Cegonhas e rodovalhos Falenas · Capítulo 19 de 28
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Cegonhas e rodovalhos

Cegonhas e rodovalhos

( A Anísio Semprônio Rufo)

( Bouillet)

Salve, rei dos mortais, Semprônio invicto,

Tu que estreaste nas romanas mesas

O rodovalho fresco e a saborosa

Pedi-rubra cegonha!

Desentranhando os mármores da Frígia*

Ou já rompendo ao bronze o escuro seio,

Justo era que mandasse a mão do artista

Teu nobre rosto aos evos.

Porque fosses maior aos olhos pasmos

Das nações do Universo, ó pai dos molhos,

Ó pai das comezainas, em criar-te

Teu século esfalfou-se.

A tua vinda ao mundo prepararam

Os destinos, e acaso amiga estrela

Ao primeiro vagido de teus lábios

Entre nuvens luzia.

Antes de ti, no seu vulgar instinto,

Que comiam Romanos? Carne insossa

Dos seus rebanhos vis, e uns pobres frutos,

Pasto bem digno deles;

A escudela de pão outrora ornava,

Com o saleiro antigo, a mesa rústica,

A mesa em que, três séculos contados,

Comeram senadores.

E quando, por salvar a pátria em risco,

Os velhos se ajuntavam, quantas vezes

O cheiro do alho enchia a antiga cúria,

O pórtico sombrio,

Onde vencidos reis o chão beijavam;

Quantas, deixando em meio a mal cozida,

A sem sabor chanfana, iam de um salto

À conquista do mundo!

Ao voltar dos combates, vencedores,

Carga de glória a não trazia ao porto,

Reis vencidos, tetrarcas subjugados,

E rasgadas bandeiras...

Iludiam-se os míseros! Bem hajas,

Bem hajas tu, grande homem, que trouxeste

Na tua ovante barca à ingrata Roma

Cegonhas, rodovalhos!

Maior que esse marujo que estripava,

Co’o rijo arpéu, as mãos cartaginesas,

Tu, Semprônio, co’as redes apanhavas

Ouriçado marisco;

Tu, glutão vencedor, cingida a fronte

Co’o verde mirto, a terra percorreste,

Por encontrar os fartos, os gulosos

Ninhos de finos pássaros.

Roma desconheceu teu gênio, ó Rufo!

Dizem até ( vergonha!) que negara

Aos teimosos desejos que nutrias

O voto de pretura.

Mas a ti, que te importa a voz da turba?

Efêmero rumor que o vento leva

Como a vaga do mar. Não, não raiarão

Os teus melhores dias.

Virão, quando aspirar a invicta Roma

As preguiçosas brisas do oriente;

Quando co’a mitra d’ouro, o descorado,

O cidadão romano,

Pelo foro arrastar o tardo passo

E sacudir da toga roçagante,

Às virações os tépidos perfumes

Como um sátrapa assírio.

Virão, virão, quando na escura noite

A orgia imperial encher o espaço

De viva luz, e embalsamar as ondas

Com os seus bafos quentes;

Então do sono acordarás, e a sombra,

A tua sacra sombra irá pairando

Ao ruído das músicas noturnas

Nas rochas de Capréia.

Ó mártir dos festins! Queres vingança?

Tê-la-ás e à farta, à tua gran memória;

Vinga-te o luxo que domina a Itália;

Ressurgirás ovante

Ao dia em que na mesa dos Romanos

Vier pompear o javali silvestre,

Prato a que der os finos molhos Tróia

E rouxinol as línguas.

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