Pássaros Falenas · Capítulo 18 de 28
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Pássaros

Pássaros

(Versos escritos no álbum de Manoel de Araújo)

Je veux changer mes pensées en oiseaux.

C. Marot

Olha como, cortando os leves ares,

Passam do vale ao monte as andorinhas;

Vão pousar na verdura dos palmares,

Que à tarde, cobre transparente véu;

Voam também como essas avezinhas

Meus sombrios, meus tristes pensamentos;

Zombam da fúria dos contrários ventos,

Fogem da terra, acercam-se do céu.

Porque o céu é também aquela estância

Onde respira a doce criatura,

Filha de nosso amor, sonho da infância,

Pensamento dos dias juvenis.

Lá, como esquiva flor, formosa e pura,

Vives tu escondida entre a folhagem,

Ó rainha do ermo, ó fresca imagem

Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!

Vão para aquela estância, enamorados,

Os pensamentos de minha alma ansiosa;

Vão contar-lhe os meus dias mal gozados

E estas noites de lágrimas e dor;

Na tua fronte pousarão, mimosa,

Como as aves no cimo da palmeira;

Dizendo aos ecos a canção primeira

De um livro escrito pela mão do amor.

Dirão também como conservo ainda

No fundo de minha alma essa lembrança

Da tua imagem vaporosa e linda,

Único alento que me prende aqui.

E dirão mais que estrelas de esperança

Enchem a escuridão das noites minhas.

Como sobem ao monte as andorinhas,

Meus pensamentos voam para ti.

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