O Estado e a dignidade do indivíduo
O Estado e a dignidade do indivíduo
O Estado não consegue encontrar o homem livre no plano em que ele vive. Pode prendê-lo, pode tomar-lhe os bens, pode ameaçá-lo; mas não pode compelir sua consciência, a menos que ele próprio a entregue. Por isso, quando o Estado se põe acima da justiça, o indivíduo deve recordar que sua obediência não é virtude se o transforma em instrumento de opressão.
Não desejo brigar com homem ou nação alguma. Não procuro dividir cabelos nem me imaginar melhor que meus vizinhos. Procuro apenas recusar minha cooperação àquilo que reconheço como injusto. Quero ser, antes de tudo, um bom vizinho e um bom homem; e, se for preciso escolher entre ser um bom súdito e ser um homem justo, a escolha já está feita.
Há quem diga que o cidadão deve sacrificar sua consciência à ordem pública. Mas a verdadeira ordem não nasce da submissão cega; nasce da retidão. Um Estado que exige a consciência de seus cidadãos em troca de proteção exterior empobrece a si mesmo. Um governo livre só é possível quando reconhece no indivíduo uma força mais alta que a maioria e anterior à lei escrita.
Não peço que não haja governo algum de um dia para o outro. Peço um governo que reconheça seus limites; que governe menos porque os homens são mais capazes de governar a si mesmos; que trate o indivíduo não como propriedade do Estado, mas como fonte de autoridade moral. Nunca haverá um Estado realmente livre e esclarecido enquanto ele não reconhecer o indivíduo como poder superior e independente, do qual deriva todo seu próprio poder.
Imagino um Estado que possa permitir a alguns viverem à parte dele, sem hostilidade, sem confisco, sem prisão, desde que cumpram deveres de humanidade e vizinhança. Um Estado assim prepararia o caminho para formas mais perfeitas de comunidade. A democracia, tal como a conhecemos, talvez não seja a última possibilidade política. Pode haver um governo em que a consciência tenha mais lugar que o número, e em que a liberdade de cada pessoa seja tratada como condição da liberdade de todos.
A obediência civil só merece esse nome quando se subordina à justiça. Fora disso, torna-se hábito, medo ou conveniência. A desobediência civil, quando nasce da consciência e se recusa a sustentar a injustiça, não é desordem: é fidelidade a uma lei mais profunda que a lei do Estado. É o gesto pelo qual um homem deixa de ser peça da máquina e volta a ser responsável por si mesmo.