Visão Falenas · Capítulo 7 de 28
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A LUIZ DE ALVARENGA PEIXOTO

Vi de um lado o Calvário, e do outro lado

O Capitólio, o templo-cidadela.

E torvo mar entre ambos agitado,

Como se agita o mar numa procela.

Pousou no Capitólio uma águia; vinha

Cansada de voar.

Cheia de sangue as longas asas tinha;

Pousou; quis descansar.

Era a águia romana, a águia de Quirino;

A mesma que, arrancando as chaves ao destino,

As portas do futuro abriu de par em par.

A mesma que, deixando o ninho áspero e rude,

Fez do templo da força o templo da virtude,

E lançou, como emblema, a espada sobre o altar.

Então, como se um deus lhe habitasse as entranhas,

A vitória empolgou, venceu raças estranhas,

Fez de várias nações um só domínio seu.

Era-lhe o grito agudo um tremendo rebate.

Se caía, perdendo acaso um só combate,

Punha as asas no chão e remontava Anteu.

Vezes três, respirando a morte, o sangue, o estrago,

Saiu, lutou, caiu, ergueu-se...e jaz Cartago;

É ruína; é memória; é túmulo. Transpõe,

Impetuosa e audaz, os vales e as montanhas.

Lança a férrea cadeia ao colo das Espanhas.

Gália vence; e o grilhão a toda Itália põe.

Terras da Ásia invadiu, águas bebeu do Eufrates,

Nem tu mesma fugiste à sorte dos combates,

Grécia, mãe do saber. Mas que pode o opressor,

Quando o gênio sorriu no berço de uma serva?

Palas despe a couraça e veste de Minerva;

Faz-se mestra a cativa; abre escola ao senhor.

Agora, já cansada e respirando a custo,

Desce; vem repousar no monumento augusto.

Gotejam-lhe inda sangue as asas colossais.

A sombra do terror assoma-lhe à pupila.

Vem tocada das mãos de César e de Sila.

Vê quebrar-se-lhe a força aos vínculos mortais.

Dum lado e de outro lado, azulam-se

Os vastos horizontes;

Vida ressurge esplêndida

Por toda a criação.

Luz nova, luz magnífica

Os vales enche e os montes...

E além, sobre o Calvário,

Que assombro! que visão!

Fitei o olhar. Do píncaro

Da colossal montanha

Surge uma pomba, e plácida

Asas no espaço abriu.

Os ares rompe, embebe-se

No éter de luz estranha:

Olha-a minha alma atônita

Dos céus a que subiu.

Emblema audaz e lúgubre

Da força e do combate,

A águia no Capitólio

As asas abateu.

Mas voa a pomba, símbolo

Do amor e do resgate,

Santo e apertado vínculo

Que a terra prende ao céu.

Depois... Às mãos de bárbaros,

Na terra em que nascera,

Após sangrentos séculos,

A águia expirou; e então

Desceu a pomba cândida

Que marca a nova era,

Pousou no Capitólio,

Já berço, já cristão.

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