira todo afeto, todo carinho, qualquer que fosse, não tendo cultivado senão aqueles dos quais tirara proveito.
Filho de pais honrados, trabalhadores naquela comarca, que tinham querido fazer dele um homem laborioso e útil, logo se aborrecera do lar doméstico, em que lhe impunham tarefas diárias ou o obrigavam a ir à escola; e, aproveitando-se da comunicação frequente que as povoações daquela região mantinham com as fazendas de cana-de-açúcar, fugiu, indo acomodar-se ao serviço do encarregado da cavalariça de uma delas.
Ali permaneceu algum tempo, conseguindo depois, quando já estava bastante destro na equitação e na arte de cuidar dos cavalos, colocar-se em várias fazendas, nas quais durava pouco por causa de sua conduta desordenada; pois, preguiçoso por natureza e por gosto, mal era útil para aqueles trabalhos servis, consagrando seus longos ócios ao jogo e à vadiagem.
No mais, durante todo esse tempo, não se recordava de ter sentido simpatia nem apego por ninguém. Permanecendo pouco em cada lugar, servindo poucos dias em cada fazenda e cultivando relações de cavalariça ou de jogo que duravam um instante e se alteravam com frequentes brigas, transformando-se em inimizades profundas, ele, na verdade, não tivera amigos, mas companheiros de prazer e de vício.
Ao contrário, naqueles dias seu caráter se formou por completo e já não deu cabida no coração senão às más paixões. Assim, a servidão consumou o que à vadiagem havia começado, e os instintos perversos, não equilibrados por nenhuma noção de bem, acabaram por encher aquela alma escura como algas infectas de um pântano.
Ele não amara ninguém; em compensação, odiava todo mundo: o fazendeiro rico cujos cavalos selava e adornava com magníficos arreios; o operário que recebia bons salários a cada semana por seu trabalho; o lavrador acomodado, dono de terras fecundas e de boa casa; os comerciantes das povoações vizinhas, que possuíam lojas bem abastecidas; e até os criados que tinham salários melhores que o dele.
Era a cobiça complicada com a inveja, uma inveja impotente e rasteira, que produzia esse ódio singular e essa ânsia frenética de arrebatar aquelas coisas a qualquer custo.
Naturalmente, os amores dos outros lhe causavam irritação, e aquelas moças que, segundo sua posição, amavam o rico, o caixeiro ou o jornaleiro, inspiravam-lhe um desejo insensato de arrancá-las de seus lugares e manchá-las. Entre todas, não havia uma que tivesse fixado os olhos nele, porque ele tampouco procurara aproximar-se de nenhuma com intenções amorosas. As de sua classe não eram de seu gosto, e para as de categoria superior a ele, estava colocado numa esfera muito baixa: um moço de cavalariça!
Ele era jovem, não tinha ma figura: sua cor branca impura, seus olhos daquela cor azul-clara que o vulgo chama zarca, seus cabelos de um louro palido e seu corpo esbelto e vigoroso davam-lhe uma aparência vantajosa; mas o cenho adusto, a linguagem agressiva e brutal, o riso agudo e forcado talvez o tivessem tornado pouco simpatico as mulheres. Além disso, ele não encontrara nenhuma bastante formosa a quem procurasse agradar.
Por fim, cansado daquela vida de servidão, vício e miséria, o Zarco fugiu da fazenda em que estava, levando alguns cavalos para vendê-los na terra fria. Como era de esperar, foi perseguido; mas, já por esse tempo, favorecida pela guerra civil, havia-se desencadeado na terra fria próxima ao México uma nuvem de bandidos que não tardou a invadir as ricas comarcas da terra quente.
O Zarco filiou-se a ela imediatamente; e desde então, como se apenas esperasse essa oportunidade para revelar-se em toda a plenitude de sua perversidade, começou a distinguir-se entre aqueles facinorosos por sua intrepidez, por sua crueldade e por sua insaciável sede de rapina.
Era o ano de 1861, e, organizados os bandoleiros em grandes partidas, perseguidos às vezes pelas tropas do governo, mas atraídos principalmente pela riqueza dos distritos açucareiros do sul do México e de Puebla, penetraram neles semeando o terror por toda parte, como vimos.
O Zarco era um dos chefes mais afamados, e as notícias de suas infames proezas, de suas horríveis vinganças nas fazendas em que havia servido, de sua fria crueldade e de seu valor temerário, haviam-lhe dado uma fama espantosa.
Obrigadas as tropas liberais, por um erro lamentável e vergonhoso, a aceitar a cooperação desses bandidos na perseguição que faziam ao faccioso reacionário Márquez em sua travessia pela terra quente, algumas daquelas partidas se apresentaram formando corpos irregulares, mas numerosos, e um deles era comandado pelo Zarco. Foi então, e durante os poucos dias em que permaneceu em Cuernavaca, que conheceu Manuela, que se refugiara com a família naquela cidade.
O bandido ostentava então um caráter militar, sem deixar por isso os arreios vistosos que eram como característicos dos ladrões daquela época e que lhes deram o nome de Plateados, pelo qual foram geralmente conhecidos.
A formosa jovem, cujo caráter parecia estar em harmonia com o do bandido, ao ver passar diante de suas janelas aquele corpo de cavaleiros garbosos, vistosos e brilhantes, e à frente deles, montado num soberbo cavalo e carregado de prata até o excesso, o jovem e terrível bandido cujo nome não soara a seus ouvidos senão com o acento do terror, sentiu-se atraída por ele por um afeto em que se misturavam a simpatia, a cobiça e a vaidade, como num filtro pungente e saboroso.
Assim nasceu uma espécie de amor estranho naquelas duas almas, feitas para se compreenderem. E, no pouco tempo em que o Zarco permaneceu em Cuernavaca, conseguiu entrar em comunicação com Manuela e estabelecer com ela relações amorosas que, no entanto, pelas circunstâncias, não chegaram ao grau de intimidade em que as vemos em Yautepec.
O general González Ortega, conhecendo o grave erro que cometera ao admitir em suas tropas várias partidas de Plateados, que nada fizeram senão devastar as povoações por onde passava o exército e desprestigiá-lo, não tardou a persegui-las, fuzilando vários de seus chefes. Para escapar à sorte semelhante, o Zarco fugiu uma noite de Cuernavaca com seus bandidos e dirigiu-se ao sul de Puebla, onde passou alguns meses cometendo terríveis depredações.
Por fim, os Plateados estabeleceram seu covil principal em Xochimancas, e o Zarco não tardou a saber que Manuela havia voltado a Yautepec, onde residia com sua família. Naturalmente, procurou desde logo reatar suas relações apenas interrompidas, e pôde certificar-se de que Manuela ainda o amava.
Desde então começou essa comunicação frequente e noturna com a jovem, comunicação que não era perigosa para ele, dado o terror que seu nome infundia e também os entendimentos que cultivava na povoação, onde os bandidos contavam com numerosos emissários e espiões.
Enquanto isso, seus crimes aumentavam dia a dia; suas vinganças contra seus antigos inimigos das fazendas eram espantosas, e o pavor que seu nome inspirava havia acovardado a todos.
Os próprios fazendeiros, seus antigos amos, tinham vindo, tremendo, a sua presença implorar-lhe proteção e se haviam constituído seus humildes e abjetos servidores; e, não poucas vezes, ele, antigo moço de estribo, vira segurar a brida de seu cavalo o arrogante senhorzão da fazenda a quem antes servira humilde e desprezado.
Tais vinganças e humilhações foram bastante frequentes naquela época, graças à audácia e ao número dos bandidos, cujo poder era ilimitado naquela comarca infeliz, e graças, mais que tudo, à impotência do governo central, que, ocupado em combater a guerra civil e enfrentar a intervenção estrangeira, não podia desviar suas tropas para reprimir os bandidos.