Quando a máquina produz injustiça
Quando a máquina produz injustiça
Como deve um homem portar-se diante do governo americano de hoje? Respondo que não pode, sem desonra, associar-se a ele quando esse governo sustenta a escravidão e a guerra injusta. Não posso reconhecer como meu, nem por um instante, uma organização política que se faz governo de escravos.
Todos admitem, em teoria, o direito de revolução: o direito de negar obediência e resistir a um governo quando sua tirania ou sua ineficiência se tornam intoleráveis. Quase todos, porém, apressam-se a dizer que esse caso nunca é o presente. Admitiram-no para 1775, mas recusam-se a vê-lo em sua própria hora. Quando a injustiça se organiza, quando a opressão deixa de ser acidente e passa a ser a própria engrenagem, já não basta lamentar o atrito da máquina: é preciso parar a máquina.
Se uma sexta parte de uma nação que se declara refúgio da liberdade vive escravizada, e se um país inteiro é invadido e submetido por um exército estrangeiro, não considero cedo demais que homens honestos se rebelem. A urgência aumenta porque não é nosso país que sofre a invasão, mas nosso exército que a pratica. A questão não é apenas se a resistência será conveniente, mas se continuar obedecendo não nos tornará cúmplices.
Há quem reduza a obediência civil ao cálculo de vantagens e perigos. Mas há casos em que a regra da conveniência não se aplica. Se tomei injustamente a prancha de um homem que se afoga, devo devolvê-la ainda que eu próprio me afogue. Uma nação deve deixar de possuir escravos e de fazer guerra injusta, mesmo que isso lhe custe muito de sua existência política.
Os maiores adversários da reforma não estão longe. Não são apenas os políticos do Sul, mas os comerciantes e fazendeiros de Massachusetts que preferem comércio e propriedade à humanidade. Milhares declaram-se contrários à escravidão e à guerra, mas nada fazem para terminá-las. Sentam-se com as mãos nos bolsos, leem as notícias do México e as cotações do mercado, e esperam que outros curem o mal para que possam deixar de lamentá-lo.
Votar pelo certo não é fazer o certo. O voto é uma expressão fraca do desejo de que a justiça prevaleça; deixa-a, porém, ao acaso das maiorias. O homem sábio não entrega a justiça à sorte, nem deseja que ela triunfe apenas porque a maioria se tornou bastante grande para escolhê-la. Há pouca virtude na ação das massas quando cada indivíduo espera que outro assuma o custo da verdade.