Livro II Feitos de Mem de Sá · Capítulo 3 de 6
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Livro II

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Mas já as obras que pela honra divina empreendeste

e teu entusiasmo operoso estão de mim exigindo

os louvores justamente merecidos, ó grande

governador lusitano! O Senhor tos dará generoso

e coroará teus trabalhos com honras celestes,

fiquem embora nossos cantos aquém de tua grandeza.

Pois quem lembrará o tempo das tribos ferozes

quando ainda os selvagens não te viam, chefe valente,

impor santas normas aos povos e lançar justo freio

a uma raça indomável? Que terror então invadia

o peito de todos! A quantos , boatos vãos incutiam

vergonhoso medo! O bárbaro expandindo sua ira

quebrantava as leis santas da mãe natureza

e os divinos preceitos do Pai onipotente

cevando as queixadas bestiais em corpos humanos!

Essa raça selvagem, sem a menor lei, perpetrava

crimes horrendos contra os mandados divinos,

proferindo impunemente ameaças contínuas e altivos

discursos. Então com arrogância o índio sanhudo

olhava para os cristãos, e estes, entrincheirados

detrás de seus muros, tremiam de pavor vergonhosos:

como quando lobos vorazes, que a fome impiedosa

açula e avassala, rangendo os dentes, cobiçam,

à ronda do aprisco, espostejar os tenros cordeiros

e extinguir a sede ardente no sangue que sugam;

lá dentro as ovelhas estremecem e fremem com medo

das feras que rondam fora, mal confiadas no aprisco.

Mal pisa o enérgico chefe os litorais brasileiros

com os poderes de governador geral que trazia,

para logo começa a desterrar de todos os peitos

os vãos temores, e a sacudi-los do torpor em que jazem,

incendiando-os no amor da verdadeira e única glória.

Determina não sofrer por mais tempo o orgulho dos índios

mas castigar com penas graves e justas os públicos crimes.

Um certo bárbaro então, de boca insolente,

lançou feroz aos cristãos mil desafios,

exprobando-lhes o braço inerte e o peito cobarde,

bravateando contra eles terríveis matanças.

Chamava-se Cururupeba em sua língua materna,

nome que na nossa significa Sapo Espalmado.

Ao seu insensato orgulho e audaz arrogância

infligiu Mem de Sá digna paga, e assim começaram

a ter-lhe os brasis grande temor e respeito.

Já não ficarão impunes os crimes que há pouco

cometeste, ó Cururupeba, nem tua imensa soberba.

O braço valente dos cristãos lançou-te por terra

embora grande multidão dos teus te cercasse,

bem armados de flechas ligeiras, dispostos

a expor por teu amor a vida a todos os transes.

Mas a alma do grande herói firmada na força divina,

não obstante o receio da maior parte do vulgo,

resolve impor justo freio ao furor dos selvagens,

acalmar os vagalhões desse mar furioso.

Aos trinta homens que de cada aldeia escolhera

assim diz: "Ide e trazei-me preso esse louco

que tantas ameaças está contra nós vomitando.

Saiba ele enfim que não nos falta braço nem peito!"

Assim falou e eles partem em demanda das choças

enfumaçadas onde Cururupeba com a chusma dos índios

se aninha disposto a medir armas com armas.

Mas quem tudo pode abater com um aceno somente,

quem amansa as ondas do mar encapelado

e os ventos que as revolvem com sopros furiosos,

refreou-lhe a raiva e a inchada soberba

apertando-lhe o coração com gélido medo.

Firmes, os nossos não desistem, vão ter às cabanas,

cercam-nas, entram-nas e prendem a Cururupeba

no próprio esconderijo, e trazem-no preso p'ra fora;

tal o sapo escondido na cova, enchendo a pele e a bocarra,

parece ameaçar morte cruel com a baba empestada,

e mal do buraco o tiram com a mão, desaparecem

os sinais da raiva e deixa-se arrastar impotente.

Assim o prenderam indefeso, assim lhe amarraram

os punhos e lhe ataram os braços às costas,

e o conduziram vitoriosos ao governador em palácio.

E ele que há pouco lançava valentias aos ventos

e ameaçava feroz guerras, matanças e orgias,

vê-se agrilhoado duramente e jogado

na imundície horrível de um cárcere escuro,

pagando o merecido castigo de seus crimes antigos.

Não lhe desataram os grilhões, nem daí saiu livre

senão depois que a zona oblíqua dos signos

viu o sol percorrer a todos em seu rápido carro

e passada a do Peixe reviu a constelação do Carneiro,

transpondo os altos pórticos do firmamento estrelado.

Entretanto divulgou-se pelas aldeias a nova

de que esteva em ferros Cururupeba: terror indizível

se apodera dos índios. Pasmam todos e temem

cada qual pela própria sorte: como num bando de pombas,

quando cruel gavião arrebata uma nas garras aduncas,

as outras em debandada se escondem nos ninhos:

a imagem da companheira no desastre recente

continua a assustá-las e a entristecê-las ainda.

O piedoso Mem de Sá, desejou depois disto

ver adorado o Senhor do céu, do mar e da terra

e venerado nas plagas do Sul o nome de Cristo.

Resolve impor leis aos índios que vivem quais feras

e refrear seus bárbaros costumes. Logo desterra

a antropofagia cruel: não permite mais que movidos

de gula infrene bebam o sangue fraterno,

nem mais se violem os santos direitos da mãe natureza

e as leis do Criador. Para logo o ignóbil vulgacho

a quem movia ora ambição mal inspirada

ora verdadeiro terror, pôs-se a espalhar estes rumores:

"que novo governador é este? com que direito posterga

as leis antigas e tenta impor novos costumes

novas normas de vida a indômitas gentes?

Poderá ele agora persuadir a povos selvagens

tratados de aliança? deixará a raça brasílica

de comer carne humana, banindo do seio

de seus filhos ódios cruéis e guerras antigas?

Pois se o prazer destes bárbaros, justamente nisso consiste,

atirar-se sempre em novas e ferozes batalhas,

provocar os outros à guerra em que sempre viveram,

rasgar-lhes com as unhas a carne, e piores que tigres,

fincar os dentes em lanhos palpitantes de vida:

devem agora aprender a esquecer seus furores,

criar almas meigas e corações de cordeiro?

Acaso não voltará sobre nós o feroz inimigo

todas as iras e todos os braços devastando a cidade,

se faltarem outros em que saciem a sede de sangue?

Como é possível julgar que mudem agora

costumes que se embeberam na torrente dos séculos?

Poderão os beberrões deixar de encher-se de vinhos,

de vomitar o que beberam e de beber novamente

o que vomitarão? Não celebrar novas bodas esses devassos

e renunciando às antigas não se sujar em novas torpezas?

Estes e outros costumes, herdados dos seus antepassados,

e transmitidos como direito racial, de há longo tempo,

sofrerão impunemente que lhos arranquem agora?

Quão pouco conhece o índio altivo quem assim pensa!

Quanto se engana quem tenta realizar tais projetos!

Não está longe de permitir a ruína do povo!"

Tais rumores que corriam, tais as críticas duras

que publicamente se lançavam: um só temor o de todos,

uma só preocupação, desviar o governador

dos seus intentos, dobrá-lo com rogos e súplicas,

força-lo a deixar as determinações que tomara

tão resolutamente. Vão ter com ele bem premunidos,

reunindo nesta fala o argumento de todos:

"Grande governador, a quem Dom João o terceiro

nosso felicíssimo rei entregou o governo brasílico;

por desígnio da Providência, foi-te confiado

o nosso bem, para que em boa paz a todos dirijas

e olhes pelo bem estar de todos os súditos.

Agora que abonançou a tempestade da guerra,

que leis tencionas impor a esses povos selvagens?

Proíbes aos índios as guerras? de que paz fruir poderemos

senão se guerrearem entre si, saciando a sede de sangue

com que nasceram? De que maneira julgas possível

realizar teus desejos? que deixe de comer carne humana

o bárbaro que dela gosta? Podem os tigres viver sem a presa

e os leões ferozes deixar de despedaçar os novilhos

e os lobos perdoar às mansas ovelhas ? Antes deixará a baleia

de encher de peixes o bojo, no vasto oceano,

antes deixará o gavião, em vôo audacioso librado no espaço,

de raptar tímidas aves, e a águia real de garras aduncas

de levantar às alturas em revoada a lebre cativa:

do que deixarem os brasis de devorar carnes humanas.

Eia pois! pondera teus intentos com reflexões cautelosas.

Não impeça que mutuamente se provoquem à guerra

e se matem horrendamente, e, despedaçando seus inimigos,

lhes assem a carne no rito paterno e lhe roam os ossos

à maneira de cães, celebram as festas dos seus antepassados

e não pensem em lançar contra nós os braços ferozes,

nem desafoguem em nós suas iras de brutos

e sedentos de sangue nos passem ao fio da espada

a nós, nossas esposas e filhos, conspurcando de morte

toda a cidade. Tu serás a causa de tão grandes desgraças,

tu o responsável único da irreparável ruína

e do sangue derramado. Eis que te avisamos com tempo

nós que conhecemos, de há muito, os costumes dos índios,

e lhes experimentamos de perto a índole fera."

Assim falando, eles com acrimônia insistiam

erguendo a voz diante do governador: este porém, cujo peito

era sacrário de Deus, confiado no poder de Jesus,

cujo nome ansiava por tornar conhecido naquelas

bárbaras plagas, com ânimo tranqüilo e semblante sereno

responde: "Vive o Deus que criou céus, terras e mares

ante o qual tremem as abóbadas do firmamento

e as colossais muralhas do imenso universo.

Sua destra trar-nos-há auxílio a seu tempo

e livrará os cristãos de tantas desgraças."

Assim disse e destemido põe-se a realizar seus projetos.

Vós, irmãos nossos, habitantes das etéreas moradas,

que pisais docemente o pavimento estrelado,

e dessas alturas vos interessais pelos nossos destinos,

a fim de ocuparmos um dia um trono convosco:

dizei-me, eu vos conjuro, as alegrias que desfrutastes

por todo o céu! as sinfonias de júbilos que decantastes!

as alegres melodias que desentranharam os órgãos celestes!

as notas que desferiram trombetas e clarins de vitória!

os sons maviosos que jorrou a flauta sonora!

que harmonia nas cordas da cítara! que hinos contentes

cantastes ao Pai celeste! com que salmos sentidos

exaltastes ao som da harpa as glórias de Cristo:

quando o índio começou a trocar sua ferocidade

por modos mais humanos e a conhecer o nome do Eterno!

Vós, que por um pecador que lava seus crimes

nas lágrimas do arrependimento, dais as maiores

manifestações de alegria por todo o templo celeste,

como deveis exaltar com nova harmonia

este triunfo de Deus! Começa a bárbara terra

a sacudir dos ombros o tirânico jugo do inferno.

Arrancada às trevas do escuro e lúgubre abismo,

vai receber a luz divina do Sol sem ocaso,

aprender as leis santas do Senhor Jesus Cristo,

abraçar-lhe a fé e salutares doutrinas.

Foi por vosso ministério que tão grandes milagres

se realizaram. Vós, mais velozes que os ventos,

a nossas plagas trazeis em revoadas contínuas

as paternas disposições da Providência divina.

Dizei vós as leis e a ordem que o ilustre e piedoso

governador implantou entre povos tão feros,

para afinal ser honrado nestas paragens incultas

o nome vitorioso, forte e imortal de Jesus!

De início para poder jungir esses rudes selvagens

ao jugo da lei e moldá-los pela doutrina de Cristo,

ordena que deixados recôncavos, campos, florestas,

acorram de todas as partes a um mesmo local

e aí construam novas casas, ergam novas aldeias

e comecem a deixar os antigos costumes de feras;

não vagueiem daqui e dali, como tigres, pelos cerrados,

sem moradia certa, sempre duma terra p'ra outra,

sem nunca fixar-se em aldeias estáveis.

Era de ver como logo deixaram as enfumaçadas malocas,

suas cabanas cobertas de palha e suas roças agrestes.

Acorriam de todas as partes, movido da fama

e do muito medo que do governador se espalhara;

todos se submetiam a si, suas esposas e filhos

sem ousar opor-se ou confiar em seus braços e armas.

Decidido assim a impor nova ordem, novos costumes,

o magnânimo chefe manda construir quatro aldeias

de amplo circuito, nas quais se reunam todos os índios

das tabas em derredor e onde aprendam aos poucos,

de coração já manso, as leis santas de Cristo.

E porque o ano em quatro estações se divide,

que o áureo sol percorre com sua luz fulgurante,

fecundando-o com seus raios para que férteis ressurjam

as searas e reverdeçam as veigas contentes e fartas,

e a um tempo os frutos desejados madurem:

assim Jesus, filho unigênito de Deus, com o lume

de sua divindade, aclare estes brasis, repartidos

em quatro aldeias. Roçados os tojais, revolvidos

os campos ao labutar auspicioso do arado,

fecunde ele esta gleba e enfim a esplêndida messe

pague aos lavradores os gemidos e as lágrimas

que com as sementes lançara, por anos a fio

e com o coração aos pulos, encham os celeiros vazios.

Brotam as novas moradias; o índio, nômade há pouco,

ergue seu teto que o abrigará muitos anos,

e canta, em igrejas novas, o nome de Jesus, reverente.

O pio governador impõe santas leis aos selvagens,

e, desterrando costumes e ritos dos antepassados,

vínculos que os ligavam ao tirano do inferno

e lhes enlodavam as almas de culpas horrendas,

substitui-lhes preceitos divinos que cortem abusos,

lavem os corações afeiados e os rendam ao jugo

de Cristo que, com um único aceno, rege o universo

Reconheçam primeiramente o Deus do céu e da terra,

a quem os esquadrões dos anjos e os astros celestes,

os abismos do inferno e a mole terrestre obedecem:

que o reconheçam e lhe cumpram as ordens divinas.

Cessem já as cruas guerras e as sangrentas matanças,

o bárbaro costume de espedaçar o inimigo,

dessedentar com seu sangue as fauces sequiosas,

e devorar carne humana: é só com a morte

que se pagará tal crime, sangue por sangue.

Dá força de lei civil a tudo quanto nos manda

o Criador e aos renitentes com indignação ameaça.

O terror se apossa de todos, curvam-se as frontes,

por tanto tempo rebeldes, ao jugo de Cristo.

Parecia que o próprio Deus lá das alturas celestes,

falando ao Chefe, repetia essas mesmas palavras

que a ti, ó Patriarca cultivador da parreira,

dirigira outrora, quando, refluindo da terra,

as ondas do mar tornaram ao seio do abismo,

e o solo do colono reapareceu à vazante das águas:

"Sujeitas as plagas brasílicas! que o terror e o tremor

que inspiras, invada os povos cruéis, que rompendo alianças

contra a lei natural, matam e espedaçam os homens,

à maneira de feras." Também a seus ouvidos soava

a voz de Cristo: "Força-os a entrar em meu santuário!

que de povos diversos a minha casa transborde!"

Assim se expulsou a paixão de comer carne humana,

a sede de sangue abandonou as fauces sedentas;

e a raiz primeira e causa de todos os males,

a obsessão de matar inimigos e tomar-lhes os nomes,

para glória e triunfo do vencedor, foi desterrada.

Aprendem agora a ser mansos e da mancha do crime

afastam as mãos os que há pouco no sangue inimigo

tripudiavam, esmagando nos dentes membros humanos.

Há pouco a febre do impuro lhes devora as entranhas:

imersos no lodaçal, aí rebolavam o fétido corpo,

preso à torpeza de muitas, à maneira dos porcos.

Agora escolhem uma, companheira fiel e eterna,

vinculada pelo laço do matrimônio sagrado

que lhe guarda sem mancha o pudor prometido.

Para que lembrar os cantos que outrora entoavam

em suas bebedeiras? os gritos com que atroavam os ares

medonhamente? as cores com que pintavam os membros?

as penas variegadas com que enfeitavam os corpos?

A beber, vira-os a aurora do seu róseo carro,

e a tarde ao cerrar o dia nos umbrais do horizonte!

e a noite negra ao rolar dos altos cumes celestes

e a nova amanhã ao despertar sob a força dos raios:

já o belo sol, nascido neste segundo dia, engolfara

nas ondas azuis seus corcéis, e eles ainda

a atufar de vinho os abismos do ventre.

Que espetáculo de sujidões, que visão de torpezas!

Que obsceno os gestos dos homens, que impudicos meneios

os das mulheres que oferecem as lascivas bebidas!

Fartam de vinho o ventre e, cheio, tudo vomitam,

e bebem de novo e cheios aos vômito tornam..

Um vomita, outro apanha na cuia o vômito e o bebe.

Espetáculo horrível! aí se cantavam os feitos antigos

e as maldades criminosas dos seus antepassados,

e feroz se erguia o ardor da guerra e do sangue,

e fervia a paixão de despedaçar corpos humanos,

e lançar em vasos novos os membros feitos em postas,

pô-los a assar ao braseiro e espetar em caniços

os pedaços cortados em pequeninos. O desejo malvado

de todos os crimes, sopitado e pouco a pouco envelhado,

despertava e rejuvenescia ao ardor desses vinhos.

Agora, tudo é silêncio! nenhum rumor se levanta

das casas em confusão; cessou a loucura, e o descanso

tudo cobre delicioso. Tal qual sob o céu agitado

por tenebrosos trovões e varrido de ventos furiosos,

Incha o mar, erguem-se as ondas, e os rolos das vagas

atirando-se contra os rochedos rouquejam de espuma;

e, quando os ventos pousam, calam-se e na lisura dos mares

ao sopro do zéfiro, as ondas de repente se amansam.

Já não ousas agora servir-te de teus artifícios,

perverso feiticeiro, entre povos que seguem

a doutrina de Cristo: já não podes com mãos mentirosas

esfregar membros doentes , nem, com lábios imundos

chupar as partes do corpo que os frios terríveis

enregelaram, nem as vísceras que ardem de febre,

nem as lentas podagras nem os braços inchados.

Já não enganarás com tuas artes os pobres enfermos ,

que muito creram, coitados! nas mentiras do inferno.

Não mais mostrarás ao doente palhas e fios compridos

astuciosamente enrolados, nem tua boca enganosa

lhe dirá: "vês que doença te tirei com meus lábios

do corpo enfraquecido? confia! gozarás já em breve

da desejada saúde que te deu minha destra".

Jaz por terra o velho engano; guarda ao rebanho

agora a matilha de Deus, cujos latidos afastam

lobos raivosos e traiçoeiros . Se te prender algum dia

a mão dos guardas, gemerás em vingadora fogueira

ou pagarás em sujo cárcere o merecido castigo.

Quem cantará a glória que agora se dá ao seu nome,

ó Cristo? Que desbarato sofreram as negras fileiras

do inferno! Que uivos horrendos ecoaram nos antros

da habitação sombria. Em estertores insanos tremeram

o caos da morte e o Flegetonte que arrota

chamas devoradoras, e as águas estagnadas da Estige,

as ondas do Aqueronte e Cérbero enorme que aterra,

com o latir das três fauces, os reinos da treva.

Choraram nas sombras eternas os monstros informes

e o bando das fúrias: todo o antro de Satanás aterrado

reboou pelas escuras cavernas em mugidos horrendos.

Gemeu o monstro infeliz, chorou a fera cruel,

Lúcifer, de lhe terem arrancado dos dentes a presa.

Foge de tua face, ó Cristo Rei, a escamosa serpente

e sepulta-se na treva justiceira da eterna geena.

Mal começaram a brilhar as vitoriosas bandeiras

do teu triunfo, as vitoriosas bandeiras da cruz,

por entre os povos brasílicos que outrora envolvera

em espirais mortíferas e envenenara diabolicamente

e arrastava à força ao profundo do inferno:

estarreceu de horror o desgraçado e uivando atirou-se

no abismo, e deixou-te, os reinos que a ti pertenciam

e que ele há tanto usurpara. Teus são os brasílicos reinos ,

onipotente Jesus, que com o próprio sangue os compraste

e com morte horrenda e sofrimento indizível

os arrancaste das garras do malvado tirano.

Canta-te por isso a gente inculta merecidos louvores,

conhece teu nome, ante o qual estremece a beleza dos anjos,

os antros do inferno e a imensidade da terra:

só dele depende a felicidade dos míseros homens.

Mas, porque narrar por miúdo quanto, inspirado por Cristo,

realizou o piedoso chefe? Proclama-nos os fatos.

Erguem-se templos; não se firmam em marmóreas colunas

nem se talham de blocos brilhantes de Paros ou nítido jaspe

não brilham de pratas novas, e lustrosos marfins,

nem de áureas palhetas, ou alfaias preciosas do Ganges:

firmam-se na fé de Cristo e adornam-se dos santos preceitos

do Onipotente; é aí que a chama celeste incendeia

de amor divino os simples corações dos Brasis,

e lhes cobre as pobres almas de verdadeiras riquezas.

O chefe piedoso os ergueu e quis dedicá-los

a celestes patronos: a Paulo foi consagrado o primeiro,

àquele que ensinou aos gentios a doutrina de Cristo,

e pelo nome do Senhor Jesus sofreu dissabores,

muitos e enormes enganos e grandes trabalhos,

duros naufrágios no mar e mil perigos na terra,

e dando a cabeça ao ferro alcançou brilhante triunfo.

Foi a segunda igreja dedicada ao apóstolo Tiago,

primeiro dos doze a oferecer o pescoço à espada,

e derramar seu precioso sangue em morte afrontosa,

enquanto exalta com voz corajosa o nome do Mestre.

Coube a terceira a João, o amigo predileto de Cristo:

distinguiu-o entre os demais a fúlgida glória

de sua nívea candura. Tão forte amor lhe abrasava

o peito fiel, que entre espadas furiosas teve a coragem

de seguir o Mestre até os tormentos terríveis da cruz.

Aí mereceu receber a maior honra da terra,

ouvir do Senhor moribundo as derradeiras palavras:

"Eis aquela que em seu seio de imaculada pureza

me concebeu e a seus níveos peitos me nutriu pequenino!

será ela a tua mãe e serás tu seu filho!"

As últimas torres erguidas, foram a ti consagradas.

ó Divino Espirito Santo: é teu sopro que enche

os espaços celestes, as vastidões do mar e da terra.

Tu inspiras alma aos viventes, purificas o imundo,

iluminas as trevas e de luz inundas as mentes

e vais morar no íntimo sacrário do peito.

Tu, quando Deus levantava as muralhas do mundo

as do céu e da terra, e os mares azuis, só com seu Verbo,

pairavas sobre as águas e abrindo as asas divinas

acalentava o abismo. Tu, com teu sopro suave,

fecundas os rios, as torrentes e as fontes perenes,

para dar vida às almas, e com teu fogo divino

lhes abrasa o seio: a Ti, ao Padre e ao Filho,

uma só e mesma divindade, um só poder e grandeza,

pelos séculos sem fim glória igual seja dada!

Ressoam sem cessar nesses templos os mistérios sagrados:

aí aprendem os Brasis os hábitos santos de Cristo.

Lá os ajuntou de toda a parte a mão firme do chefe.

Agora se podem admirar as multidões numerosas,

que acorrem aos templos de Deus, quando a face de aurora

se envolve pouco a pouco em seu véu cor de rosa,

e quando o sol se precipita no abismo dos mares.

Cada qual exalta a seu Pai com os termos que sabe:

aqui brada a fé sincera, aqui a mulher mais o homem

aprendem o amor de Deus, guardam seus mandamento

e bebem sequiosos a linfa da doutrina celeste.

Aqui os meninos inocentes que não mancharam a vida

de crime algum, aqui as virgens de intata pureza

aprendem a cantar em coro alternado hinos sagrados

e a modular teu nome, ó amável Jesus!

Que alvoroço alegre vai entre os habitantes celestes,

entre os coros angélicos! e, que doçura de cantos!

Como se lançam à terra, à maneira de fúlgido raio,

modulando teu nome, ó amável Jesus!

Que alegrias imensas invadem o coração delicado

da Virgem Mãe, que pode encerrar em seu seio

ao Onipotente que o palácio do céu e a grandeza do mundo

não podem abarcar! Quanto a boa mãe rejubila

ao ouvir nas plagas brasílicas o nome de Cristo,

o nome santo de seu Filho e Senhor exaltado!

Nesses templos imensa multidão de inocentes,

manchados não por crimes próprios, mas só pela culpa

do primeiro Pai e por isso sujeitos ao império da morte,

se orvalham e renascem nas linfas sagradas,

e, livres já da mancha, no limiar primeiro da vida,

arrebatados em massa, voam para os templos eternos,

para gozar perenemente da face de quem os criara.

Aí também, os que, sob o peso das próprias maldades

se vergaram ao jugo satânico, à força de prantos e dores,

lavam as manchas contraídas e, confessando seus crimes,

esperam do Senhor o perdão dos seus erros.

Aí, os raios ardentes do sol a estiolar sem piedade,

as chuvas, as sedes, as fomes a atormentar de contínuo

esses heróis, irmãos unidos num só coração,

ufanos do nome de "companheiros de Cristo Jesus".

Dobra-os o trabalho assíduo e o cuidado incessante

de arrancar os Brasis às trevosas fauces do abismo,

de conduzi-los para a luz serena dos céus,

a curar-lhes almas e corpos, dias e noites a fio.

O nome, que a região etérea de joelhos adora,

que a caterva infernal reverencia prostrada,

que a terra inteira, curvada ao chão, humilde venera,

o nome augusto de Cristo, foram eles quem por primeiros

em altos brados o proclamaram em plagas brasílicas.

Eles lançaram as sementes do Verbo divino

em campos bravios, e arado em mão revolveram,

longos anos, uma terra dolorosamente infecunda.

Foram os primeiros a cantar o sublime triunfo da cruz,

o martírio do Cordeiro inocente e sua morte nefanda,

a vitória de Cristo morto sobre o tirano do inferno,

o sangue de Deus, verdadeiro manancial salvador.

Só agora, ó Cristo amoroso, depois que os Brasis

dobraram a cerviz altiva ao teu jugo e abraçaram

a fé verdadeira, depois de tantos suores,

começam de ser consolados. Alegrias novas despontam

Começa a soprar do céu um prazer todo novo

que afaga qual brisa suave os membros cansados,

e penetra docemente as almas e aos corações doloridos

soergue: então o descanso alastra pela quadra tranqüila,

e refaz aos lavradores peitos e braços caídos

da faina incessante, e à mente infunde nova alegria,

esperanças novas, não a prostre vencida o trabalho.

Já agora os campos do Brasil se cobrem de flores

formosas, nem mais se confiam a areal as sementes,

mas a terra vencida pelo trabalho do arado,

regada por chuvas generosas, aquecida por raios

do Sol divino, em profusão dá-lhes seus frutos.

Fugiu o áspero inverno

, fugiram as frias geadas

aos ardores do sol, e os peitos de pedra em seu gelo

já se não obstinam: almas de feias culpas manchadas

limpam-se e inflama-se. Friezas de outrora são chamas

de amor de Deus. Tal qual o inverno se afasta embuçado

em seu manto de brumas, quando começa na terra

a soprar com seu murmúrio amigo a brisa mimosa,

e o sol com seu brando calor a superfície lhe afaga:

então, madre fecunda, ela se abre em tesouros e os campos,

seu regaço verde, são todos renovação, e beleza,

e a alegria do rosto se expande em prados ridentes.

Então riem as searas, engalana-se a quadra formosa,

flores voltam a pintar os ramos em que as florestas se abraçam

copas são tetos de verdura, a ave desafoga em trinados

a garrulice. Então a vide, farta de seiva, rebenta

em tenros frutos e

frondes, contente, e estende rasteiros

os braços, e por toda a parte a cabeleira dos ramos.

Fértil de tufos novos; então com seus anéis a gavinha

sai da cepa materna; folhas seivosas se espalma

e em breve o pâmpano está vergando ao peso dos cachos.

Já a noite negra foge, fecha-se a porta ao inferno trevoso,

já não vomita suas labaredas a horrenda fornalha.

O príncipe do mundo, escorraçado do austral hemisfério,

atroa as cavernas escuras com mugidos de raiva.

Só a Cristo Jesus, eterna vida, se cantam louvores:

as bandeiras fulgurantes do augusto Rei se desfraldam

e a obra da cruz rebrilha imortal. Rei é Cristo

e seu império se estende na terra, nas ondas do espaço,

e de direito inalienável reclama para si as plagas brasílicas.

Que teu nome e teu preço e tua glória inefável

se espalhe pelo mundo inteiro, ó Cristo, honra dos céus,

e a plaga austral ecoe eternamente, Jesus, o teu nome!

Com que alegria, por tantos bens, o Chefe piedoso

rende graças ao Pai Celeste do intimo d'alma,

como estua de amor! como cuida que a fé e a piedade

sinceramente se cultivem! Redobra cuidados ingentes,

que não lhe concedem sossego aos membros cansados.

Se quisesse estreitar em versos tantos feitos ilustres

de um coração abrasado no amor ardente de Cristo,

seria sobre humana tarefa, e ao profundo dos mares

o peso imenso arrastaria minha frágil barquinha

antes de poder lançar âncora em porto seguro.

Faltar-me-iam para logo as parcas harmonias do verso

perante a abundância das glórias a ser celebradas.

Mas a paixão fremente de cantar o nome divino

me arrebata: é doce subir às montanhas celestes

e beber nas fontes de Deus, e, expulsas as trevas da mente

e firmado o passo por entre as incertezas da vida,

haurir das regiões etéreas a luz da beleza.

A recente cidade do Salvador florescia em doce sossego,

e a nova assembléia dos cristãos, com plácido aspecto,

cantava os louvores de Deus: nenhum temor inquietante

os oprimia: nem boatos de guerra futura

vinham sequer turbar a bela paz renascente.

Depois que deixaram a terra os ímpios bandos do inferno,

cessara por toda a parte a fúria louca da guerra.

Fulgiam dias serenos, e o céu com luzes mais vivas

acossavam para longe as nuvens sombrias das almas.

Jorravam dos lábios carmes celestes a Cristo,

e os peitos tranqüilos respiravam as doçuras da paz,

enquanto de bocas bárbaras ressoavam louvores divinos.

Eis que de súbito triste notícia alarma a cidade

e crava nos corações de todos o punhal do desgosto,

e gemem os homens e gemem inocentes crianças.

O mar azul, no meio das águas distingue uma terra,

não longe daqui, na direção do sul borrascoso.

Solo fértil, ornado de bela e eterna verdura:

promissoras sementes lhe enchem os sulcos fecundos,

e os campos alegres se esmaltam de canas de açúcar.

Habitavam-na tranqüilos os Lusos, muitos anos havia,

e nunca o peito lhes arfara ao sobressalto da guerra,

mas comerciando com as vizinhas gentes selvagens,

desfrutavam o dom da tranqüilidade amorosa.

Mas agora os índios tudo abateram em súbito ataque,

rompendo as doces cadeias da antiga amizade.

Começaram a encher-se de altivez e fereza,

a arrasar os campos ricos e pingues searas,

a incendiar com fachos cruéis as casas vizinhas,

a trespassar os próprios homens com setas farpadas

e, inesperadamente, a prostrá-los mortos por terra.

É assim que o borrascoso sul de repente se arroja

às naus que sulcam tranqüilas a vastidão do oceano,

e os altos céus ribombam e em incessantes coriscos

se iluminam, enquanto o vento sopra em turbilhão furioso

e as ondas se incham e engolem os navios incautos.

Os índios os cercam e tentam rendê-los à míngua,

homens e mulheres, meninos e tenras donzelas.

Começa a atormentá-los a fome: e o feroz inimigo

junto aos muros os ameaça altivo, destrói às flechadas

criações e rebanhos. Invade os sitiados terror doloroso.

Quando o ilustre Chefe ouviu a triste notícia,

gemeu e do fundo da alma soltou este suspiro:

"Terão a sua paga!" Chama os principais da cidade.

Acorreram todos e ansiosos esperavam atentos

a resolução do Chefe. Começa então por estas palavras:

"Um crime horrível perpetrou o feroz inimigo:

incendiou campos e casas aos cristãos e açulado

de furor selvagem deu morte cruel a inocentes.

Como creio, cidadãos, chegou até vós esta fama.

Cercados na vila, sob o fraco amparo dos muros,

sofrem os nossos o furor e as iras sem freio

dos selvagens: e trazem as vidas pendentes de um fio.

Nestas aflições, é forçoso levar-lhes socorros,

e a causa pede que eu próprio vá auxiliá-los".

Eles objetaram: " Não é seguro deixar nossos lares,

ilustre chefe, e abandonar os índios há pouco sujeitos:

se daqui te afastares, todos eles de um salto

criarão novos brios e, fora de si pelo exemplo

do fato recente, atacarão a cidade e os templos

com fúria desumana, derrocando-os a ferro e a fogo".

Isto diziam. Mas o herói nutria uma grande esperança

no íntimo d'alma: postos os olhos nas alturas celestes,

donde sabia vir-lhe o auxílio, roga socorro

ao Criador e Senhor dos Céus, da terra e dos mares,

pedindo reverente que os passos lhe firme.

Assim estribado na força do braço divino,

prepara-se a arrancar os sitiados da angústia suprema.

Sem paciência para demoras, manda tocas as trombetas

chamando à guerra: latejam brios nos peitos dos moços

e na rude mão do soldado brilham as armas terríveis.

O índio moço sobraça o arco em forma de lua,

pronto a seguir o Chefe, com ardor, para a guerra.

Assim alegres todos subiram às naus equipadas

a arrostar as fúrias do mar. Foi em Junho,

tempo em que o Sul com chuvas e fúrias horrendas

domina a vastidão do oceano, corre espaços

que turbilhonam por entre os nimbos que os cingem.

Tudo fervia então sob a carga das águias celestes

e o Sul encapelava a vasta planície cerúlea

e tão alto a erguia que aos nautas barrava o caminho.

Mas, apenas embarcaram e se soltaram os cabos

e a âncora alçada desprendeu o dente recurvo,

Deus onipotente, que com um aceno dirige as estrelas

e tira dos seus tesouros os indômitos ventos,

limpou os espaços e reprimiu as furiosas lufadas.

Amaina as ondas e afaga o mundo com o sopro do Norte,

e ao amplexo dos ventos favoráveis entumecem as velas.

E já as naus sulcam as águas azuis do oceano

que se rasgam em salto, e avança a quilha embreada.

Vencido o primeiro dia segue-se noite tranqüila

de céu sereno, todo rutilante de estrelas;

esta cedeu lugar a um sol esplendente que veio

erguer o escuro véu da noite ao mundo desperto.

Mal atingira os cumes do firmamento sereno

quando a armada ferrou o litoral desejado

e os nautas calcaram jubilosos a praia querida.

Apenas pisou em terra, dignas graças o Chefe

rendeu a Deus: imitaram-no os fiéis companheiros.

Guias à frente, decidido sai à procura

do inimigo atroz que se acolhera a fundas florestas.

Ia todo o exército pisando as calcinadas areias

dos curvos litorais até chegarem às altas montanhas

que separam da praia as habitações dos selvagens.

Lançam-se à escalada, e a pé atingem o cume do monte

e no negror da noite, penetram nas escuras florestas,

por trilhos estreitos por onde os conduz o caminho.

Já densa treva envolvera a imensidade da terra

e os carros da noite rolavam no mais alto dos céus,

quando chegaram a um posto, no meio do bosque,

coberto de impressionante negror. Águas o cercam,

recolhidas de todas as partes, que tudo cobrem de lodo

e fazem desse lodaçal um pântano imenso.

Há aí estreitíssima ponte, lanço de longo trajeto:

astucioso o selvagem fabricou-a de fino madeiro,

para tornar suas casas inacessíveis aos inimigos

e afastar para longe todo o perigo de ataque:

julgava assim inexpugnáveis suas aldeias.

Mas, que há inacessível ao Senhor Deus, que outrora

partiu as águas do Mar Vermelho sob os pés do seu povo

e fê-lo passar, de plantas enxutas, os fundos do abismo?

Também agora ele próprio guiou os seus como chefe

e fez com que sem perigo passassem as pontes estreitas.

Transpôs o chefe a vasta lagoa no escuro da noite,

firmando o pé nos troncos por três milhas ao longo.

Já se aproximavam dos fumegantes tetos selvagens:

o próprio chefe exorta seus homens a serem valentes,

a despedaçar o inimigo de Cristo em renhido combate.

Adiantam-se ligeiros, já quase tocam as tabas,

da qual em seu posto: dirigem preces ardentes

a Cristo Jesus, general da milícia celeste.

Arrojam-se ao inimigo desprevenido de tanto perigo

e lhe pagam com merecida morte a morte de tantos.

Ecoam no silêncio da noite os gritos de guerra:

a este decepa a lâmina a cabeça há pouco indomável,

àquele fere nas costas, vara ao outro o ventre adiposo.

Uns tombam com o peito crivado de setas farpadas,

a muitos a lança trespassa a ilharga e fundo lhes crava

o coração: as armas estão quentes do sangue que bebem.

Os restantes fogem encobertos pelas sombras da noite,

e se embrenham nas florestas. Então o vencedor exultando

entrega as aldeias à voragem das chamas ferozes.

A labareda lambe o céu ao sonido das palhas

e ilumina as matas envoltas nas trevas da noite.

Vencem as chamas e tudo reduzem a um monte de cinzas,

enquanto às nuvens sobem enruivadas centelhas.

Quatro aldeias devorou a vingança do fogo,

até que a aurora veio desdobrar o véu fulgente do dia

e a lâmpada do sol resplendeu no horizonte.

Já o punhado dos bravos se afasta a caminho da praia,

contente de ter infligido ao selvagem merecido castigo.

As ondas do mar agitado referviam na praia,

deixando ao recuo das vagas um rolo de espumas.

Eis que à pressa acode numeroso o feroz inimigo.

Nuvens de setas silva nos ares. Vêm eles tão furiosos

sobre os cristãos cansados dos esforços da noite,

que não percebem as ciladas: pois apenas chegado

à praia, nosso herói manda alguns esconder-se

no recesso do bosque e aí sem rumor ficar à espreita,

enquanto os outros prosseguem em passo apressado.

Crendo que os nossos fugiam, o inimigo se lança

em corrida veloz, afagando vã esperança.

Enquanto correm soltando gritos ferozes,

cai-lhes pelas costas em rijos golpes o troço escondido,

lançando os corpos à cova, e as almas ao lago do inferno.

Assim a matança que preparavam voltou-se contra eles.

Como quando o tigre feroz, subjugado atrozmente

por fome de vários dias, confiado nas sombras da noite,

penetra sob escura grade, que grandes trocos massudos

tornam pesada. Estarrece do outro lado tremendo

o cão preso num cercado e amarrado pela negaça.

O tigre, picado da fome e da imagem da preia presente,

avança para rasgar-lhe as carnes e cevar-se com elas

e desalterar-se no jorro do sangue: mas então de repente

a malha enorme de troncos desaba-lhe em cima

e com o peso imenso o imprensa no chão, enraivado.

Assim caíram os inimigos vencidos pela cilada.

Poucos escaparam à lança e a rútila espada

dos cristãos que os cercavam. Alguns em corrida ligeira

atiravam-se às ondas e através das vagas bravias

deslizavam velozes e a poder de rudes braçadas

venciam enormes espaços do mar agitado:

era a última e fugaz esperança dos infelizes.

Mas Deus que criou os céus e deu ao heroísmo do Chefe

a vitória na terra, deu-lhe também no oceano.

Os brasis que seguiam a bandeira de Cristo

e as armas do Chefe, atiram-se às ondas de um salto

e sem perda de tempo cortam as vagas como golfinhos,

quando pelas sendas do mar vão no encalço dos peixes.

Clava na mão esquerda, com a direita no corte das ondas,

com os pés por remos, sulcam as planícies encapeladas

do vasto abismo, e caem sobre o inimigo que foge.

Voa das ondas fendidas a espuma, ao sopro do vento,

já se aferram aos malparados fugitivos e travam combates

horrendos e entre as ondas bravas vibram golpes ferozes.

Já se erguem nos altos cabelos das ondas

do mar indignado, já desaparecem nos seios profundos

da vaga que se abre, redobrando sem cessar os seus golpes.

Na praia ao longe os soldados contemplam as lutas

e pasmam das rijas batalhas que se travam nas águas.

Como quando as baleias sobem do fundo do abismo

e se acolhem às enseadas do litoral brasileiro

na quadra em que se entregam ao serviço da espécie:

então travam combates ferozes ao soçobro das ondas

e lançam até as nuvens jatos de água espumante:

Atônitos na praia os homens assistem à luta gigante

dos monstros descomunais entre as vagas encapeladas.

Elas desfecham golpes tremendos e horrendas feridas

com as caudas e dentes agudos, até que as ondas vomitem

os cadáveres monstruosos às areias da praia.

Assim nossos índios, em pleno mar, a braços com as ondas

vibram golpes terríveis: a uns despedaçam, a outros

já semimortos puxam-nos, enlaçando-lhes os longos cabelos

com a mão esquerda, enquanto com a direita cortam as vagas

e vitoriosos arrastam até as praias a presa,

indo depor aos pés do Chefe os corpos de seus inimigos,

e despedaçando aos semivivos os crânios com os rijos tacapes.

Acautelai-vos todos quantos não experimentaram a força

destes brasis e os julgais cobardes de alma e moles de corpo,

e desprezais como um brinco suas rústicas armas.

Vede que audácia furiosa pode caber-lhes no peito,

que feixe rijo de músculos os braços e as pernas:

quão temíveis serão os que tão velozes cortam as águas

e tão valentes se arrojam às braçadas com o mar agitado

e tão ferozes desfecham golpes no meio das ondas,

como outros em terra firme, quando ferem de morte!

Logo todos os batalhões, prostrados os inimigos,

seguem pelas praia sinuosos em direção da cidade.

Vêm-lhes ao encontro em bando alegre as mulheres,

as meninas e meninos cantando em coros unidos

os louvores de Deus onipotente que prostrou o inimigo

com as próprias forças e aniquilou as hordas selvagens,

com o poder de seu braço e livrou de todo o perigo

os batalhões fiéis, concedendo-lhes volta feliz,

e arrancando-os ilesos dentre tantos combates.

Então rendem todos justas graças, do íntimo d'alma,

a ti, Sá ilustre, escolhido por Deus dentre muitos milhares,

para domar esta gente rebelde e com justa vingança

esmagar as tropas selvagens e afastar a ameaça

que pesava cruel sobre a cabeça dos sitiados.

Já as mulheres, atroando os céus de alegria, te entoam,

ó vencedor, cânticos de merecidos louvores,

como outrora as donzelas de Judá exaltaram

ao grande filho de Jessé, que com pedra roliça,

apanhada na torrente e atirada por rústica funda,

quebrou a cabeça e prostrou ao soberbo Golias,

terror dos lares pátrios, ameaça do recinto divino.

Todos então transpõem os umbrais do templo sagrado

que a piedade terna dos fiéis a ti dedicara,

ó Mãe do Redentor, Virgem Maria, que em tua beleza

unes a maternidade divina à virgindade perfeita,

Quando há pouco o inimigo devastava as risonhas searas

e em tropel tudo reduzia a escombros e cinzas,

entregara também este templo a sacrílegas chamas.

Porisso agora entoam a Deus dignos louvores e glórias:

ressurge nova a alegria, foge p'ra longe a tristeza

e com ela os gemidos de há pouco, os prantos e dores,

enfim a cidade despe a veste de luto pesado.

Para que relembrar agora o terrível incêndio

com que o nobre Chefe abrasou os segundos redutos?

Redobrou-lhe os brios a glória do triunfo alcançado

e vibrou de novo a espada da vingança e a acha de bronze.

Não cessara, de todo, o mal, ainda a altivez dos selvagens

não se curvara, ainda a alguns o terror não dobrara

as cervizes soberbas. Eis que de toda a parte acorrem

jovens valentes prontos a arrostar a morte na luta

ou a infligi-la de vez ao Chefe. Uns aos outros

se inflamam para o combate com estas palavras:

"Nós, nós que fazemos, jovens de peitos robustos,

que tanto luto nos causam uns pouco guerreiros?

Ah! porque nos consomem chamas cruéis os redutos?

Nós nos ocultamos, medrosos, nas brechas escuras

e nelas buscamos abrigo, como tímidas corças:

eles intrépidos em nossas próprias casas nos queimam

e nos despedaçam, quais feros leões de fauces tremendas,

e com nossas esposas nos levam os filhos cativos.

Oh! porque não preferimos morte gloriosa na guerra

como fizeram nossos pais? Contra o inimigo corramos

acossando-o em batalha feroz e com setas ligeiras

varemos-lhe o peito ou, senão, que o nosso não tema

afrontar a morte bela e cravar-se na ponta da espada.

Assim não morreremos, pelo menos sem alguma desforra!"

Inflamados com tais ditos os índios se enchem de raiva

e de negro furor: dirigem-se para a cidade, apostados

ou a matar o Chefe ou morrer fatalmente.

É a disjuntiva cruel. Já a rápidos passos o bando

se adianta e os corpos nus cobrem a praia.

Todos fortemente armados: leva as setas a esquerda

e sustém os arcos recurvos que pendem dos ombros.

A direita empunha o tacape, trabalhado com arte e polido,

ornado em derredor de penas de aves variadas:

com ele os antropófagos rompem a cabeça dos cativos.

Todos eles vem pintados de variegada plumagem

que em parte se fixa ao penteado de longos cabelos;

parte, a modo de pulseiras, cinge os membros robustos;

parte, em forma de coroa, com grande arte disposta,

lhes circunda a cabeça. Entremeiam-se às brancas

as penas amarelas, às vermelhas as verdes e todo o conjunto

brilha pela variedade. Alvos pedaços de mármore pendem

dos lábios furados ou verdes pedrinhas de vívido brilho.

Como quando, acabadas as chuvas, a quadra formosa

adorna de florinhas multicores as ervas,

e na floração das árvores sorriem as verdes florestas:

Tal o aspecto do bando a serpear pelas curvas da praia.

Já se achegava a multidão bem perto das casas,

quando o Chefe, a quem jamais cilada nenhuma

colheu de improviso, sai ao encontro dos índios

que avançam em tropel. Leva adiante a cruz vencedora

do supremo Rei. Logo travam a luta: gritos horrendos

enchem a vastidão do mar que perto reboa.

Primeiro com dardos de arremesso e rápidas setas

combatem à distância. Começam a cair trespassados

os inimigos, a estorcer-se feridos na areia sequiosa

e em golfadas de sangue exalar o derradeiro suspiro.

Com a proteção de Deus os nossos causam inúmeras chagas

e nenhuma recebem. Com furor atacam o inimigo já fraco,

de perto, e enterram-lhe a lança de lâmina larga

nos corpos e encharcam de sangue as espadas luzentes.

Empapada ficava a praia e cheia de corpos:

sobre montes de cadáveres os soldados avançam:

Alguns dos vencidos recuam, fogem, em altas montanhas

se escondem: em matos cerrados já não se sentem seguros:

vagueiam por aqui, por ali à maneira de ovelhas,

que o leão carniceiro persegue com dentes vorazes

e desgarra medrosas por ínvios desertos,

ou como laboriosas abelhas que a negra fumaça

expulsa da colmeia. Assim por caminhos estreitos

se precipitam e se embrenham pelos matos esconsos.

Sob o rigor do frio, entregue às chuvas e fomes,

sucumbiu a maior parte: a morte lhe domou a altivez!

O temor da guerra cruel invade os destroçados: começam

a abrandar os brios ferozes do coração indomável.

Já desejam reparar os danos da ruptura das pazes.

Vão ter com o ilustre Chefe e imploram sua aliança

e direitos de amigos. Leis que impuser, sejam quais forem,

prontificam-se a cumpri-las. Pedem paz e perdão.

Recebe-os com mansidão o Chefe valente.

Dá-lhes a paz e mais as leis. Em seguida lhes manda

que se abstenham de festas sangrentas, onde dantes soíam

cevar-se em carne humana, como feras vorazes.

Reunam-se em aldeias, onde possam aprender a lei santa

e os mandamentos divinos do Pai celestial.

Comecem finalmente a sacudir dos ombros o jugo

do tirano cruel e voltar à justiça de Cristo.

Submetem-se alegres à invencível bandeira

do Rei supremo e regozijam-se de seguir no futuro

as divinas campanhas de Cristo. O furor e a cólera antiga

desaparecem por completo: das ávidas fauces desterram

o sanguinoso apetite de espedaçar membros humanos.

Também ordena por fim que, pacificados e mansos,

paguem tributo anual ao grande Rei lusitano,

cujo maior anseio é espalhar entre os povos selvagens

a doutrina de quem é o eterno Senhor do universo.

Não foram as pedrarias do Oriente e as grandezas do Ganges,

nem as especiarias perfumosas que a Índia derrama

do seio fecundo, terra donde o sol lança à corrida

seus chamejantes cavalos: foi, sim, o zelo abrasado

de levar teu nome, ó Cristo, a todas as gentes,

em qualquer clima da terra, o que moveu o régio peito

a afrontar sendas desconhecidas, trabalhos na terra,

ameaças no mar, e a rasgar com esquadras inteiras

oceanos enfurecidos e dantes jamais navegados.

Porisso o Pai onipotente, rei do imenso universo,

tornou temido de todos o nome de nosso monarca:

depois da Europa, Ásia e África com seus vastos desertos,

deu-lhe agora o domínio desses povos brasis,

peitos ferozes, gente indomável que no sangue dos homens

dessedenta as fauces sequiosas. Ele os curvou ao Império

e os fez treme diante das lusas quinas gloriosas.

Que alegrias não alvorotam teu peito fiel,

piedoso Chefe, ao veres povos, selvagens há pouco,

dobrar a cerviz, ao jugo, aceitar a amizade

do Pai celeste e abraçar suas leis de bom grado

ansiosos por conhecer o excelso nome de Cristo.

Mas o inimigo ainda não despiu de todo o ódio implacável.

Ficam por domar ainda em justiceira batalha

dragões de cristas erguidas e de colos altivos

que vomitam chamas da dupla boca de ferro.

Avante pois, com o auxílio divino, a debelar pelas armas

os inimigos cruéis e a desterrar costumes de feras!

Dobra-lhes a cervizes e lança-lhes os suaves grilhões

da lei divina: reconheçam o domínio do Pai sempiterno

e recebam a vida celeste com peito sincero,

venerando o nome divino de Jesus soberano.

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